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sexta-feira, 26 de janeiro, 2007
Brazucofobia
Há uma questão primordial, uma dúvida que muitas vezes assalta o espírito conturbado do homem moderno e que provoca acesas discussões entre a turba masculina: afinal, qual é o país que tem as gajas mais boas do mundo ?... Assim no geral, tipo, em cada dez, nove são boas e a outra é mesmo muita, muita boa! As opiniões dividem-se. Apesar de nunca qualquer empresa de sondagens se ter debruçado à seria sobre o pertinente assunto, russas, ucranianas, húngaras, suecas, holandesas, inglesas, francesas, espanholas, estão entre as mais mencionadas. Sobre esta problemática tenho uma máxima: o país com as mulheres mais bonitas do mundo é aquele onde estivermos naquele momento. Daí o constante suplício em que vivem os espíritos mais lúbricos... Na cidade, a rua, o centro comercial, a discoteca, o quarto, por aí fora, é sempre onde estão, que estão as mulheres mais bonitas do mundo.
Há no entanto uma excepção… Até considero que existem inúmeras actrizes de telenovela brasileiras facilmente rotuláveis de ‘gajas boas’. Na minha adolescência, como qualquer adolescente normal da minha escola, apaixonei-me pela distante Sandrinha da minha turma, e simultaneamente pela Bruna Lombardi e pela Maitê Proença. Sou daqueles que naturalmente entram em transe quando vêem aqueles corpos anatomicamente arrojados onde se verificou uma mistura geneticamente perfeita entre sangue europeu e sangue índio da amazónia, a sambarem no Carnaval, a rebolarem verticalmente no écran de televisão de uma forma que mais corpo nenhum do mundo consegue rebolar. Considero que a ‘bunda’ brasileira deveria ser considerada património mundial. Cheguei a ponderar comprar um bilhete na Varig de ida-e-volta no mesmo dia só para ver o programa de TV da saudosa e iconográfica “Tiazinha”… Mas a realidade é que a mulher comum brasileira, no geral, é disso que estamos a falar, é feiazita! Eu nunca fui ao Brasil mas faço esta polémica afirmação apoiado nos relatos deprimentes de amigos que já foram e depois vieram desapontados e sem os relógios de pulso. Reforço a tese com a observação minuciosa que tenho efectuado às brasileiras com que amiúde me cruzo no dia-a-dia nas carreiras suburbanas dos transportes públicos que sou forçado a frequentar.
No entanto, a brazuca comum (‘brazuquis emigrantis’) que facilmente encontramos em Portugal a servir numa qualquer churrascaria ou em qualquer bataclã, não deixa de exercer um enorme fascínio no portuga comum, dado o seu elevado IF (Índice de odibilidade). A brazuca compensa o seu visível deficit de beleza e graciosidade com uma elevada IHPC (Incrível Habilidade Perfomática na Cama) e ao mesmo tempo uma impressionante TCN (Ternura Carinhosamente Naif), características aparentemente contraditórias mas que estabelecem um equilíbrio energético nos dois principais chacras do incauto amigo que até então se limitava a acompanhar a sua esposa à missa todos os domingos, aproveitando para deitar timidamente o olho à catequista. Se há portanto coisa de que não se pode acusar o portuga comum, é de só dar valor à beleza exterior. Não senhor, não tem nada a ver com a beleza, nada disso, é algo de mais profundo. Tem mais a ver com aquilo que o corpo da mulher, belo ou não é indiferente, é capaz de fazer. Para o portuga a beleza não tem rosto, tem corpo, quanto mais funcional, melhor. E aqui, as brazucas estão como enguias na água, onde a eloquência proverbial também é um dos seus pontos fortes. Atente-se o quão poderosas podem ser as palavras “vem cá meu bem, vem que eu faço um cafuné p´ra oncê” na boca duma brazuca... (trad.: “vinde até mim meu querido, vinde que vos farei uma qualquer sevicia sexual de que tão cedo não vos esquecereis”). Só de pensar causa arrepios.
Não é qualquer mulher que faz um homem. Mas uma brazuca faz-lhe a cabeça, de certeza, e depois, faz-se à vida. Pode achar-se caricato o levantamento popular d' “As Mães de Bragança”, contra as hordas de brazucas que então infestavam a noite de trás-os-montes e que chegou a ser notícia na internacional Times. Por umas semanas fomos então o povo mais xenófobo da Europa… Mas há um fundo de verdade, era uma realidade, percebia-se a inquietação daquele mulherio fatela e beato porque de facto muito lar se tem desfeito, muito poder paternal se tem regulado, por culpa das famigeradas brazucas. Conheço pessoalmente um caso. Encontrei o tipo um dia destes no LIDL acompanhado não da mulher e do filho, como já o encontrara anteriormente, antes acompanhado da muié e da nova mamãe entretanto mandada vir directamente das profundezas do Ceará. Carregava com uma saca de 20 kilos de comida para cão, ele que sempre odiara cães… Receio que, da próxima vez, o encontre apenas acompanhado do carrinho de compras… e do cão.
Publicado por jorge b pelas 11:10 AM
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quinta-feira, 21 de dezembro, 2006
O anti-golo
Sendo o guarda-redes o jogador mais importante duma equipa de futebol, é injusto que não lhe seja dado o direito de festejar uma grande defesa, que esbraceje esfusiante, que corra em direcção do público em linha recta ou em zigue-zague, que dê piruetas de contentamento, que tire a camisola, como faz qualquer outro jogador quando marca um golo. Antes pelo contrário, ao guarda-redes parece ser exigido que não exteriorize, contenha qualquer sentimento de satisfação ou orgulho que naturalmente sente sempre após uma defesa que evita o golo... Excepção seja feita nos penaltys, porque o próprio guarda-redes sabe que só por milagre defende um penalty, é-lhe concedido então o direito de demonstrar alguma euforia, não pelo mérito, antes pela sorte do momento, porque na verdade qualquer frangueiro consegue defender um penalty, mas só um grande guarda-redes pode fazer uma defesa indefensável, saltar mais alto que o Michael Jordan e ao mesmo tempo ser mais rápido que o Obikuelo, desafiar as leis da gravidade e ainda cair no chão em grande estilo, p’rá fotografia. Ou seja quanto mais espectacular é a defesa, esse outro climax do jogo, proporcionalmente deverá ser a modéstia ou o ar de completa indiferença do guardião após a sua concretização. Tenho presente a cara de enterro que o Vitor Baía fazia sempre que efectuava uma grande defesa, capacidade que o jogador desenvolveu com grande esforço e dedicação. No entanto, qualquer observador mais atento veria no seu rosto o esforço para conter o impulso de gritar "boa defesa!!! sou o maior ãh, sou ou não sou ?! o que era de vocês sem mim ãh ?! quantos já estávamos a mamar se não fosse eu ãh, ãh ?!"
As câmaras fixam-se sempre no guarda-redes após uma boa defesa. E quando é uma daquelas bolas indefensáveis, quando era golo certo, o realizador brinda-nos com uma macro da face do guarda-redes. Aqueles rostos escondem o desejo do grito libertador de afirmação “sou o maior!!!”. Mas ao invés, o guarda-redes é forçado a desenvolver truques, tiques, capacidades psíquicas incríveis para conter ou disfarçar o contentamento, para simular a modéstia que é obrigado a ter. Por exemplo, o Quim do Benfica após uma grande defesa grita sempre com os defesa do género "caralhos deviam estar a marcar aquele cabrão para a bola não lhe chegar aos pés e se chegasse darem-lhe uma sarrafada e se mesmo assim o gajo chutasse colocarem-se entre eu e o caminho da bola para que não tivesse de efectuar esta extraordinária defesa e assim não estar para aqui aos gritos com vocês ao mesmo tempo que me concentro já no canto que vai ser marcado a todo o momento". Foi a maneira que ele lá arranjou de abafar o desejo de celebrar. Já o Ricardo do Sporting nunca precisou de se esforçar em desenvolver qualquer truque porque tal nunca se mostrou necessário.
O golo está sobrevalorizado em detrimento do anti-golo. Os relatadores da rádio nunca dizem “grââââââââân'defesa!”, não se fazem concursos para se determinar “a melhor defesa da época” ou se atribuem prémios “luvas de ouro”. O que é injusto. O guarda-redes continuará a ser eternamente menosprezado porque era o puto mais tosco, logo, aquele que era colocado onde ninguem queria ficar, à baliza.
Publicado por jorge b pelas 11:50 PM
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quinta-feira, 28 de setembro, 2006
Inseparável
De toldo em toldo, por entre os beirais, debaixo das varandas… Arrependo-me de não ter comprado aquele distinto guarda-chuva em Oxford. Imagino quantas e quantas vezes coleguinhas invejosos me perguntariam “epá que guarda-chuva espectacular tens tu, bem melhor que o meu, oferecido pela minha sogra e que está para aqui cheio de problemas, principalmente infiltrações!”. E ferrugem nas varetas, acrescentaria eu, e já agora, o botão da ignição ainda funciona ?
Sempre que chove é assim, aquele guarda chuva não me sai da cabeça, da minha cabeça inundada, que não é impermeável como o resto do meu corpo.
Todos os guarda-chuvas deviam ser comprados em lugares solenes, históricos como Oxford, Vaticano ou Pigalle. E aquele, tenho a certeza, era especial, arriscaria dizer que era o guarda-chuva da minha vida, aquele guarda-chuva que toda a gente sonha um dia comprar. Era um guarda chuva com cabo em madeira, mas madeira genuína, bem polidinha e envernizada. Não me admiraria que tivesse sido esculpido à mão, madeira de uma árvore nobre, esculpida por artesãos de uma tribo africana em vias de extinção. O tecido negro desenvolvido num laboratório da NASA, capaz de repelir a mais avassaladora das monções marcianas. Ainda me lembro quando o vi, foi como se tivesse sido ontem antes do almoço. Estava um dia de sol radioso e enquanto a maralha se encontrava entretida na loja a comprar pólos e t-shirts a dizer Oxford em letras grandes na parte da frente, eu estava de volta do guarda-chuva, o único guarda-chuva com cabo de madeira escura, bem polidinha, que estava naquele cesto esquecido no meio da loja. Estive ali uns bons quinze minutos naquele “levo, não-levo, levo, não-levo, levo, não-levo, levo, não-levo, levo, não-levo, para quê estas manias, levo, não-levo, levo sim, não levo não, levo, não-levo, levo, levo, não-levo, levo, é caro, não-levo, levo, não-levo, levo, não-levo…”… Tomei a decisão de que hoje me arrependo sempre que me chove em cima.
Já perdi dezenas e dezenas de guarda-chuvas comprados aqui e ali, quase sempre em aflição ou numa ronda tediosa por alguma loja do chinês. Perco-os todos porque não têm o significado especial que, tenho a certeza, aquele teria. Quantas vezes me levantei do banco de um transporte publico e passados alguns momentos me apercebi “olha esqueci-me do guarda chuva no banco do transporte público” e de seguida raciocinei “espera, não está a chover, aquele guarda-chuva no fundo não me diz nada, não vale a pena ir feito doido atrás do transporte público para o resgatar, deixa-o seguir o seu destino que, decerto, será servir de uso a utente mais necessitado que eu. Mas agora reparo, ainda estou dentro do transporte publico… que se lixe o guarda-chuva!”. É pena que esse utente necessitado que por vezes sou eu, nunca tenha encontrado um guarda-chuva perdido. O que me leva a concluir que, à excepção de mim, toda a gente tem um guarda-chuva que além de o proteger da chuva, lhe diz alguma coisa, é especial o suficiente para dele nunca se separar.
Publicado por jorge b pelas 09:42 AM
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quarta-feira, 20 de setembro, 2006
A palavra F
Vejo uma série televisiva de lésbicas no canal 2 e aprendo algumas coisas: que uma “obsolésbica” (de lésbica obsoleta) é uma lésbica que já não exerce, que assim como existem clínicas para alongamento do pénis, existem clínicas para rejuvenescimento da vagina, visando esta intervenção não só o restauro estético mas também o estreitamento do órgão sexual. “Querida porque vais fazer isso ? Já és tão apertadinha…” (personagem lésbica dixit). Aprendo também que é possível a fertilização no lar lésbico, do género, “pronto querida, agora vou penetrar-te… com esta seringa, este tubinho, e este esperma de um preto qualquer, ahahahah” (delírio do autor do blog).
Acima de tudo constato a facilidade de engate que existe naquele universo. Só Deus sabe o contorcionismo que os heterossexuais têm de fazer para engatar, no meu caso, a dificuldade que tenho em encontrar uma tipa com os copos, à noite no Bairro Alto. Facilidade de engate e espontaneidade já por mim igualmente constatada entre o meio gay masculino. Nunca vi malta ir de um olhar ao linguado em tão poucos segundos. Uma vez estava no Frágil e vi um puto novo a dançar no meio da pista aos beijos com outro. Escusado será dizer que a cena deu-me volta ao estômago, pareceu-me repugnante, etc, e assim afirmar a minha masculinidade. Naquele momento presumi serem namorados mas, entre dois goles na imperial, a coreografia fez o rapazinho voltar-se para o outro lado e começar aos beijos com outro puto apanhado completamente desprevenido. Dificuldade, só mesmo entrar no Frágil.
Mas a facilidade de engate nas lésbicas lindas de morrer como as da série é tal que uma das personagens desenha no computador uma teia de ligações com dezenas e dezenas de lésbicas que entre si fornicam ou já fornicaram, resultando numa interessante emaranhado gráfico de onde podemos facilmente concluir o regabofe que deve ser, e quão divertido deve ser, ser lésbica.
Como dizia um amigo meu, “epá se fosse mulher era uma granda puta!”. Eu não iria tão longe. Mas lésbica era, de certezinha.
Publicado por jorge b pelas 10:17 AM
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sábado, 9 de setembro, 2006
Insónia
Vejo um programa chamado fiel ou infiel, na TVI. A lógica é a seguinte: põem uma tipa completamente irresistível a dar emprego a um tipo qualquer das obras, oferecendo-lhe um valente ordenado, o seu chorudo corpo e demais mordomias caseiras, entre as quais o luxo dos seus aposentos e um marido ausente. No estúdio a namorada acompanha em diferido a cena filmada à socapa, na expectativa de ver o amado resistir à tentação da sedutora. O apresentador, um brasileiro fã de laca para o cabelo e de calças à meia canela, vai gozando o prato, lançando discretamente achas para a fogueira alimentada pela traição que se vai avizinhando à medida que a loira tentadora de serviço se vai despindo e acariciando a vítima que de nada desconfia.
Às tantas o dito brasileiro começa a conjugar para o público presente o verbo Freud, eu Freudo, tu Freudes, ele Freude, nós Freudemos, vós Freudeiam, eles Freudem. Um momento bonito de televisão.
Além da eventual palhaçada que o programa gera, levantam-se questões pertinentes sobre a fidelidade, no caso, a masculina. Na circunstancia em que estava o pobre aventurado, 99,99% dos homens não resistiriam a comer a tipa, por mais comprometido e respeitável chefe de família que fosse. Portanto, não temos que o censurar, inclusive a namorada que só o fez, e com razão, porque de facto o tipo podia fazer as coisas sem necessidade de a achincalhar. Optou pela técnica do coitadinho, algo que por mais sincero que fosse, dispensava-se em nome do bom carácter. Mas foi a forma que o tipo entendeu ideal de criar cumplicidade, de pôr as mãos com outro à vontade no tesouro que tinha pela frente.
Ora, apenas estando reunidas todas as condições que a seguir se descriminam, poderia qualquer um de nós homens estar a salvo duma investida por parte duma loira daquele calibre (atenção, note-se que a tipa ás tantas põe-se de cuequinhas e de gatas, gatinhando à volta da incrédula vítima):
- Estar completamente satisfeito emocionalmente com a sua relação actual;
- Estar completamente satisfeito sexualmente com a sua relação actual;
- Estar sexual e emocionalmente satisfeito;
- Ter tamanho respeito e consideração pela companheira ao ponto que a ideia de estar a traí-la funcione como um fantasma castrador, coisa que naturalmente lhe impossibilita uma ereção de jeito, por mais habilidosa que seja a loira;
- Ter feito sexo há menos de uma hora;
- Ter comido a irmã gêmea da loira há menos de 24 horas.
Ainda assim, para resistir a um pedaço daqueles, uma mãozinha lá de cima, intervenção divina, seria bem vinda.
Curiosamente, as mulheres são mais parcas, basta-lhes amar o parceiro para que não se concretize a traição com terceiro. Mais um dos mistérios da insondável psique feminina que jamais entenderemos.
Escrito a ouvir obsessivamente “Black Swan” do Thom Yorke.
Art: Steven Stahlberg
Publicado por jorge b pelas 05:36 PM
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quarta-feira, 23 de agosto, 2006
À primeira vista
Já perdi a conta ao número de vezes em que me apaixonei à primeira vista. Assim por alto terão sido umas duas… talvez três vezes, no máximo. Mas este número refere-se apenas aquelas vezes em que houve correspondência, ou seja, a outra pessoa também se apaixonou à primeira ou até me perder de vista, o que representa aproximadamente 1% de todas as vezes que me apaixonei à primeira vista. Não é muito alta a minha taxa de sucesso, eu sei. Mas convém desde já esclarecer que este número não engloba aquelas vezes em que senti um sentimento avassalador do género “agora comia esta gaja” ou a versão soft “esta tipa era bem comida”. Mesmo neste tipo de sentimentos, apesar de em ambos subsistir uma vontade incontestável de comer a pessoa em causa, há que notar que o imediatismo do primeiro contrasta com a calma e sapiência que denota o segundo. De facto quando se pensa “esta tipa era bem comida” não o era já ali, na fila, frente ao caixa do banco, mas depois, noutro tempo, noutro espaço, mas seguramente nas próximas horas. Não entram nas estatísticas as vezes que sentimos que era mesmo aquela, temos a absoluta certeza que era com aquela pessoa que seríamos capazes de ser felizes até o resto da noite.
Eu tenho para mim a teoria que todos os amores são-no à primeira vista. Não ?! Pensem bem, façam rewind, quando se olharam pela primeira vez, não se sentiu para ali já qualquer coisinha ? Claro que sim. Só que na altura, como ainda estavam com o ex-namorado na cabeça estavam demasiadamente ocupadas para se aperceberem de que estavam a apaixonar-se à primeira vista. Estas coisas passam-se quase todas ao nível do subconsciente. E se o consciente já é deveras inacessível, que se dê portanto o benefício da dúvida.
As paixões à primeira vista são um sucesso, as mais procuradas e nunca passam de moda. É como apostar na bolsa. Os nossos gerentes de conta dir-nos-ão para primeiro efectuarmos uma profunda análise técnica e aos fundamentais da acção em questão antes de nos atirar-mos de cabeça. Podemos dar-nos a esse trabalho e até sermos bem sucedidos. Mas ninguém resiste de vez em quando a apostar numa acção apenas porque houve para ali uma química qualquer, algo nos dizia que era aquela que ia subir. No amor à primeira vista também é assim, há ali qualquer coisa, não nos gráficos, mas no olhar. E quando um olhar tem a capacidade de desviar o nosso de outros pontos de interesse, então cuidado.
Sugestão para googlar: "Alessandro Bavari"
Publicado por jorge b pelas 11:15 AM
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sexta-feira, 18 de agosto, 2006
O desejo de sair dali
A saída na próxima estação de metro é habitualmente precedida de uma tensão à qual quem se encontra a barrar a passagem de alguém não fica indiferente. Hoje mal as portas se tinham fechado na estação do Parque, atrás de mim alguém me interrogou sobre as minhas intenções, se ia sair na próxima estação. Acenei com a cabeça, num gesto reconhecidamente universal de aprovação e concordância que qualquer habitante da Aldeia dos Macacos compreenderia. No entanto decorridos alguns segundos a pessoa em questão voltava, impaciente, a fazer-me a mesma pergunta. Obviamente que pretendia uma declaração, se possível por escrito, um juramento sob compromisso de honra em como de facto eu iria sair na próxima paragem acontecesse o que acontecesse, que em caso algum jamais lhe obstruiria o caminho em direcção da desejada porta de saída. Limitei-me a ignorá-la, fingi que ia a ouvir MP3, sentindo no entanto que com o aproximar do momento em que as carruagens parariam e as portas se abririam em perfeito sincronismo, crescia a ansiedade não só de quem me queria dar com um guarda-chuva na cabeça, mas de todos os passageiros em geral pelo aguardado momento de evasão.
Por razões de natureza técnica e aerodinâmica, numa viagem de avião os momentos críticos são o levantar voo e a aterragem. No metro, por questões relacionadas com a psique humana, são as entradas porque toda a gente tem medo de não ter lugar naquele éden, e as saídas porque toda a gente tem um incontrolável desejo de sair dali. A implacável porta, espécie de guilhotina do desejo, parece pois ser geradora de pânicos mal disfarçados. Mas é compressível. O metropolitano é por seu turno uma espécie de elevador atulhado de gente que se desloca na horizontal, com a agravante de não dar azo a fantasias sexuais como as que temos nos elevadores, principalmente naqueles do Centro Comercial das Amoreiras. As probabilidades de se entrar numa carruagem deserta e na estação seguinte entrar uma atraente revisora ninfomaníaca são ínfimas. Nas Amoreiras já não se pode dizer o mesmo, se nos entrar uma daquelas lojistas.
A grande verdade é que o ser humano sente-se sempre desconfortável em lugares onde não possa ter fantasias sexuais. Sente logo o impulso de sair dali para fora o mais rapidamente possível. E se estiver alguém no seu caminho, passar-lhe à frente ou nessa impossibilidade, certificar-se desde logo que o imbecil não atrapalhará a fuga. Ora, uma carruagem de metropolitano atulhada de gente, além do lar da minha avó, é o único lugar do mundo onde tal acontece, onde o ser humano se resume à sua mais miserável condição, de gado transportado sem o mínimo de condições para fantasiar. Obviamente que há rapaziada para tudo, mas pessoalmente considero que estar espalmado a 50 metros de profundidade entre as nádegas de uma preta gorda gigante não seja uma fantasia sexual.
Publicado por jorge b pelas 11:31 AM
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sexta-feira, 11 de agosto, 2006
Onde todos sabem o teu nome
Houve dois espaços de restauração onde me senti assim como no “Cheers”. “As primas” era uma tasca decrépita ali no coração do bairro alto, onde se podiam beber umas bejecas sentado numa daquelas cadeiras e mesas típicas das tradicionais tabernas. Geralmente era visível uma pequena cascata de água que descia do degrau que dava acesso à "casa de banho", entre outros pormenores bizarros que faziam as delícias de quem procurava uma certa decadência cenográfica condicente com o seu estado de espírito. Era um local onde parava uma fauna alternativa e onde se podia gritar, aquele tipo de grito gratuito que liberta, falar alto sem que alguém parasse para olhar e pensar “olha aquele gajo está com os copos”. Isto era muito bom.
Havia também lá uma ‘juke-box’ equipada com dezenas de singles, hits de décadas passadas. Funcionava a moedas de 20 escudos e era lá que tinha descoberto e passado a ouvir religiosamente uma musica fantástica do Júlio Eglésias ”ni te tengo, ni te olvido”, afinal, uma espécie de hino da minha existência, cujo romantismo contrastava com o realismo descolorido do espaço, iluminado pelas lâmpadas fluorescentes mal pregadas ao tecto. Enquanto a musica tocava, momento sagrado, tentava abstrair-me de tudo e todos, e entre a algazarra tentava decifrar o que de tão dramático e ao mesmo tempo belo o espanhol dizia. O exercício era difícil mas este era sem dúvida o tipo de desafio e contraste que tanto apreciava.
“
No acierto a ver el camino
Que me separe de ti
No puedo seguir contigo
Ni puedo vivir sin ti.
“
Era uma provocação aos presentes que, desconfortáveis, não pelas palavras, imperceptíveis aos ouvidos alternativos, mas pela harmoniosa orquestração, se dirigiam logo à máquina para que o Brian Adams ou o Bruce Springsteen repusessem o necessário equilíbrio decadente do ambiente. Lá mais para o fim da caneca, ouvia-se o “sweet sixteen” do Billy Idol, o mote para mais uma. Gastei uma fortuna naquela juke-box, nos matraquilhos, nas bejecas.
Só muitos anos mais tarde reencontraria o prazer de estar assim num sítio “where everybody knows your name”. “As tias” era a alcunha da ‘tasca’, ali ao Pateo Bagatella, zona chique (atenção ao pormenor do Pateo, nada de confusões com pátio). Até à tarde, era um restaurante self-service muito bem, mas depois transformava-se no meu 'centro diurético privado'. Era raro o dia que não me encontrassem ao final da jornada de trabalho naquele canto do balcão precisamente com vista para as torneiras da imperial. Havia quem me perguntasse o porquê de tanta fidelidade. O segredo, bem escondido, residia na filha da dona ‘tia’, uma prima portanto, o retornar ao ambiente familiar. A pequena que ali auxiliava a mãe, era dotada de uma rara beleza tipicamente portuguesa. Explico que para mim uma rara beleza tipicamente portuguesa é aquela que me faz lembrar a beleza das mulheres da terra da minha avó, quando eu era pequenino. Ou seja, eu conseguia imaginar a ‘prima’, de traje regional, em cima do palco de madeira lá do pavilhão multiusos do grupo desportivo da terra, a dançar o vira. Mas este tipo de alucinação durava pouco. Ao fim de duas imperiais ela já despia o traje regional revelando as suas deslumbrantes formas valorizadas por uma sensual lingerie preta… Estes contrastes sempre me seduziram e inspiraram!
Mas havia algo mais que mero voyerismo. A pequena dava conversa, assim como o resto das suas empregadas ucranianas, cuja vulgar beleza era tipicamente ucraniana. Explico, a vulgar beleza tipicamente ucraniana, conseguia imaginá-las de volta de mim tentando-me seduzir… a beber mais um scotch enquanto elas continuavam no scotch de lúcia lima, antes que saltassem para o palco do bataclan ou fizessem mais uma table-dance a alguém abastado. Quanto à conversa em si, falava-se de amor mas, naturalmente na terceira pessoa, do ponto de vista do observador e observadora, pois que o decoro e ausência de tremoços eram política da casa. A pequena já tinha perdoado uma traição do namorado e eu interrogava-me como era possível ela andar com um azelha daqueles que não sabia sequer fazer bem “as coisas“ ao ponto de ter sido apanhado. A traição a uma mulher daquelas teria que ser tratada com um secretismo e requinte cirúrgico, só ao alcance de alguns. Ela merecia melhor que aquele gajo. Mas quem era eu para dar conselhos, mero enfermeiro curioso.
Uma vez lera algures acerca de uma palavra russa que não teria tradução para português, mais ou menos assim, “razbliuto” e introduzia-a na conversa. Tive a confirmação duma das empregadas ucranianas da bela ‘prima’, a palavra significava um determinado sentimento que se sente depois de uma relação de amor que acabou, restando portanto apenas amizade e simpatia, cordialidade. E disse-me isto dizendo-me "paciência senhor", como se fosse eu vítima do alegado sentimento de outrém. De facto, só na rússia, malta esquisita. Do ponto de vista latino não tem cabimento sentir-se tais sentimentos por alguém que já amámos e não amamos mais. Para quê, portanto, haver uma palavra para tal quando se tem pratos à mão e uma empregada doméstica russa para apanhar os cacos ?...
O sítio das ‘tias’ já não existe. Curiosamente, passadas algumas semanas após eu ter sido colocado em trabalho fora de Lisboa, o mítico local encerrou. E “as primas” já não são o que eram. Já não se grita, arranjaram os canos, não há cascata.
Publicado por jorge b pelas 11:23 AM
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sexta-feira, 28 de julho, 2006
Sem antena
Chego ao carro e surpresa! Não tenho espelho retrovisor lateral. Não há sinais de vidros partidos no chão, logo, fui roubado. Refeito do choque inicial de ver o mecanismo eléctrico de regulação do espelho à vista, apercebo-me de duas duras realidades. A primeira, dramática, tenho um carro velho! Tomo consciência de que o meu carro já não é um carro, é um armazém de peças ambulante. A segunda, é mais uma implacável lógica da vida. Quem me roubou o espelho era alguém que provavelmente tinha experimentado a sensação que agora experimento. Alguém que portanto estava extremamente necessitado de um espelho retrovisor lateral e, acto continuo, vendo o meu ali à mão de semear, não conteve os seus impulsos mais básicos.
Debruço-me ainda mais sobre o perfil do assaltante. É teso, como eu, se não tinha um carro novo e não um modelo descontinuado há cerca de uma década. E deve ter tido o mesmo choque que tive quando liguei para o concessionário a saber o preço de um espelho novo. Só que ao invés de pagar e calar, resolveu gamar e calar.
A atitude desta vítima que rapidamente passou a vitimador não é totalmente censurável. O preço exorbitante das peças, a meu ver, justificaria um acordo tácito entre todos os automobilistas, onde o gamanço seria consentido em esquema de roulement. Nenhum dos participantes ficava a perder. Fui gamado, vou gamar outro que depois irá gamar outro e assim sucessivamente, ficando sempre os participantes no esquema apenas privados dos respectivos espelhos durante umas horitas. Levava-se assim à falência a poderosa industria das peças ou, pelo menos, provocava-se um saudável crash nos preços… Julgo aliás que o acordo já existirá quanto às antenas. Ninguém compra uma antena nova, pois não ?
Publicado por jorge b pelas 11:32 AM
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quarta-feira, 5 de abril, 2006
Ósculomania
Tento em vão lembrar-me do meu primeiro 'bjs'. Foi desde aquele momento em diante que esta manifestação de carinho e ternura virtual, o 'bjs', passou a rematar os meus mailes para as amigas ou ilustres desconhecidas, musas involuntárias e afins. É no tocante às ilustres desconhecidas que, por força da nossa actividade na rede as vamos conhecendo amiúde, tal ritual de despedida é questionável. Embora mesmo os 'bjs' para as amigas e conhecidas o seja em certa medida. Se fossemos a pôr os ‘bjs’ em dia, ao vivo, provavelmente a coisa podia dar para o torto. Eu dar para o torto, sublinhe-se. Se os namorados delas estivessem por perto, poderiam não levar a bem tanta beijoquice, tanto ‘bjs’.
Mas terá lógica estarmos a mandar 'bjs' às ilustres desconhecidas, a rematar as nossas missivas com ‘bjs’ para alguém cujo rosto nunca vimos, quando no fundo com todo o nosso palavreado simpático estamos desejosos de saber as suas medidas ? Não estaremos a abrir o flanco, estrategicamente falando ? Devo no entanto dizer que considero o ritual de despedida ‘até já’ da TMN muito mais atrevido e intimista que o ‘bjs’. ‘Bjs’ mandam-se a toda a gente, enquanto que rematamos com um ‘até já’ quando por exemplo nos despedimos da outra pessoa dizendo-lhe para ir andado que já lá vamos ter. Esperando obviamente que quando lá chegarmos essa pessoa já esteja em lingerie, de preferência preta. Não é pois de estranhar que quando telefonamos para mudar de tarifário e a pequena telefonista depois de atender a nossa solicitação, de uma maneira educada e cortez despede-se com um ‘até já’, imediatamente nos surja a dúvida do 'onde?' e fiquemos cheios de vontade de lhe voltar a telefonar para trocarmos para o tarifário anterior.
Ainda assim, o ‘bjs’ pode ter uma indubitável carga perniciosa que qualquer alma mais sensível poderá detectar a milhas. E tomo como exemplo recente o de uma ilustre desconhecida que, depois de tropeçar neste blog, me interpelou de uma maneira educada e cortez, sem 'bjs'. Respondi-lhe da mesma maneira, mas carimbando a mensagem com 'bjs' no fim. Isto foi involuntário, juro. Quer dizer, ao mesmo tempo premeditado e consciente. Se fosse um gajo qualquer a interpelar, nem sequer respondia. E se respondesse, naturalmente que não lhe mandava 'bjs', quanto muito a versão oficial masculina, 'abraços'. Daí a coisa não ser totalmente involuntária. E depois, imediatamente pensei "olha agora que me despedi dela com bjs, vou como que contaminá-la, e ela, no seu próximo mail, também me vai mandar bjs, pela certa, verificando-se portanto uma certa consonância, os primeiros passos de uma cumplicidade que porventura se quererá crescente". A ilustre desconhecida não respondeu. Embora eu no lugar dela não tivesse feito a mesma coisa. Mas temos de respeitar e agradecer a estas pessoas que nos põem a pensar nestas questões.
Publicado por jorge b pelas 01:37 AM
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terça-feira, 28 de março, 2006
Papa®
Vejo a publicidade de uma vidente que destaca ser a única dentro do seu ramo que foi recebida pelo Papa. Não diz qual deles, não interessa qual, mas compreendo a ânsia de muitos em serem recebidos por alguém desde que seja Papa. Compreendo a importância do ponto de vista do prestígio e de marketing, das sinergias daí resultantes, e imagino o que seria se eu fosse recebido pelo Papa. Sair-me num sorteio qualquer a oportunidade de entrar na agenda de recebimentos do Papa, oportunidade que não desperdiçaria nem que nesse dia tivesse com cólicas terríveis nos intestinos, com uma luxação no ombro e a vomitar uma matéria verde e viscosa. Acho que me iria portar bem, tentaria disfarçar, disfarçar que sou ateu.
Já me estou a ver numa pequena fila de vips e um empregado do Vaticano chamar pelo meu nome “cinhôr yorgué” (“Senhor Jorge” naquela espécie de Vaticanês) para ir dar um bacalhau ao Papa. Next please! Depois, provavelmente faria questão de alertar imediatamente qualquer visitante deste blog do facto do seu autor já ter sido recebido. “Já fostes ao blog do gajo que foi recebido pelo Papa ? – Ainda não fui lá hoje mas quero ver se passo por lá no intervalo do velório do meu pai.” Provavelmente mandaria fazer uma t-shirt e não hesitaria à porta do Lux: “Boa noite posso entrar ? – Cinco euros faz favor! – Não sei se já reparou na minha t-shirt ?… - Isso a mim não me diz nada! – Aí sim, e este diploma passado e autenticado com o selo branco pelo Vaticano ?! – Peço imensa desculpa, aqui têm um cartão de cliente limpinho!” Isto é só uma pequena amostra. Ser recebido pelo Papa pode abrir muitas portas e quiçá muitas pernas. “Sabias que já fui recebido pelo Papa ?... – Aí não me digas isso que fico logo com uns calores!... – Já fui muitíssimo bem recebido pelo Papa, fui mesmo, pelo Papa, era mesmo ele, mesmo…”
Publicado por jorge b pelas 11:56 AM
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quinta-feira, 19 de janeiro, 2006
Votos aos pontapés
Agora que estão aí mais umas eleições, seria bom que todas as pessoas parassem um bocadinho para reflectir sobre a inutilidade do voto. Ao contrário daquilo que os políticos querem fazer crer, votar é objectivamente um acto efémero e redutor de cidadania, resumindo-se a uma insignificante percentagem que vale menos que a tinta de caneta gasta na cruzinha, e nada distingue e dignifica quem vota. A começar porque qualquer um, qualquer filho da puta, pode votar. Logo, a democracia está minada, o voto é anti-natura, não se verifica qualquer espécie de selecção natural. Mais nenhum animal mata por desporto e vota em alguém que não conhece pessoalmente nem trata por tu, como fazem os seres humanos. Depois, cruzinhas, só no totoloto.
É uma visão bárbara imaginar o meu talão de voto, com a tal cruzinha tão milimétricamente acertada dentro do quadrado, tão delicadamente dobrado em quatro partes, dentro de uma urna misturado com a restante molhada de talõezinhos anónimos aos pontapés, da autoria, sabe-se lá, de gente de que espécie. Assim que o talão entra para a negra urna, aquela caixa funebre da vontade e do sádio espirito revolucionário, o nosso voto deixa de ser nosso para ser o voto do povo, aquele povo que barafusta quando um gajo não pára para o deixar passar na passadeira. Isto é bárbaro, repito, esta é ainda uma democracia na idade da pedra, é como ver o meu voto ser jogado aos leões num coliseu romano. A diferença é que nem os leões querem nada com ele porque o voto, como não têm proteinas, não alimenta a vida selvagem, sacia apenas os vorazes selvagens que governam.
Assim como a televisão só é boa para quem nela aparece, o voto só é importante para o votado que, coincidência, é quem aparece na televisão!
Publicado por jorge b pelas 10:54 AM
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quarta-feira, 14 de dezembro, 2005
Bananamen
O homem cuja mulher o ache um banana, tem ali mulher para toda a vida, muito provavelmente, fiel.
O reconhecimento da bananice masculina, ao contrário do que seria de esperar, gera na mulher grandes problemas de consciência no que concerne a uma eventual traição. É que apesar de tudo, o banana não "está mesmo a pedi-las!" Apesar de uma deprimente insatisfação sexual constante, a mulher pressente que o banana também não anda por aí a gozar mais que ela. Afinal, ele é um banana, outra coisa não seria de esperar. Logo, ela não tem o leit-motiv para a infidelidade, esse mau estar, esse saber que "o gajo anda por aí", esse não saber "onde anda o gajo", aquilo que potencia o verdadeiro encornanço feminino. Aquilo que a mulher do banana sente, tem muito mais de pena do que de raiva, aquela raiva que verdadeiramente serve de combustível para o encornanço. E encornar um banana simplesmente não é estimulante, não dá pica, a acontecer, seria um episódio emocionalmente doloroso para a mulher.
O banana, que por sua vez goza de uma liberdade muito diferente de um gajo não banana comprometido, de modo nenhum se sente amordaçado numa relação. O banana até gosta. E é por ele gostar, desse conformismo, dessa submissão, que a mulher o acha banana, quase que o empurrando para uma liberdade ou para situações potencialmente estimulantes que, porque é banana, o banana não saber desfrutar.
- Prudêncio, não te importas de levar a mala da minha amiga para o quarto de hospedes?... E arrumas as roupas dela nas gavetas enquanto ficamos aqui as duas a conversar. - Repare-se que nem seria preciso perguntar, mas como estava terceira pessoa presente, não vizinha, há que dar um certo ar. - Obrigado querido! Não soa bem pois não ? Mas Prudêncio, como bom banana que é, de imediato vai escada acima carregado não com uma, mas três malas maiores que ele.
Passados alguns minutos, fazendo-se surpreendida com a demora, a mulher irá entrar de rompante no quarto de hospedes, na desesperada esperança de ver o marido banana a arfar agarrado ás cuequinhas da sua atraente e muito mais nova e enxuta amiga. Será escusado dizer que, para grande frustração da mulher, como banana que é, Prudêncio arrumou todas as peças de roupas da esbelta amiga da sua santa mulher, à excepção da roupa interior, na qual não tocou, fez questão de garantir.
A verdade é que naquela noite, a amiga hospede dará por falta de uma cuequinha...
– Só pode ter sido o sacana do taxista!
Publicado por jorge b pelas 07:19 PM
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sexta-feira, 28 de outubro, 2005
De TIR em riste
Recentemente parei o meu carro num posto Galp para meter gasolina numa daquelas bombas de pagamento por multibanco, daquelas que podemos abastecer e pagar sem ir lá dentro à loja. A bomba em causa ostentava publicidade sobre a campanha 'vice-versa' da Galp que, resumindo, nos diz que por cada litro abastecido, recebemos 5 centimos para irmos gastar no Continente. Depois, no Continente, recebemos um vale para descontarmos se voltarmos à Galp. Um circulo vicioso de onde é díficil sair, acreditem.
Atestado o depósito, tentei sem sucesso que a máquina me faculta-se o almejado vale a que tinha direito. Dirigi-me então á rapariga da caixa que me negou o dito vale, alegando que os abastecimentos naquelas bombas, especificamente, não davam direito a vale coisa nenhuma! Repliquei, que aquelas bombas ostentavam a dita publicidade e que se não davam direito ao que estava na publicidade, então que avisassem, estilo "gasolina 98, pode abastecer, mas atenção, nesta bomba não há vale desconto para ninguém". Ou então, que pusessem outro tipo de publicidade, nomeadamente daquela que se limita a sublinhar a excelência dos produtos Galp, colocando a 'vice-versa' apenas nas bombas válidas.
Mas não, não havia nada a fazer, segundo a pequena, que ainda teve o descaramente de me tentar aliciar a comprar 2 pacotes de pastilhas, que me dava 100 pontos para o cartão, tinham ordens para colocar publicidade 'vice-versa' em todos as bombas, e o sistema não permitia e impressão de vales desconto naquelas bombas de pagamento por MB.
Naturalmente que fiquei f*dido! Só vou meter gasolina á Galp por causa dos vales desconto, tinha acabado de atestar o depósito, o que me daria direito a um vale de 2 euros e picos de toblerones no Continente, que agora me era recusado injustamente. O meu primeiro pensamento foi enviar um mail á administração da Galp a expor o caso. Depois acalmei-me, e imaginei-me ao volante de um camião TIR a entrar loja adentro. Depois, resignei-me. Fosga-se, por 500 paus que seja, valerá a pena estar a chamar camiões TIR para o assunto ? Obviamente que não.
Esta história vem a propósito do que aconteceu precisamente num posto de abastecimento perto da minha casa, uma semana depois do fatidico acontecimento que relatei. Nem de propósito, o dito posto, foi literamente abalroado por um camião TIR que entrou loja adentro. Desconheço os motivos do camionista, mas compreendo-os! E agora convenço-me, mais que nunca, exigia-se um referendo sobre a liberalização da venda de camiões TIR. Antes do referendo ao aborto! Voto a favor, obviamente!
Publicado por jorge b pelas 05:12 PM
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quinta-feira, 13 de outubro, 2005
Dicionário da Espécie
Martinhar – Ter um ataque histérico de riso por causa de uma coisa objectivamente insignificante para todos, mas que especificamente para aquela pessoa tem uma piada do caraças.
Ex:
- Já viu onde tem uma nódoa ?! Hi, hi, hi, ah, ah, ah, hi, hi, hi!
- Lá está você a martinhar outra vez!
Oshar – Acto em que uma pessoa fecha os olhos para que a outra se possa sentir mais à vontade.
Ex:
- Querido, agora vou eu para cima de ti. Mas tu fechas os olhos porque me quero sentir completamente desinibida... Eu sei que tu não tiras os olhos das minhas mamas, mas não me sinto bem quando estás a ver-me nestes preparos.
- Ah, queres que eu oshe... Está bem mas desamarra-me aqui os pulsos.
Dianar – Quando uma pessoa está em paz consigo mesma, sente-se bem consigo e com o mundo, mas exteriormente está com um semblante carregado, vulgo, de trombas.
Ex:
- O que se passa com ela hoje ?
- Não ligues, está a dianar!
Joanar – Quando uma pessoa lisonjeia descaradamente a outra para que quando fizer merda, a outra se sinta constrangida na altura de passar pissada.
Ex:
- Aí o chefe hoje vem muito bonito... Quer dizer, hoje e todos os dias! Mas hoje... Aí que uma mulher fica cá com uns calores.
- Pois, pois, você a joanar-me e eu a ver!
Pereirar– Maneira de manifestar estatisticamente que se está atraído sexualmente pela pessoa que pede licença para entrar.
Ex:
- Bom dia, dá-me licença que entre ?
- Sabe que eu não sou casada... E não tenho filhos... Podia não ser casada e ter filhos, mas não... E comprei agora casa com um spread de 0,35%. Vivo sozinha... Não tenho mais ninguém. E tenho lá em casa uma colecção de jogos do europeu 2004 em dvd fantástica!
Publicado por jorge b pelas 10:40 AM
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sábado, 1 de outubro, 2005
Behind the scenes #1
- Por mais que dê voltas à cabeça, não consigo encontrar uma ideia para a nova campanha dos gajos dos telemóveis… Sabes que tenho colite nervosa. Começa-me logo a dar volta ao estômago…
- Epá, tens que fazer mais uma forcinha!
- Forcinha ?! É isso, forcinha!... Imagina, um gajo sentado numa sanita a cagar, t’ás a ver ?
- Parece-me boa ideia! O gajo apanhou uma caganeira de tanto falar ao telemóvel.
- Não pá, temos que ser mais subtis. Hum… o gajo apanhou uma caganeira porque… porque… porque comeu indiano.
- Mas o indiano dá caganeira ?
- Depende. Eu por exemplo, se beber um copo de leite já fora da validade com indiano, apanho sempre diarreia. Diarreia porque não gosto da palavra caganeira, diarreia fica melhor.
- Ok mas se o gajo está sentado na sanita, então está ao telemóvel, tem que ser!
- Não pá, não se vê que o gajo está ao telemóvel, a gente fotografa-o apenas dos joelhos para baixo!
- Estou a ver, subtileza… Calças em baixo ?
- Claro!
- Bem, já venho, vou ali à casa de banho!
- Até já.
Publicado por jorge b pelas 12:39 AM
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quarta-feira, 4 de maio, 2005
Traduções daquilo que ela grita como só ela sabe gritar
Um guia importante para compreender melhor a mulher, no caso, chefe e neurótica ao mesmo tempo.
Quando: É sempre a mesma coisa!!! Eu não disse que queria isto acabado até ontem ? Não disse ????
No fundo: Ontem á noite fui para a cama com um desconhecido mas não prestou para nada!
Quando: Senhor Amilcar, estou tão farta do seu desleixo!!!! Os seus serviços já não são necessários. Para a semana já não quero vê-lo nesta empresa! Agora desapareça!!!!!
No fundo: Ai Amilcar, de todos os empregados desta casa, você é o único com quem não tenho fantasias sexuais.
Quando: Cambada de incompetentes. Estes pedidos de encomenda estão todos mal !!! Ahhh que nervos!!!
No fundo: Por mais que tente, não consigo atingir um orgasmo!
Quando: Aqui não há discussões! É como eu digo ou podem procurar outro emprego!!!
No fundo: Já não consigo aturar mais o barrigudo do meu marido.
Quando: Quantas vezes é que já não disse que queria isto por ordem alfanumérica ah ?? Quantas ?! Quantas ??! Quantas ???!!
No fundo: Só quando me masturbo sózinha é que consigo ter prazer... Algum...
Publicado por jorge b pelas 03:26 PM
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quarta-feira, 20 de abril, 2005
Felicidade – infelicidade = Amor
Tenho andado com uma série de ideias a bailar na cabeça mas ando sem tempo para as desenvolver aqui no blog, este sítio cada vez mais inconstante. Uma delas, a que mais rodopia, era sobre uma mulher que julgava que os homens só andavam com ela por causa das suas mamas, e tinha toda a razão. Lamentavelmente falta-me tempo e neura suficiente para alimentar a minha veia literária. Mas espero desenvolver a ideia lá mais para a frente.
De vez em quando atravesso fases destas onde como que me auto-convenço que sou um cidadão e funcionário exemplar. Consigo conceber uma linha certinha na minha vida e na minha carreira, tudo tem uma saudável lógica hierárquica, parece-me a mim que o meu trabalho é importante, principalmente não levantar questões sobre o que está mal é correcto e importante. Estou a atravessar um desses períodos, o que naturalmente me inibe de escrever, esse acto sempre subversivo. Ainda por cima, instalei agora em casa televisão por cabo... Ao que um gajo chega!... Canal Playboy e tudo! A seu tempo tenho que falar no canal Playboy.
Existiria inclusive muita matéria prima para fabricar meia dúzia de belas balelas escritas. Aqui há dias, por exemplo, tive uma gaja a chorar-me no ombro (isto tinha que ser notícia!) por causa dum gajo meu amigo. Acho que já fui ombro amigo, mas esta foi como se fosse a minha primeira vez. Mais adiante tentarei explicar porquê. Segundo ela, a soluçante rapariga, vejam a potência destas palavras, vejam o potencial bloguistico, “passei com ele os momentos mais felizes, mas também os mais infelizes da minha vida” (sic). Fosga-se, isto dava pano para muitas mangas e muita lágrima sentida. Mas pior estava eu, que podia um gajo dizer ou fazer numa altura daquelas, perante aquela avalanche descontrolada de sentimentos ? Um gajo como eu, que gosta de brincar com coisas sérias, que fazer se não ficar constrangido com a situação, um drama real...Aquilo não me podia estar a acontecer, é que naquelas palavras e naquelas lágrimas, estava resumido todo o drama do amor, e ao mesmo tempo era um momento clássico e solene, a altura certa para um gajo se fazer ao bife da desfeita se estivesse para aí virado. É sabido que estes momentos de carência afectiva são muito propícios a investidas dos malandros. Portanto, se tivesse alguma espécie de atracção pela gaja, tudo se tornava mais fácil, a pequena descobriria ali um verdadeiro consolo onde afogaria, ou mais cedo ou mais tarde, substituiria as suas mágoas por outras mais fresquinhas. Infelizmente, contra todas as probabilidades (imaginem a cena, uma gaja loira, de olhos azuis, maior que eu, lavada em lágrimas a poucos centímetros das minhas gânfias, que mais pode um gajo desejar) a gaja não desperta em mim aquela dose de lascívia suficiente para começar a testar o hálito. São coisas, um gajo tem os seus gostos, e no caso, princípios, e é-lhes fiel. A verdade é que, ao invés, senti pena, pena verdadeira (melhor que um duche frio), a solidariedade de um gajo compreensivo, amigo e meigo para uma gaja, percebem ? Fui por breves instantes aquele refugio que as gajas normalmente só encontram nos ombros dos amigos virados, em princípio dotados de uma sensibilidade muito próxima da delas. Senti portanto uma empatia pura, verdadeira e desinteressada. E posso provar que assim foi porque enquanto durou toda aquela comovente lamuria, em momento algum lhe tirei as medidas... Ou melhor, lhe fiz a prova.
Confesso que senti algum orgulho em mim próprio, coisa rara, fui um amigo, fui capaz de o ser, amigo de uma gaja, daqueles que são capazes de estar longos minutos a ouvi-las e a compreenderem cada palavra que elas dizem. E elas como se apercebem disso, abrem-se ainda mais e os minutos transformam-se em horas, e por vezes, as palavras em gemidos. Não digo que fui totalmente amigo, não devido a segundas intenções como já esclareci, apenas porque mantenho e continuo a manter com ela uma prudente margem de segurança, resultante das nossas diferenças e gostos culturais, companhias e uma certa extroversão da sua parte nada consentânea com a minha discreta maneira de ser.
Acabei por lhe dizer não o que ela gostaria de ouvir (tenho a certeza que seria um “epá ontem por acaso falei com ele e o gajo está também ainda apanhadinho por ti, liga-lhe, força”) antes a ultima coisa que uma mulher apaixonada quer saber. Agora compreendo que eu era o ultimo elo, a ultima réstea de esperança de, de certa forma, a ligar ao outro, o seu amor. Acabei por ser eu quem deu a estocada final num sentimento quase moribundo embora com muita vontade de viver, condenado pela pior das doenças, a indiferença. Do lado dela havia a secreta esperança que o outro me falasse ou pelo menos perguntasse por ela. Convém esclarecer que o gajo está longe, está noutra, mudou de emprego, mudou de ares, arranjou outra gaja, mandou pura e simplesmente esta ás urtigas. Convém esclarecer que já passaram anos, que o gajo nunca mais quis saber dela. Há muito que a ignora. Levou o seu tempo, mas há muito que ela é passado. Ela devia calcular mas foi a jogo, admirável coragem das mulheres. Era escusado. Naturalmente que perdeu. Esclareci-a. Que podia eu fazer se não dizer para a gaja se dedicar mas é ao gajo que a anda actualmente a comer e esquecer o outro. Simplesmente não deu, ela não podia continuar agarrada ao passado! Foi este o meu raciocínio, a conclusão que lhe quiz dar, o conselho.
No rescaldo, acho que fui cruel. Acho, sinto-me. Acho que tenho um dom natural para carrasco. Não sirvo para ombro amigo. Mas já vi que é coisa que não se escolhe. Que podia eu fazer...
Publicado por jorge b pelas 05:40 PM
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segunda-feira, 4 de abril, 2005
Até que a morte nos separe
Devo ser uma das poucas pessoas vivas que conhece alguém que mudou de clube. Alguém que contrariou portanto aquela verdade supostamente insofismável que diz que um homem muda de vida, de mulher, de profissão, de país, de religião, de partido, até de sexo, mas nunca, nunca na vida muda de clube. E porquê, porque raio um gajo não muda de “instituição” ?
Um gajo nunca sabe bem bem por que “é do Benfica”. É-se e pronto! No meu caso, não consigo encontrar a mínima justificação lógica, o mínimo acontecimento ou influência na minha infância que justifique a rouquidão com que fiquei ontem depois de gritar quatro vezes golo. O meu pai, tios, avôs, ninguém era do Benfica. Aquele tipo de pessoas que normalmente nos faz a cabeça em puto, nos compra ursinhos de peluche equipados com as cores do clube, que nos inscreve como sócio ainda antes de nascermos, nenhum deles me influenciou. O porquê do "ser do Benfica" é ainda mais estranho porque se trata de um clube do povo, de massas. A maralha é quase toda do Benfica. Num gajo com algumas manias elitistas como eu, é um verdadeiro contracenso, com o qual tenho por vezes alguma dificuldade em lidar, principalmente quando o Benfica perde. O Sporting, por exemplo, é um clube mais burguês, instalado numa zona fina da capital, logo, seria mais consentâneo com a minha natureza.
Portanto, seria incapaz de substituir algo irracionalmente misterioso, algo que constitui a única certeza inabalável da minha existência, a única coisa que não escolhi, além de nascer, o “ser do Benfica”, por algo que constituiria sempre uma opção racional e estratégica, fruto de uma aprendizagem ou lavagem cerebral. Nunca seria a mesma coisa, nunca daria certo. Assim que se nasce, já é demasiado tarde para se mudar de clube.
Quanto ao gajo que mudou de clube (atenção que é verdade, sei que é de dar a volta ao estômago mas o gajo mudou mesmo, de ferrenho benfiquista, para fanático Sportinguista), embora não o admita, estou convicto que o fez, por causa da namorada que viria mais tarde a ser sua mulher... Estão actualmente divorciados.
Publicado por jorge b pelas 04:41 PM
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terça-feira, 29 de março, 2005
Genes 'r us
Nova polémica: a base de dados genéticos. Parece que com a recolha do material genético que identifica cada ser humano, o Estado perverso conseguirá obter dados pessoais, como sejam as tendências do indivíduo ao nível da personalidade, dos gostos, doenças, preferências sexuais, religiosas, etc... Proponho-me já para a recolha e aconselho toda a gente a aderir à Grande Recolha Genética. Pensem bem nos milhares de euros que podemos poupar em psicoterapia, o contributo que estaremos a dar para a industria das provetas e microscópios, o que a genética pode trazer ao nosso auto-conhecimento. Imaginemos que sou ateu, casado com uma morena, ando a tomar comprimidos para a urticária, introvertido e cleptomaníaco, gosto ouvir Ramstein, aparentemente tenho tudo para ser feliz! Mas sinto um qualquer desconforto, algo de inexplicável que não me deixa ter um sono tranquilo e retemperador. Além do meu seiko, há mais alguma coisa que não bate certo nesta minha vida, cuja história é semanalmente relatada cada vez com mais pormenor á psicoterapeuta que me acompanha 50€ a consulta (2700 €/ano).
Vou á base de dados genéticos e peço um relatório, gratuito (0€/ano). Descubro então que afinal tenho propensão para loiras (já andava desconfiado), tendência para a hipertensão, ultimamente agudizada pelos comprimidos contra a urticária cujo diagnóstico foi erro médico e a comichão simples alergia à Julia Pinheiro, que afinal até sou um gajo extrovertido, altruísta, cheio de fé, só que ainda não sabia, e que gosto da Jennifer Lopez também quando canta. Ou seja, abençoada genética, com todas as certezas, com toda a vida descomplicada e explicada, abençoada que nos trará pacificação ás nossas ansiedades e incertezas.
Suponho que se tivesse sido inventada hoje a impressão digital, tal como o código genético, marca única de cada indivíduo, as mesmas vozes discordantes que agora apontam o dedo á genética, levantar-se-iam: afinal, com que direito tem o Estado de ter algo de tão íntimo e pessoal como a minha impressão digital ? E que lhe interessa saber quem são os meus pais ? Alguém tem alguma coisa a ver com isso ? Ou a minha data de nascimento ? Não é única mas combinada com o lugar de nascimento, conforme consta do famigerado BI e temos um mapa astral mais completo que qualquer mapa genético. E a minha foto ? Há gente que pela forma do nosso rosto é capaz de nos dizer quantas vezes trairemos durante a vida, pela forma das sobrancelhas se alguma vez ficaremos a dever ao banco, pela forma dos olhos se gostamos mais na mesa da cozinha ou nos bancos de trás do carro. Não me parece razoável o Estado ter na sua posse uma fotografia minha. Sabe-se lá se a esta hora não estará uma burocrata qualquer a ter fantasias só de olhar para o meu bem escanhoado rosto. Uma pessoa tem direito á integridade da sua imagem e a saber as medidas e o contacto da burocrata depravada. Há gente que consultando o nosso extracto bancário, os movimentos do nosso cartão de crédito, é capaz de nos dizer onde gostamos de passar férias, em que restaurantes comemos, que marca e estilo de roupa usamos... Sugiro burkas para os mais afectados.
Publicado por jorge b pelas 03:40 PM
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domingo, 31 de outubro, 2004
Doença
Esta semana nasceu no Porto uma associação de apoio a crianças com um sindroma qualquer, uma espécie de compromisso entre a vulgo normalidade e o vulgo autismo. Ao que parece, existirão entre 30 a 50 mil crianças em Portugal com a pouco diagnosticada doença, com um nome facilmente esquecível, um sindroma de que terão padecido pessoas como Da Vinci ou Einstein, entre outros talentos universais. Ora, quem não gostaria de ter na sua prole um génio ? Muitos país, já que o filho não tem queda para a bola, sentir-se-iam abençoados se tivessem um filho assim, sindromático. A verdade é que todos os grandes génios sofreram de uma qualquer maleita mais ou menos grave que os obrigou a estarem no recolhimento deles próprios, muitos deles durante a infância, a congeminar a sua genialidade. Enquanto os outros putos normais andam ás caneladas uns aos outros atrás, primeiro, duma bola, depois, de gajas, os génios patinhos feios incapacitados física e social, mas não intelectualmente, confeccionam a chegada da primavera ás suas vidas. É uma espécie de justiça Natural com a qual concordo plenamente. A Natureza tira por um lado mas dá por outro.
Publicado por jorge b pelas 04:21 AM
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sábado, 2 de outubro, 2004
A questão ateia
A partir de determinada altura da nossa vida, ou seja, mais tarde ou mais cedo, o espírito humano é avassaladoramente assolado por questões existenciais desnecessárias mas que podem tirar muitas noites de sono ou então dá-las, mas mal dormidas. Baseado no sentido altruísta que infelizmente possuo, decidi tirar algum do meu apertado e precioso tempo para reflectir e dar resposta a algumas dessas questões pertinentes, fazer deste blog, por meia dúzia de posts, um, estou certo, contributo decisivo para ajudar milhares de diletantes que, por esses quartos fora, estão de olhos postos no ecran em busca duma qualquer salvação. Pois ela aqui está, espalhai pelo vosso saber as sábias palavras que vos ensino e depois voltai para as vossas desérticas ou divididas camas mais tranquilos, vivei os vossos monótonos dias com um cada vez mais reforçado e intrigante sorriso nos lábios.
Questão: Serei realmente, mas mesmo realmente ateu ?
Sugiro ao insónico leitor(a) que faça a si mesmo o infalível “teste da carroça”. Imagine que está um lindo dia de céu azul, passarinhos a cantar e tal, mas você não dá por isso porque vai a passear calmamente numa bicicleta todo-o-terreno, cuja 1ª prestação acaba de ser ontem debitada na sua conta ordenado, vai, dizia eu, a pedalar por uma bela azinhaga enlameada, quando de repente, ao virar da esquina, dá de caras com uma carroça desgovernada, conduzida e puxada por burros com uma elevada taxa de alcoolémia. Fruto do destino, e a apesar dos seus esforços inglórios de contra ele lutar, ao guinar violentamente para o lado o volante da sua bicla e pondo à prova os seus sofisticados reflexos e travões shimano, não consegue evitar a colisão com os animais espavoridos. Segue-se um turbilhão de sensações, pancadas, coices, e quando você dá por si, está na lama a fazer uma visita ao eixo enferrujado do ancestral veículo, debaixo da carroça, sem saber quem estará mais partido, se você se a sua amada bicla. Ora, naquela, como noutras situações aflitivas, você chama por alguém. Não diga que não chama, não diga que só diz “ai, ai, ai”. Lembre-se, você está consciente, isto é, não está morto ou desmaiado debaixo duma carroça, você está meio consciente depois de um violentíssimo embate com um quadrúpede jumento, burro ou mula, pouco interessa, portanto, em pânico ou nem tanto, assustado, no mínimo, logo, tem que chamar por alguém. E por quem chamaria ? Estudos recentes revelaram que uma pessoa quando está à rasca nunca chama por si mesma ou pelo presidente da república, por isso, vejamos as únicas hipóteses possíveis de chamamento, e acredite que, apesar dos avanços da ciência, não foram descobertas outras:
a) “Ai a minha bicla, ai a minha bicicleta!!”
b) “Ai meu deus!!!” ou o equivalente “Ai Jesus!!!” ou talvez “Ai senhor o que me fizeste!!!”
c) “Ai mãe, ai mãe, ai mãe!!!” ou o equivalente “Acudam!” ou “Tirem-me daqui debaixo!”
d) “Ai (o nome duma prima boa em 3º ou 4º grau, ou duma top model)!!”
e) “Porra para isto, burros do caralh*!!!”
Se respondeu a uma das alíneas a) ou b) não é seguramente ateu, e isto por mais que julgue sê-lo, por mais tertúlia ateísta que participe, por mais Nietzsche que leia, você é ateu mas é o caraças! Por isso descanse, deixe-se de tretas, comece duma vez por todas a ler Paulo Coelho, Richard Bach ou até Thomas Moore. Não aconselho a Bíblia porque, como se ainda fosse possível, só ficará ainda mais confuso e bruto da cabeça. Faça coisas boas por si, por exemplo, não volte a ler este blog. Especificamente, se respondeu a alínea a) está ainda mais convencido de que vai para o céu do que um árabe vestido dos pés à cabeça com a colecção de Inverno da Jihad Islâmica. Está mais que convencido que, aconteça o que lhe acontecer, acontecendo o supostamente pior, irá, quer seja debaixo duma carroça ou dum camião TIR, parar ao céu, ao encontro do senhor deus, que o receberá com umas palmadinhas nas costas, não estando no entanto tão certo disso em relação aos seus bens materiais que julga muito jeito lhe fariam Lá Em Cima. Daí a sua primeira preocupação, a bicla, e depois, a sua camisinha ‘sacoor’ rasgada.
Sendo um não ateu saudável, responderá seguramente à alínea b). O que é certo é que nas horinhas de aperto é por Ele que se chama. Quando a coizinha pia mais fino, é ouvi-lo a chamar por Ele, fazendo-Lhe mais promessas que um político em campanha eleitoral no Mercado da Ribeira. E não há mal por isso. Só têm é que admitir e sair do armário. Ser crente é estúpido mas não é um crime, não há que se ter vergonha. E assumi-lo é uma grande mas também inglória prova de coragem... Segundo fontes fidedignas, o próprio Deus estará a passar por uma crise de auto-confiança tão grande, que se terá trancado dentro do armário. Será de prever que muito justamente Ele próprio brevemente se venha a tornar no mais convicto dos ateus.
Se respondeu ás alíneas c) d) ou e), todas elas se equivalem, todas elas significam que você é um verdadeiro ateu de alma, carne e osso, resigne-se, um espécime raríssimo portanto. Acredite que sabê-lo não é muito tranquilizador e não será muito útil para a sua vida social e doméstica. Mas tem que se aguentar à bronca e saber que não é o único, que há mais espécimes raros que carregam, tal como você, o pesado fardo de se ser um ateu puro. Descanse portanto, volte calmamente a ponderar a eternamente adiada visita ao psicoterapeuta, cultive-se na diferença procurando refugio na cultura, nas gajas, nas bejecas, no bom humor, e se possível nos fins de semana em hotéis com piscina interior aquecida, jacuzzis, sauna e essas coisas, as suas únicas tábuas de salvação.
Nos próximos posts, mas com a irregularidade que me caracteriza, responderei a mais algumas questões que, estou absolutamente convicto, poderão aliviar o sofrimento e poupar muito valdispert a muito boa alma. Destaco por exemplo as seguintes:
Valerá a pena comprar acções da PT ?
Serei no fundo gay ou apenas à superfície ?
Deverei comprar capas para os bancos do meu automóvel ?
Mudo de emprego ou de corte de cabelo ?
Alguma vez irei para a cama com uma gaja que mereça ser capa da Maxmen ?
Portanto, não percam a esperança de um dia qualquer encontrarem aqui resposta às vossas incertezas, por mais fossilizadas ou em adiantado estado de decomposição que estejam. Se tiverem alguma questão que gostassem de ver contemplada, por mail ou nos comentários, be my guests. Se Eu quiser, responderei a todas com a minha reconhecida sapiência.
Publicado por jorge b pelas 07:40 AM
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sexta-feira, 4 de junho, 2004
Sacrifício pela pátria
As mulheres com carências afectivas, por mais intelectualmente arejadas que sejam, tendem a, entre outras coisas, tornar tudo mais difícil, a transformar o simples em complicado. Será talvez no trabalho, na convivência diária e burocrática com os colegas, onde serão mais notórias tais carências... Se forem meras executantes subalternas, muitas delas tornam-se alvos predilectos da intolerância e chacota das outras, supostamente de papo-cheio porque casadas mas, por vezes, não menos frustradas. Se de alguma maneira puderem exercer o poder, tendem a ficar não menos neuróticas, entrando algumas delas numa espiral obsessiva de trabalho, de constantes inconstantes exigências para cima de quem tem que as aturar a soldo. A carência afectiva leva-as a ficarem mesquinhas, a quererem ter sempre razão em coisas para as quais não vale a pena ter razão. Arrancar duma mulher destas uma confissão do género “epá preciso mesmo dum gajo!” é uma tarefa que acarretará milhares e milhares de horas de terapia.
Nos homens, pelo contrário, a carência afectiva, a falta de gaja, leva-os a simplificar, a pensar que não há nada que uma gaja boa bem aviada não resolva, que mais tarde ou mais cedo, inexplicavelmente, alguém não muito parecida mas com as medidas exactas da Marisa Cruz, se sentirá atraída pela maneira como ele leva a caneca á boca e achará piada aos seus sapatos mal engraxados. Enquanto dura a mingua, reconhecem sem rodeios a sua lacuna, pensam que todo o sentido da vida se resume a comer gajas, confessam-no sem problema, mais imperial menos imperial. Ciciolina, ciente da importância que uma gaja boa pode ter na psique masculina, fez uma tentativa desesperada de salvar milhares de vidas, aquando da invasão do Iraque, tendo-se oferecido a Saddam, qual chupeta para o bebé chorão, se o gajo promete-se deixar de se armar em parvo. Hoje deve estar mais que arrependida, a velha toupeira de Bagdad. Cicciolina podia ser uma grande vacalhona, mas era loira®, era a Cicciolina®, um curvilíneo, reputado e experiente remédio santo para qualquer carência afectiva, capaz de pôr qualquer ditador islâmico de meia tijela e bigodes, a cooperar de boa vontade com a ONU. Não só a teria comido, como poderia exibir na parte de traz do carro oficial um autocolante a dizer “Eu comi a Cicciolina®!”, como ainda estaria no poder pelo menos durante mais algum tempo. Um paliativo é certo, mas o homem é um animal sem cura, onde, ao contrário da mulher, a carência afectiva é um estado eterno, permanente, característica de um ser débil sempre necessitado dos cuidados intensivos dessa incubadora que é o amor, ou pelo menos o afecto, ou pelo menos a atenção, ou pelo menos o corpo duma mulher, pelo menos.
No entender do povo, a nossa actual ministra das Finanças, talvez pela maneira tirânica como (mal) trata o pequeno e médio contribuinte, é uma mulher carente, com inconfessável falta de homem (vide post anterior) e de uma vassoura e avental, acrescento eu. Acredito perfeitamente que se ocorresse nela, tal como pode acontecer a todos, uma inesperada revolução sentimental, daquelas que toda a vida muitos perseguem e jamais experimentam na sua plenitude, desempenharia melhor a função de Estado que lhe foi confiada, i.e. haveria mais respeito e investimento público, nas coisas e nas pessoas.
O povo tem suportado mal o seu azedume e a continuar a actual política financeira do Estado, se não surgem depressa sinais da retoma ou da vida amorosa da ministra (uma fotos escaldantes na ‘Caras’ ajudariam a apaziguar os ânimos) não será de admirar que se gere em Portugal uma enorme onda de solidariedade, à boa maneira portuguesa, com cheirinho a ‘Ídolos’: arranjar-lhe um gajo, em nome da boa governação e da saúde mental da nação, um Cicciolino, que faria esse sacrifício pela pátria.
Publicado por jorge b pelas 10:48 AM
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sexta-feira, 30 de abril, 2004
Riscos sentidos
Aqui há tempos bradava ao meu relógio novo. Escrevia aqui como se finalmente fosse o relógio que jamais teria um risquinho que fosse na campânula de plástico que supostamente protege os dois ponteiros discretos e o outro irrequieto. É sempre assim com tudo o que tenho mais ou menos recentemente, esta ilusão inicial de que o tempo mole não vingará sobre a duritia das minhas paixões. Aconteceu com o meu carro, de que já aqui também falei, imaculadamente encontrado num stand de carros usados, sem o mínimo risco, mesmo ao fim de intensivo uso, a julgar pelo conta-quilometros e pelos pneus que prontamente mandei substituir senão não se fazia negócio. Dedicado e cuidadoso proprietário teria tido, que me deixava um legado de responsabilidade do qual me julguei digno, me propus continuar, preservar na perfeição a chaparia azul escura que elegantemente sempre vestira aqueles 90 cavalos.
Cada vez que adquiro alguma coisa penso sempre que a vou estimar como estimo o meu querido blog, a minha querida família, o meu querido eu, sem qualquer ordem de preferência. Mesmo com peças de vestuário sou assim, tenho sempre a ilusão de que como já parei de crescer, a roupa irá durar-me para sempre. Pensamento mais que ingénuo, pois que dadas as características da minha barba, não há colarinho que resista mais de 3 a 12 meses, segundo a minha ultima sondagem, dependendo do uso, sendo que acusam sempre maior desgaste as camisas preferidas.
A verdade é que me apaixono por tudo o que compro, e tudo o que compro é por paixão. Logo, a minha exagerada estima, sempre quebrada com a primeira nódoa que não sai, o primeiro buraco que não se coze, das garras dos meus amigos felídeos, o primeiro risco. E o meu relógio, acaba de sofrer o seu primeiro dos seus golpes de misericórdia, assim como o meu carro sofreu a sua primeira cacetada, muito mais que um simples risco daqueles que aparecem misteriosamente não sabemos como, naquele fatídico dia à entrada da ponte, quando um gajo qualquer numa mota se pôs a zigzaguear os carros parados na bicha, até fazer apenas zig no meu.
Não me perguntem porquê invisíveis leitores, mas as minhas queridas visíveis coisas depois de riscadas a primeira amaldiçoada vez, depois de impolutas, parecem perder imediatamente a graça, a gracinha toda. Mesmo que depois reparadas pelo mais exímio dos artesãos, substituídas por peças com as mesmas medidas, cessa de imediato a minha preocupação em proteger os meus apaixonados haveres. E para quê dispêndio de mais adoração e cuidados, se já têm marca visível do meu escandaloso descuido ? Mesmo que disfarçada com excelência, são por demais sentidas as imperfeições das quais sou cúmplice.
Mas eis que penetrando ainda mais, sempre obscura tarefa, no meu auto-conhecimento, reparo no anterior relógio, agora abandonado e esquecido sem pilhas e, imagine-se, sem uma única mácula, sem único risco humanamente perceptível, além do desgaste natural e até charmoso do tempo. Um relógio, como os meus antigos óculos, com vidro anti-riscos a fazer de campânula transparente. Na altura em que por aquele meu relógio me apaixonei, estava ele numa montra a chamar-me sem que mais ninguém ouvisse, mesmo como eu gosto, e minuto depois nas mãos hábeis da relojoeira, que lhe colocou uma pilha nova, fazendo a senhora experimentada vendedora questão de frisar da característica daquele vidro, que decididamente seduziu o meu cartão de crédito.
E o meu ilustre relógio inrriscável, que ainda dura, durou-me alguns anos, despercebidamente, até a um exaustivo desleixo utilizado, até que os primeiros sinais de lassidão começaram a dar horas, revelando-me esta verdade, depois de acertados os ponteiros: todas as minhas paixões, mais cedo ou mais tarde, ganham os seus riscos. Se não nas campânulas, noutro sítio que não vejo, mas sinto.
Publicado por jorge b pelas 05:01 PM
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terça-feira, 27 de abril, 2004
Destino ao acaso
Mais uma semana que passou sem que eu jogasse no totoloto. Até era minha intenção apostar no jackpot desta semana mas, como sempre, deixei que o destino decidisse por mim… Confio-lhe estas pequenas trivialidades porque tenho mais que fazer. Como é isto ? Simples, por acaso, por aqueles dias que antecederam o escrutínio, não passei por nenhuma seta a piscar em néon, a indicar um local de recepção de apostas. Se por acaso quisesse o destino que eu jogasse, ele teria posto a bendita seta no meu caminho. Passei antes por uma daquelas cruzes verdes cintilantes, também de néon, que identificam as farmácias. Assim quis o destino, e lá fui comprar mais duas caixinhas de valdispert.
Quero antes dizer o “acaso” porque o “destino” já tem direitos de autor. Acredito no acaso, que se lhe dermos rédea acontecem-nos coisas boas pela certa, quase sempre. Tudo acontece por acaso, pelo menos a primeira vez de tudo e são essas as coisas que melhor gosto e, se não tivermos cuidado, desgosto, deixam na alma...
Já me aconteceram coisas extraordinárias por acaso, sempre que confiei no acaso. Por exemplo, eu costumo fazer uns pequenos negóciozitos com acções, acçõezitas. Já comi uns jantarzões à pala de alguém que nunca vi mas me comprou umas acções da Pararede a um preço exorbitante depois de eu as ter comprado ao preço da chuva (é assim que funciona isto da bolsa). Também já ganhei umas tantas dores de cabeça cujas perdas, o providencial Tiger Balm dos chineses e umas ordens ‘stop-loss’ sempre amenizaram. Já me aconteceu sentir um impulso incontrolável, ditado pelo instinto, de vender determinado papel, ligar para o meu banco para dar a ordem, e o telefone estar interrompido. Pensei então, “isto é o destino, o acaso, perdão, o acaso a alertar-me, a impedir-me de vender estas acções. Isto pode ser um sinal, de que elas ainda vão subir, que chegarão ao preço exorbitante mas suficientemente tentador para alguém depois as comprar e eu ter dinheiro para ir jantar ao “Las Brasitas”. Só lucro, vindo desse especulativo nada, dessa negociata fácil e algo obscena (é assim que funciona isto da bolsa). E não insisto mais pela chamada, convencido. Aconteceu eu não dar a tal ordem, e as acções realmente amarinharem pelos gráficos de cotações acima, nos dias, semanas que se seguiram. Não podia estar mais grato ao acaso por naquele momento em que pretendia dar a precipitada ordem ao meu banco, por acaso, o telefone estar ocupado.
O problema, é que o acaso não é de confiança. Nem sempre resulta. Já me aconteceu ver na televisão dois aviões espetarem-se contra duas torres e correr logo para o telefone, porque sabia da hecatombe que iria acontecer nos índices. Mas nada de confusões, eu não estava em pânico até porque os índices já se arrastavam pelas ruas da amargura. Mas como sabia que com os atentados as cotações iam descer ainda mais, telefonei para vender mesmo a perder dinheiro para depois, assentada a poeira, recomprar a preço mais baixo (é assim que funciona isto da bolsa). Naquele fatídico dia, por acaso, do banco não atenderam a minha chamada. E o quanto eu insisti...
Naturalmente que isto não era o acaso a dizer-me “não vendas que as acções não vão cair”. Isto era um engarrafamento fenomenal de ordens de venda por telefone, de gajos, esses sim em pânico, que se tinham antecipado a mim.
O ideal ideal, é sermos nós mesmo donos do nosso destino, sermos nós próprios a ditá-lo e controlar o mais possível o “acaso”. Coisas para as quais não terei muito jeito mas que em linguagem bolsista se poderiam designar por “inside-trading”(aquela informação privilegiada e outros meios de manipular cotações a que certos gajos têm acesso (é assim que funciona isto da bolsa)).
Exemplo vivo duma eximia controladora do destino e dos acasos é a bar-women que me tira umas imperiais regularmente. Há cerca de 2 anos, a conversa arrastava-se um pouco mais para além da hora do costume, e às tantas já falava mais ela que eu (o que apesar de não ser muito difícil, não é normal), apenas porque naquele dia os problemas de consciência por ter deixado acabar os tremoços impeliam-na a dar-me mais atenção que o costume. É suposto ser ao contrário, e já tem sido, o cliente escritor de blog a desabafar a falta de inspiração com o outro lado do balcão. Mas naquele dia, contava-me dos seus planos para o futuro, e fê-lo com uma certeza implacável onde não havia lugar para o imprevisto, o acaso. Como já a conheço, não de ginjeira como talvez não me importasse, mas o suficiente, lembro-me de na altura lhe ter dito que não duvidava um segundo que ela conseguiria alcançar todos os seus objectivos, e que tinha uma beleza tipicamente portuguesa (isto não vem ao caso, eu sei, mas foi o que lhe disse, aproveitando a embalagem). Seria até muito mais difícil eu alcançar a porta da rua sem tropeçar numa cadeira que ela, repare-se, estar casada dali a um ano, grávida um ano depois, mudar de casa 3 anos após, assim implacavelmente. Ainda lhe perguntei sobre os acasos, como os são as infidelidades conjugais, os jogos maquiavélicos das sogras, a subida das taxas de juros e outros acidentes de percurso na vida dum casal... Mas não, acontecesse o que acontecesse, estava ali uma mulher que tinha mão de ferro sobre o seu próprio destino, destino esse enclausurado entre timmings medidos quase ao milésimo, sem lugar para atrasos ou acasos.
A verdade é que ela casou há um ano atrás, e agora está grávida de quatro meses. Não há inflação, cortes nos aumentos, guerras preventivas, medos do terrorismo, facadinhas no matrimónio, nada a irá impedir, tenho a certeza, de alcançar os seus objectivos.
Confesso que sinto alguma inveja de pessoas assim, que traçam rumos e objectivos na vida com grande antecedência, que se propõem por vezes a tarefas grandiosas e de grande responsabilidade como o são, por exemplo, trazer um filho ao mundo conturbado dos nossos dias, e depois os cumprem eficazmente. Apesar da encruzilhada de caminhos, mantêm um rumo fixo, fieis à bússola do dever, coisa que nem sempre é compatível com a volatilidade do desejo, das tentações, afogadas sabe-se lá como. Mas tal pode ter um preço que mais tarde ou mais cedo se tem de pagar. É que contornar o acaso pode ser como comer comida já mastigada, ver um filme do qual já sabe o fim ou levar uma vida inteira a fugir ás dívidas.
Publicado por jorge b pelas 09:30 AM
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quinta-feira, 25 de março, 2004
As pessoas boazinhas são mázinhas (sem vice versa)
Sempre tive uma certa aversão às pessoas reconhecidamente boazinhas. Sempre me pareceu que 90% dos actos de bondade ou caridade por elas praticados encerram em si o desejo camuflado de se aproximarem um pouco mais do céu. Local que imagino de lotação muito limitada e reservado apenas àqueles que praticam a bondade sem que se apercebam que a estão efectivamente a praticar. É preciso pois ter descaramento para se ser uma pessoa boazinha. A verdadeira bondade é demasiadamente desinteressada para pedir alguma coisa em troca. E o simples facto de alguém acreditar na existência celestial, não consegue praticar na terra a bondade de forma isenta. Reger-se-á sempre segundo os ensinamentos duma bondade legislada e ineficaz, muito mais religiosa do que verdadeiramente humana. Um tipo de bondade que não enriquece ou faz da pessoa a boa pessoa que todos os que a rodeiam gostariam que fosse. Faz dela antes, no máximo, uma pessoa boazinha.
Por cada acto de bondade que se pratica no mundo, daqueles actos com direito a diploma e até benefício fiscal, há alguém que fica mais perto do Inferno. Não me perguntem porquê, mas é o que sinto. E não estou a fazer confusão com as pessoas boas. Essas, como o próprio nome indica, são boas, simples e humildemente. Assim como as boazonas também o são, boazonas portanto, e não há nada a acrescentar ou a tirar, à excepção de uma ou outra peça de roupa. Agora das pessoas ‘boazinhas’, desconfio sempre. Prefiro antes uma sã convivência com uma pessoa de mau caracter ou mau feitio. Como não creio que, mediocridade clínica à parte, haja pessoas absolutamente más (excluindo aquelas pessoas que não são pessoas), a pessoa com mau feitio fascina-me. E quanto mais esse mau caracter ou mau feito andar a ser publicitado gratuitamente pelos corredores e à beira das máquinas de café, mais me convenço da essência boa que ele encerra, que estará ali uma vitima não de si mesma, como o são muitas pessoas boazinhas, antes vítima de algo realmente mau, que as atormenta e as contagia, e que portanto, precisará de ser exorcizado com doses de frontalidade e personalidade e, se for preciso, sexo. Essas ao contrário das boazinhas dão luta e fazem dos seus defeitos assumidos e impostos, se for possível, a quem as rodeia, um grito desesperado que só alguns poderão ouvir. As boazinhas grande parte delas são mudas e não têm alternativa a serem angélicas boazinhas. Ou isso ou nada... Se demonstrarem um pingo de mau feitio, que nelas existe asfixiado e de forma nunca assumida, borram a pintura toda, passeando portanto pela vida, sempre sobre os bicos dos pés num mundo espelhado a 360 graus. Ao contrário das mázinhas que utilizam o espelho apenas para retocar a maquilhagem, onde qualquer manifestação de nobre caracter, vindo inesperadamente não se sabe de onde, com uma quase naturalidade sobrenatural, brilha nelas mais que toda a bondade do mundo.
Publicado por jorge b pelas 04:40 PM
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sexta-feira, 19 de março, 2004
O meu querido carrinho
Parecem-me muito mais preocupados os políticos com um eventual atentado terrorista que propriamente o povo, o povo trabalhador, eleitor, que curiosamente, foi o alvo principal em Madrid, o alvo mais fácil e mais previsível em futuros atentados. Mas a malta está tão anestesiada com o seu ritmozinho diário, tão atrofiada com os seus pequenos dramas domésticos, conjugais, extra-conjugais e afins que parece marimbar-se para o assunto. Ok, um dia destes sentiu-se tensão no ar rarefeito do metro, quando a carruagem estancou bruscamente antes de chegar à estação do Marquês. E depois aquela muito pouco usual marcha atrás até à estação do Parque fez com que muito familiar dos murídeos (vulgo, rato) desconfiasse dos “problemas técnicos na linha” e abandonasse o navio. Mas o povo, na sua estranha, e não se sabe vinda de onde, sapiência, parece confiar que os cabr*es dos terroristas só atacam com a poeira muito bem assente, e diverte-se quando ouve o ministro dizer com pompa que vai repor as fronteiras. Os terroristas são estúpidos mas não tão parvos ao ponto de atacarem quando se espera.
Também eu por estes dias me sinto demasiadamente despreocupado com mochilas ou carros bombas. Mas há um carro que me preocupa. O meu, onde parece que toda a poeira assenta... O raio do carro está sempre sujo, é um constante atentado à higiene das vias públicas. Parece inacreditável mas aquela chapa azul escura parece ter um desmesurado poder magnético sobre o pó! Parece-me a mim que se deixo o carro estacionado ao lado de outro, passadas umas horas o outro estará limpo e o meu com uma espessa camada de pó, geralmente com palavras de ordem escritas a dedo nos vidros como “lava-me porco”, “preciso dum banho meu animal” ou “o meu dono ainda é mais javardo que eu”... Mas o que posso mais fazer ? Tornei-me exímio na arte da lavagem à pressão, obedeço fielmente às instruções das auto-lavagens, faço tudo bem feitinho, e nunca me esqueço dos 50 cêntimos de água desmineralizada ao terminar a lavagem. Comprei produtos anti-estáticos, cêras, shampoos-auto especiais, toalhitas desengordurantes, sprays polidores, camurças naturais, tudo das melhores marcas... Nada resulta. Uma hora depois da mais exigente e pormenorizada lavagem, já tenho o carro coberto de pó e a porra dum cão a mijar-me as jantes. Já me disseram que pode ser da estação, do pólen que há no ar, que se acumula nos automóveis. Mas se fosse, espirrava. O meu nariz atrai todo o pólen disponível no ar num raio de 500 metros de onde me encontre. Já me aconselharam a levar o carro à bruxa, ao professor Mamaku, pedir um exorcismo, benzer o carro, mas tenho o azar de ser tão céptico que nem sequer acredito que neste momento ainda não tomei o pequeno almoço. Na Primavera é o pólen, no Verão é a poeira, no Inverno se chove é uma desgraça. A chuva lava o ar, mas estranhamente o ar por cima do local onde circula o meu carro está sempre mais sujo que nos outros lados... Estou sempre à espera de um dia ouvir coachar porque, depois de um aguaceiro, todo o carro parece um pântano tal é o estado miserável em que fica aquela chapa.
Tenho vergonha do meu carro. É isso mesmo. Recentemente fui a um casamento e foi confrangedor ouvir a sogra da noiva aconselhá-la a ter cuidado com o “aquele carro azul escuro”, que “seria uma pena ficares com o corpete sujo”. Chiça, tinha acabado de lavar o carro e enquanto todos tiravam as fotos da prache aproveitei para ir lavá-lo outra vez. Fui o único a não aparecer na fotografia de grupo.
E como ainda tenho 40 anos de prestações pela frente, nem pensar em trocá-lo. Apesar da vergonha, eu gosto do meu querido carrinho, e não serão meia dúzia de toneladas de poeira que vão mudar este sentimento. É natural que uma pessoa se afeiçoe ás coisas. O que já não é natural é para além do pó, a lama se afeiçoar ao meu carro. Um dia destes quando saí do carro, reparei que a chapa tinha laivos duma lama amarela, por baixo, atrás de cada um dos quatro pneus que, como se calcula, tinham mudado de cor. O contraste da cor da lama com a cor da chapa até ficava giro e dava ao carro um ar racing. Mas alguém me explique, se não chovia há semana, se tinha vindo de Lisboa por auto-estrada e depois por estrada nacional bem alcatroada, de onde tinha surgido aquela lama ?
Se a brigada de transito fizesse operações stop para medir a taxa de sujidade dos carros, eu seria manchete no “24 horas”.
Publicado por jorge b pelas 12:09 PM
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quarta-feira, 10 de março, 2004
A sanita dos meus sonhos
As sanitas pararam no tempo! Explico, a sanita de hoje não difere minimamente das sanitas dos nossos bisavôs.
A traça da sanita tem-se mantido inalterável, atravessando gerações, indiferente aos padrões estéticos de cada uma delas. Evoluiu tudo o que estava á nossa volta, excepto o que estava por baixo: a sanita. Até o autoclismo, até o papel higiénico teve uma evolução extraordinária, principalmente nos últimos anos. Da tradicional folha de jornal, ou, se quisermos ir mais atrás no tempo, folha de couve, passámos a rolos de dupla, tripla, quadrupla folha e por aí fora, com ou sem perfume à escolha, mais macia ou mais áspera, ao gosto do olfacto e sensibilidade de cada cum. E não é difícil adivinhar que no futuro o papel higiénico será activo no combate ao hemorroidal, à tromboflabite, à assadura, e que terá outros efeitos secundários, como o alivio do stress, o combate ao colestrol, etc. Agora, as sanitas, essas, pararam no tempo. Continuam a ser aquelas coisas brancas em cerâmica inestética, coladas ao chão, com meia dúzia de gotas de água lá ao fundo à espreita, à espera de nos salpicarem as nádegas.
Falam-me de sanitas hi-tech, que existem. Conta-me um amigo que lhe contaram a ele (está pois esta sanita no domínio da lenda) que um bar algures nas Docas, tem uma sanita, aparentemente igual às outras, mas equipada com um sofisticado sistema de rotação. I.e. o freguês que se segue, carrega num botão e não tem de se preocupar mais com quem ali se sentou anteriormente, porque se irá sentar sobre um rebordo quase novinho em folha, de tanta desinfecção que sofreu. Pois... Se eu visse uma sanita assim, gostava de ter uma fotografia dela comigo ao lado!
Quero crer que a sanita dum Papa, dum Bill Gates não será propriamente igual à minha. Mas por outro lado muito se fala sobre esses e outros senhores assíduos dos tops da Fortune, dos seus carros, iates, aviões, casamentos e divórcios, mas ninguém fala das suas sanitas. O que é suspeito. Se calhar por vergonha, se calhar porque as têm afinal iguais aos outros, as suas sanitas serão um bluff rodeado de um secretismo que para a Caras é tabu e para a CIA um segredo por desvendar à altura das armas escondidas de destruição maciça do Saddam. Apenas o destronado ditador iraquiano ousou inovar nesta área e veja-se o que lhe aconteceu. É celebre a descoberta do seu WC dourado. Sem o saber, Saddam prestava uma homenagem, foi um mártir para todos quantos mundo fora contestam as vilezas desta sociedade materialista, ao ter o prazer de cagar em cima do vil metal.
E bem que precisavam as sanitas uma (r)evoluçãozinha. Se é nítido o inesteticismo da coisa, a praticidade está pelas ruas da amargura. O mulherio massacra os homens porque salpicam tudo. Certa vez uma chefe minha, única mulher no andar, chegou espavorida á secção: Alguém tinha ousado ir mijar à sua casa de banho privativa! Mas como meu deus, como teria a gaja descoberto, pensei, tentado disfarçar. Elementar meus caros, as micropinguinhas, apenas detectáveis ao olho feminino, na tampa da sanita. Alguém que se debruçasse sobre este problema, que inventasse uma sanita hidráulica com altura regulável electricamente, de forma a diminuir a distancia. Além do humilhante mijar sentado, ou do ridículo de joelhos, não vejo outra maneira de evitar os micropingos e salpicos, e assim evitar muito divórcio e mau ambiente no trabalho. Seria a sanita dos meus sonhos.
Publicado por jorge b pelas 04:16 PM
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segunda-feira, 8 de março, 2004
Anedotomania (post especial: 'collectors edition') 3/3/2004
Ás vezes penso que nunca terei sorte na vida. Por arrasto, nunca serei feliz. Feliz no sentido abstracto e delirante da palavra; isto é, por exemplo, andar nas nuvens a enviar e receber sorrisos de outras pessoas felizes que circulam na vida também nas suas próprias nuvens... É confortável e fácil pensar que a felicidade não existe. Mas a sorte existe e negá-la é impossível... E a sorte pode ser um excelente substituto da felicidade.
Começo a aperceber-me que a sorte sorri cada vez mais àqueles que sabem contar anedotas. Pode ser tudo uma grande coincidência, mas é o que tenho constatado. E por isso fico ainda mais desolado. Nunca tive grande jeito para contar anedotas. Nem grande nem pequeno. Sou uma nulidade. A habilidade exige expressividade e eloquência, coisas que não são propriamente dons em mim. A inteligência não é requisito obrigatório, ao contrário do rosto de quem a conta, que convém ser daquele tipo de rosto que facilmente se possa confundir com a sua própria caricatura. Além disso, a arte de bem contar anedotas exige também uma memória prodigiosa. Há pessoas com um inventário anedotal tão vasto que para elas a carie que andamos a tratar faz-lhes lembrar mais ou menos quinhentas anedotas de morrer a rir. Por exemplo, o meu dentista é um desses, e está sempre a dar-me na cabeça porque me esqueço de ir ás consultas.
Actualmente existe por toda a parte um fenómeno de anedotomania de proporções alarmantes. Na net, por mail deverão circular diariamente milhões de anedotas diferentes ou iguais aquelas que recebemos há dois anos atrás e que certamente ainda haveremos de receber várias vezes ao longo da vida. Na televisão, os malucos do riso e o levanta-te e ri exploram e reforçam a mania de forma lucrativa. Por toda a parte vemos pessoas serem brindadas, reconhecidas e premiadas com muitos amigos e secadores de cabelo, por saberem contar bem anedotas. Não há noite entre amigos numa esplanada que não vá descambar num vazio de temas e ideias, consequentemente, num chorrilho de anedotas. Nas escolas as criancinhas trocam entre si anedotas supostamente proibitivas para as suas idades. Se antigamente provar o fruto proibido era saltar o muro da escola para ir á laranja na quinta ao lado, agora os putos entretêm-se a contar anedotas porcas. E os namorados passaram a substituir as promessas de amor por anedotas. As mulheres gostam de gajos que as façam rir, mesmo que seja da forma fácil e imbecil. A anedota é um anestesiante de curto efeito, mas, se bem ministrado, é o suficiente para convencer o nosso gerente de conta a baixar-nos o spread do crédito habitação. Ou seja, saber contar bem anedotas certas, no lugar e sítio certos, hoje em dia além de poder ser um eficaz elixir para a nossa auto-estima, pode-nos abrir muitas portas e por arrasto, conseguir muitos engates.
Durante anos a fio fui incapaz de reter uma anedota que fosse. Depois de me rir á gargalhada, passados 10 minutos já não sabia do que me tinha estado a rir. Isto era dramático e melhor que ninguém, eu soube compreender muito bem o gajo do “Memento”. Defeito genético ou não, era incapaz de contar uma anedota sequer. Agora já estou melhorzinho, e cada vez que oiço uma mesmo mesmo boa, ainda consigo lembrar-me dela a tempo de escrever aqui no blog.
Para país anedótico, cidadãos anedóticos. E a este respeito julgo existirem ainda imensas minorias de gentinha iletrada sem o menor jeitinho para saber sequer quem é o Fernando Rocha e muito menos contar anedotas. Exigiam-se cursos de formação financiados pelo FSE (vulgo, cursos da CEE). Para o bem comum, qualquer cidadão devia estar habilitado a saber contar e, não menos importante, saber aceitar viver como uma anedota.
Publicado por jorge b pelas 10:33 AM
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quarta-feira, 18 de fevereiro, 2004
Bryan quem ?!
Slave to love . Lavado para amar
It.s only love . Isto é só amor mas passa
Will you love me tomorrow . Apesar da tua amnésia, ainda me amarás amanhã
That.s how strong my love is . Estás a ver o pilar daquela ponte, o meu amor por ti é assim
Crazy love . Amor maluco, à Julio de Matos
The price of love . Querida, esperemos pelos saldos
I love how you love me . Amo como me amas e vice versa, acho eu
This love . Fica com este amor que é o teu número
Falling in love again . Cair outra vez do amor abaixo
Love me madly again . Ama-me, mas agora pode ser á Miguel Bombarda
Is your love strong enough . É o teu amor suficientemente forte ou precisas de vitaminas
My only love . Amo-te ao de leve
Goddess Of Love . Goza-me ou louva-me
Nobody Loves Me . Ninguém me ama com este cheiro na boca
A Fool For Love - Um louco por croquetes
One Way Love . Amor com sentido único e traço continuo
I'm In The Mood For Love . Estou assim com umas ganas para amar que nem te digo
Sweet and Lovely . Doce e com sabor a groselha
Lover Come Back To Me . Amor agora por trás, faz a vontade a mim
Love Me Or Leave Me . Ama-me ou deixa-me da mão
Quem quer que cantasse tantas vezes o amor como canta Bryan Ferry, dificilmente poderia escapar a um rótulo, ser conotado de cantor pimba ou piroso, ou ver títulos de musícas suas serem parodiados num blog de quinta categoria. Ferry escapa a quase tudo isto, mas seguindo a ordem natural das coisas, mais tarde ou mais cedo começará a percorrer o calvário dos cantores românticos em decadência, fazendo primeiro os intervalos de um ou outro concurso de misses, depois pisando os palcos dos casinos, até passar a ser a atracção da noite numa ou noutra festa social mais chique... Se tiver sorte e não acabar os seus dias a fazer a 1ª parte dos Irmãos Catita no Maxim.s! Mas não me parece. E o segredo da longevidade artistica do avô Ferry, está não só na qualidade das letras, como também na sofisticada orquestração das suas musicas, ambientes sonoros intemporais muito intensos e envolventes que assentam que nem uma luva na sua inconfundível voz lamuriante. No seu ultimo álbum, .Frantic., parece ter-se virado mais para o mercado americano, indo buscar algum ritmo às baladas country e aos blues, revisitando também mais assiduamente o estilo rock n.roll dos anos 70, coisa que no entanto ele pontualmente sempre fez questão de fazer. O álbum tem em .a fool for love. o grande Bryan dos velhos tempos e em .hiroshima., 3.14 minutos do Ferry actual e em grande forma.
Publicado por jorge b pelas 08:05 AM
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quarta-feira, 11 de fevereiro, 2004
Pode ser que já vos
Pode ser que já vos tenha aparecido ou venha a aparecer na caixa de mail. Trata-se de uma sequência de imagens chocantes de um géninho (GNR) acocorado junto a um aparelho caça-multas (radar de velocidade), escondido atrás de um pilar de um viaduto sobre a A1, algures ali para as bandas de Leiria.
Deveria ter eu uns 3 ou 4 anos, lembro-me de uma vez, numa estrada de província, onde muito raramente passava um ligeiro de passageiros, lembro-me do meu pai ter passado sem parar o carro (um lendário Ford Capri) no sinal STOP de um cruzamento, tendo tomado antes, naturalmente, precauções sobre se efectivamente viria algum tractor ou carroça a passar, tarefa facilitada pela boa visibilidade do local. Logo de imediato, 20 metros mais á frente, saltaram dois géninhos de trás de uns arbustos e puseram-se no meio da estrada. A cena foi ridícula, com a minha avó nos bancos de trás num histerismo indiscritível, como se nunca tivesse visto um géninho ao vivo (se calhar não), e os cabr*es ainda a multarem o meu pai por ter o carro com os pneus carecas e com o escape livre (coisas absolutamente normais no pós 25 de Abril). Ora, a julgar pelas imagens denunciadas no mail que mencionei, géninhos escondidos à coca da multa é mal que ainda persiste, mau grado o passar das gerações. Não consigo imaginar imagem mais degradante da condição humana que ver um ser humano á espera que outro semelhante, cometa um .erro gravíssimo., seja apanhado com o pé na argola (no caso, acelerador), para depois lhe saltar hipocritamente em cima. É do mais mauzinho que há no espirito português. Deveria a Guarda ser obrigada a colocar avisos: "Géninho embuscado sorrateira e ignobilmente á caça de multa a 2 KM". Só os estúpidos ou os que se estão cagando para as multas porque têm papel e estão habituados a pagá-las, só esses seriam apanhados. E como há muitos estúpidos, o fluxo de receitas não seria afectado, pelo menos no curto prazo, fazendo-se justiça. Os estúpidos que paguem a crise, sempre disse! Porque não penalizar esta raça com estes e outros impostos, para que tendencialmente fosse extinta, e a seguir passar-se à penalização fiscal de outras pragas, uma purga à grunhice, à ignorância, ao lambe-botismo, ao filho-putismo, ao chico-espertismo e ao corta-unhismo (o pessoal que corta as unhas nos transportes públicos!) ? Este país é uma miséria e não é preciso ser-se nenhum Victor Hugo para o escrever. Precisava da implementação destas e de outras medidas estruturais urgentes que visassem atacar aquilo que verdadeiramente enferma o dia-a-dia do país real e que se tem vido a fossilizar perigosamente na mentalidade portuguesa.
Outra cena macabra, que agora me ocorre, aconteceu no verão passado. Um espanhol montado num jipe, farto de estar na fila de uma auto-estrada, galgou o fosso separador central e mudou de faixa. A cena passou com grande alarde no telejornal da SIC como exemplo de condução perigosa(!!?), com direito a várias repetições e com o Rodrigo Guedes de Carvalho chocado, quase a apelar ao Presidente da República para condecorar o gajo qualquer, português de gema, que de camera de vídeo em punho, filmara tudo, com direito a ZOOM obsceno para a matricula do espanhol. Se isto fosse um país como deve de ser, o voyeur bufo veria a camera apreendida, era obrigado a pagar ele a multa em quadriplicado e o nuestro hermano convidado a fazer uma palestra no CCB sobre condução todo-o-terreno. O raio do espanhol podia ser espanhol mas como não tinha a tolerância preguiçosa nem a pachorrice doentia dos lusitanos, obviamente não estava para estar ali a pastar horas e horas até que a pôrra da bicha andasse. Mudou para uma das faixa do sentido contrário para depois prosseguir por uma estrada secundária ou parar numa área de serviço para beber uma bejeca sem álcool, dando o seu tempo por melhor empregue. E fez muito bem! E assim toda a gente o deveria fazer, sempre que houvesse uma bicha, essa chaga civilizacional dos tempos modernos! Infelizmente neste país ninguém muda de faixa, obedece-se a tudo, suporta-se tudo ordeiramente sob o manto dum civismo falso e cobarde. E como não bastasse, ainda se paga portagem.
Não resisto a referir ainda outra obra da grande casa géninha lusitana, com direito a filmagem e passagem repetida por inúmeras vezes no telejornal da SIC com a benção novamente de São Rodrigo, padroeiro dos bons condutores. Um carro géninho, á paisana como não podia deixar de ser, começa a perseguir impiedosamente o carro de um pacato cidadão que apenas seguia com pressa. A pressa rapidamente se transforma em alta velocidade e depois em condução perigosa. E só tinha que terminar mal esta infeliz sequência. Imaginem de repente terem no espelho retrovisor do vosso bólide, um carro conduzido por uns gajos quaisqueres de bigode a tentarem colar-se a vocês. É natural que o pânico vos invada, que vos venha á memória filmes como .Terror na autoestrada. ou o .Encontros Imediatos do Terceiro Grau.. Naquela situação, acelerar é a única solução. A perseguição terminou com o despiste do carro perseguido e quiçá, a condecoração dos heróicos agentes da autoridade... Mais chapa importada do Japão para a reparação, mais tempo perdido em burocracias de seguros, mais uma entrada no hospital com ferimentos ligeiros, mais um trofeu para a colecção de candid-cameras da GNR, mais uns preciosos minutos de grande informação para a SIC, mais uma razão para nos deixar a todos indignados.
Publicado por jorge b pelas 10:47 AM
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quarta-feira, 4 de fevereiro, 2004
Tarde de mais
Há pessoas que, parece-nos a nós, estão sempre á beira de .qualquer dia cometerem uma loucura.. Não falo daquelas que fazem dos sapos a sua dieta diária, que heroicamente se contêm e não vão às trombas a quem merecia. Falo daquelas pessoas que facilmente podemos imaginar no alto do Empire State Building a dizerem "Adeus mundo cruel!". Esse tipo de pessoas que no fundo só dão preocupações, são umas chatas do caraças, só querem atenção e mimos que muitas vezes nada fazem para merecer, e apesar dos constantes e dramáticos queixumes e choradeiras, é vê-las renascer para a vida depois de recorrerem a pequenos elixires da felicidade, como podem ser por exemplo uma bugiganga comprada em qualquer loja dos trezentos ou o assistir a mais um episódio da telenovela.
Eu devo ser do tipo de pessoa que talvez se suicidasse, talvez possa transmitir essa sensação a quem me conhece superficialmente... ou mais ou menos superficialmente também... quem sabe, profundamente.... Mas apesar das probabilidades disso acontecer serem razoáveis (0,00000016011971%) asseguro a mim mesmo que jamais acontecerá. Aliás, escrever ajuda muito as pessoas do meu tipo. Quem sabe quantos milhares de suicídios terá evitado o Blogger! Ou pelo menos adiado. E além do mais o suicídio é um cocktail obsessivo de desespero e coragem que jamais seria capaz de beber. E por outro lado, gosto demasiado de donuts para deixar que semelhante ideia utilize os recursos de sequer um dos meus preciosos neurónios.
Lembro-me de um apresentador da TVI que há uns anos atrás se atirou da ponte sobre o Tejo abaixo. Certamente pertenceria ao grupo daqueles que nunca ninguém iria imaginar... São esses os que constituem o principal grupo de risco, os que não recorrem aos ombros dos amigos, às lojas dos trezentos, à linha SOS suicídio, os que, enganados, se têm por inúteis, que julgam já terem lido e visto tudo ou não haver mais nada a aprender, os que sofrem verdadeira e interiormente angustias inimagináveis sem o demonstrarem aos outros, os mais sozinhos do mundo, os que realmente são capazes de transformar a própria existência em algo de irresolúvel, a vida em algo de .tarde de mais..
Publicado por jorge b pelas 11:43 AM
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quinta-feira, 29 de janeiro, 2004
Avé Morpheus
A coisa mais importante do mundo é o sono, condição primeira para se atingir qualquer objectivo honesto na vida ou não se estar constantemente a abrir a boca. Um santo sono, é meio caminho andado para depois estarmos bem acordados. Como convém, é preciso ter previamente vontade de dormir ou até mesmo força de vontade para dormir. Infelizmente, por todo o lado, faz-se a apologia dos pouco dormidos e mal acordados. O sono dos outros é o maior dos impecilhos ao progresso das grandes contas bancárias. A dormir ninguém trabalha nem consome, e vai daí, não adormeçam, ou, melhor, durmam acordados, que lhes contamos umas estórias. É impressionante a lata dum locutor de televisão quando ás 7 da manhã dá os bons dias à malta e deseja que .fique bem na nossa (deles) companhia.. Daí a dez minutos não o vemos e já está o gajo é na boa companhia da boazona nova assistente de realização, escondidos os dois atrás das bobines das telenovelas. Ao almoço, outro locutor é capaz de voltar á carga .que bom que é tê-lo aí desse lado. e um gajo à cotovelada com outros, a lutar por um lugar ao balcão do snack-bar! E à noite, outro, em vez de ser boa pessoa e aconselhar a malta a ir para a cama, promete-nos antes bons filmes e excelentes séries se formos bons meninos e ficarmos acordados até às tantas! Se fossemos na conversa deles e mais o raio c'a parta da TV interactiva, nem precisávamos de desviar os olhos do ecrã para satisfazermos todas as nossas necessidades de consumo e afecto.
Assim como os maços de tabaco têm inscritos aqueles recados medonhos, os programas de TV, depois das 9 da noite, deveriam exibir avisos ao telespectadores incautos, alertando-os para os prejuízos que poderiam advir para a sua saúde física e mental, a longa exposição a uma televisão ligada e com boa imagem, à mais que provável ocorrência de um sono de poucas e mal dormidas horas. E a partir da meia noite, deveriam haver programas especiais dedicados a pessoas com insónias e um canal vocacionado só para sonâmbulos, verdadeiro serviço público de televisão.
Uma noite mal dormida é sempre visível num rosto com ou sem barba, por mais betumado ou bem escanhoado que esteja, por mais .look fresh cream. que se ponha á volta das olheiras. Um rosto radiante e fresco tem muito mais probabilidades de captar a atenção, de brilhar, de encantar, de engatar os outros ou as outras! Ok, ponhamos de parte a conversa maliciosa, as performances sexuais dos que se dizem capazes de estar uma madrugada inteirinha entretidos a não deixar mais ninguém dormir no prédio. Bem aventurados esses ? Tudo bem, há quem seja muito aldrabão, não pregue olho por eventuais boas razões. Mas, e no dia seguinte, como é estar ás 9 em ponto, dizer .bom dia chefe., cair para o lado e começar a roncar ali mesmo no meio do gabinete ? Mas mesmo o sexo é um elixir do sono. Prova-o os milhares de cartas de leitoras das revistas femininas, que atafulham as páginas dos consultórios sentimentais, queixando-se do sono que os parceiros sentem logo após o .agora é que estava a ser bom.. Uma resposta para todas elas: .Não sabem o que perdem.. Haverá sono melhor que aquele, o descanso do guerreiro ? Que mania têm as mulheres de se armarem em consultoras da certificação ISO para o desempenho sexual!
É incrível como é que em pleno século XXI, a meia dúzia de anos de conseguirmos cultivar batatas em Marte, o quão se menosprezem as coisas realmente importantes da vida, como a irradicação da estupidez, onde pára à noite a Marisa Cruz, ou os segredos dum sono bem dormido, essa atmosfera essencial sem a qual a vida acordada seria ainda mais irrespirável.
Truque para adormecer bem e dormir mais ou menos bem:
Coloque-se em posição fetal e começar a imaginar cenas completamente impossíveis com personagens nossas conhecidas mas com personalidades adulteradas e altamente inverosímeis: o chefe com bom senso, a colega do lado sem saltos altos, o colega da frente sem gel no cabelo, o vizinho sem dívidas, a prima com menos 50 quilos, e por aí fora, todos reunidos num ambiente surrealista a la Salvador Dali, a jogarem golf ao pé cochinho com uma bola de raguebi. Neste cenário delirante, no estado de torpor mental em que cada vez mais se encontrará mergulhado, adormecerá antes que alguém enceste a bola.
Dica para ter uma noite descansada
Livre-se de problemas de consciência. Se ainda assim tiver dificuldades, livre-se da consciência.
Estratagema para adormecer, dormir que nem uma pedra e pagar uma factura de luz exorbitante
Todas as noites faça um litro de chá de flor de laranjeira, sente-se em frente a um televisor, tire-lhe o som e vá sorvendo o chá por uma palhinha. No dia seguinte não se esqueça de desligar a televisão antes de ir trabalhar.
Manha para não estar com insónias, preocupado com o dente que vai ter que arrancar no mês que vem
Faça pela vida, tente que a sua dentista seja sua amante. A enfermeira que lhe segurar as mãos enquanto estiver de boca aberta, convém que seja um modelo em part-time da Central Models que esteja de bata branca desapertada e em top-less, e que a empregada que recepcionou a consulta tenha um fraquinho por si. Arranje estes e outros motivos (a empregada de limpeza do consultório, tenha um fetiche por ela), manobras de diversão mental para diluir a angustia no desejo. Terá um sono mais tranquilo.
Artifício para evitar dar voltas na cama à noite
Ame, apaixone-se, desde que não seja por outra pessoa.
Publicado por jorge b pelas 04:55 PM
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quarta-feira, 28 de janeiro, 2004
Reallity Death
Mas esta gente nunca se tinha apercebido da corda bamba que é a vida ??! O que é que pensam que isto é afinal ? Ok eu falo de boca cheia, tenho-me na mesma consideração orgânica e existencial de uma formiga. No universo, no tempo, ocupo apenas um ínfimo espaço a mais que um insecto. Sempre soube que a todo o momento um pézorro qualquer me pode esmigalhar e sempre vivi bem com isso e também bastante desconfortável às vezes. Falo eu, este ateu incurável, homem de nenhuma fé... Claro que me comovi com a morte do Feher!... Principalmente quando a ouvi anunciada na TSF, quando no dia seguinte de manhã não se falava de outra coisa, quando ouvi os testemunhos, quando repetiram aquela parte dramática do relato atá então igual a tantos outros. Mas daí a ter pesadelos, a entrar em depressão, a ficar em transe a olhar para as incontáveis repetições daquela morte na televisão, daí a ganhar uma nova ou perder qualquer perspectiva de vida ?!!...
For god sake, não entremos em histerismos, sejamos razoáveis, guardem os vossos Klennexs para outras alturas, que infelizmente a todos calham. E a morte pode ser assim, exactamente como foi naquele Domingo à noite, dum momento para o outro. Nada fotogénica, portanto. Mas também se pensarmos que neste momento meia dúzia de células com mau feitio podem muito bem estar rebelar-se algures nas entranhas do nosso corpo para nos lixar a vida, sem que sonhemos com tal, não será isso que fará com que fiquemos mal no retrato. É "simplesmente" o que pode realmente acontecer a qualquer organismo vivo com pelo menos uma célula viva! E vamos andar f*didos por causa disso ? Claro que não! Estamos é mal habituados. Em televisão nunca assistimos aos momentos derradeiros duma vida real. Nas notícias vídeo da vida real, vemos o antes e, maioritariamente, o depois, algo que é sempre mais um "reallity show" obscenamente espectacular que algo realmente dramático. De entremeio, intenções, movimentações de tropas, outras manifestações pirotécnicas, a destruição mais material que humana, a realidade mantida a grande distância, como prova o telecomando da televisão, como prova a ilusão de Poder na qual todos nos viciamos.
Aguentemo-nos à bronca porque tudo vai continuar na mesma depois do minuto de silêncio.
Publicado por jorge b pelas 02:50 PM
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quarta-feira, 21 de janeiro, 2004
Os filhos da puta têm sempre razão
1. Um gajo qualquer com pressa vai no seu automóvel atrás de outro que vai a 40 à hora numa recta com 50 Km mas que, vá lá saber-se porquê, tem um traço contínuo. Não vindo carros no sentido oposto, o gajo com pressa passa o traço contínuo e ultrapassa o outro que fica indignado e começa a buzinar até mais não.
Quem é o filho da puta que tem toda a razão ?
2. Um gajo qualquer com pressa vai atrás de outro que parece fazer questão de acelerar quando há uma recta sem carros no sentido oposto, e des-acelerar quando surgem carros que impossibilitam a ultrapassagem legal. Há já uma hora nisto, farto desta merda, o gajo com pressa decide ultrapassar pela direita, pela berma, atirando com terra para cima do parabrisas do outro que fica a buzinar até mais não.
Quem é o filho duma grande puta que tem toda a razão ?
3. Numa enorme fila de trânsito, há cerca de meia hora que um gajo qualquer com pressa tem o pisca aberto tentando mudar para a faixa à sua direita, que anda melhor. Repara que tem finalmente oportunidade porque o carro mais próximo está 100 metros atrás em marcha lenta. Quando começa a fazer a manobra, o animal vem lá detrás todo acelerado mas tem que fazer uma travagem brusca porque o outro com pressa meteu-se á frente. Insatisfeito, fica a buzinar até mais não.
Quem é o grande filho duma grande puta que tem toda a razão ?
* Á luz do Código da Estrada, da Lei.
Publicado por jorge b pelas 02:23 PM
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sexta-feira, 16 de janeiro, 2004
Ultímo recurso
40% é a percentagem de homens portugueses que recorrem a prostitutas, segundo uma sondagem qualquer. Não vejo motivo para tanto alarde. Lá que mais metade dessa malta não use preservativo, isso sim é preocupante. Quanto à percentagem de clientela, o número pecará por defeito, estou em crer, tal é a avalanche de pequenos anúncios, chats, webcams, páginas de teletexto, clubes de swing, bataclãs, sites institucionais de empresas de escort girls, fortes indícios eróticos de uma forte procura e uma cada vez maior oferta, uma dinâmica de mercado que não deixa ninguém indiferente. E onde se lê erótico, leia-se pornográfico, onde se lê oferta, leiam-se mulheres de todas as nacionalidades, desde matulonas brasileiras a frágeis meninas asiáticas, passando por esculturais moçoilas dos países de leste. Ponto comum a todo este gajedo, um sotaque... E é aquele excitante tipo de sotaque, de quem se nota fazer um esforço tremendo para se adaptar á nossa complexa língua mãe, é aquela pronuncia erógena (embora um .Ai Xim, xim, num pairisze, maisze, maisze!.... beirão também terá que se lhe diga!) que faz o predador lusitano esquecer a fauna autóctone e recorrer sistematicamente a serviços pagos em euros. A verdade é que, graças à imigração, temos sido assaltados ao vivo por um novo tipo de mulher, aquele tipo que só julgávamos encontrar nas revistas que nas bancas estão sempre seladas a plástico ou nos calendários da parede da oficina do nosso mecânico. Com a chegada duma nova geração de gajedo estrangeiro, principalmente de leste, o rapazola português passou a ter permanentemente á sua disposição mulherio até então geograficamente inacessível, o tipo de mulher estilo gaja mesmo mesmo boa, muito diferente do produto aproximado, as sazonais nórdicas peles vermelhas, as quais há já muito que nem com os copos íamos. Actualmente não há bar de alterne que não apresente orgulhosamente o seu momento de strip-tease com variadas atracções internacionais, enquanto a esse nível o produto nacional arrasta-se pelos pouco rentáveis mas não menos dignos peep-shows.
É certo que as portuguesas são tão boas ou melhores que as outras. Mas é igualmente certo que o homem português padrão está a muitos suspiros luz dos ideais de beleza masculina que elas anseiam. Não temos a barba por fazer do Viggo Mortenson, os olhos de puto reguila do Tom Cruise, a farta cabelenga do Brad Pitt, a espiritualdiade do Woody Allen ou a conta bancária do Michael Douglas (antes de se casar com a Catherine) e muito menos somos príncipes Albertos. São por estes sucessos de bilheteira que elas suspiram. Delas, o vulgar portuga só recebe indiferença, demonstrações evidentes da máxima antes sós que mal acompanhadas, antes um sonho milionário que uma realidade com caspa ou mau hálito. E não raros são os casos de gajas mesmo mesmo boas portuguesas que conhecem os aeroportos e hotéis de meio mundo melhor que as Docas. A verdade é que a mulher portuguesa boazona e sofisticada (as duas coisas ao mesmo tempo) é cada vez mais inacessível ao comum mortal e ainda por cima teso lusitano. Ao contrário das outras, as boazonas e desanuviadas estrangeiras que se mostram muito mais acessíveis e receptivas a qualquer cartão de crédito, mesmo de baixo plafond.
Qualquer gajo que tenha a má sina de não ter nascido com charme, status, com o cu virado para a política ou para o show-bizz, que não tenha 40 ou 50 anos bem sucedidos e conservados, ou simplesmente não seja sócio dum clube de golfe, não está em condições de açambarcar modelos, actrizes, jornalistas e outras gajas boas topo de gama por enquanto ainda anónimas, que as há por aí aos molhos, à espera de alguém que lhes faça um back spin como deve ser.
O vulgar português se quiser ter acesso à companhia estimulante de uma gaja mesmo mesmo boa, tem mesmo mesmo que pagar ou então dar uns saltinhos ocasionais ao Algarve ou a outras zonas turísticas (Sesimbra, Costa da Caparica, Bairro Alto...) onde felizmente, mesmo em época baixa, ainda abundam estrangeiras sem fins lucrativos em busca do mito do homem latino: .Élou, ai meique colectione ofe neimes ofe biutiful uimines. Uóte ize iour neime darelingue ?.. Esta nunca falha(va)!
Publicado por jorge b pelas 12:01 AM
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sexta-feira, 9 de janeiro, 2004
Para acabar de vez com os Reis Magos
Apesar de unanimemente celebrados como três gajos ricos e porreiros que ficam sempre bem em qualquer postal de natal ou quadro da Idade Média, acredito seriamente que por detrás do aspecto pachorrento dos reis magos, esconde-se algo de muito pouco nobre.
Os historiadores interrogam-se sobre se realmente teriam existido tais figuras patéticas, e a terem existido, por que raio teriam três majestades de longínquas e mal identificadas paragens que se supõe seriam lá para as bandas do actual Iraque e Irão, o que teria feito três árabes, muçulmanos portanto, deixado os seus ricos haréns, o conforto dos palácios das mil e uma noites, outras tantas odaliscas, por uma longa caminhada de camelo por desertos alheios ? Azia ? Falta de apetite sexual ? Penso que existirão sérias razões para se duvidar daquela espécie de altruismo. Não nos esqueçamos da comprometedora paragenzinha documentada, no palácio de Herodes. Não só pararam para atestar os camelos como também para encher os ouvidos do palhaço anfitrião que lhes terá implorado para que quando descobrissem em que palheiro nascera o messias, lhe viessem logo contar que também lhe queria ficar nas boas graças. Ao que parece, os tipos não bufaram, daí o maluco ter entrado em histeria e mandado matar aquela carrada de putos a torto e a direito. Centenas, talvez milhares de inocentes, sacrificados em nome de um. Deve ser difícil para alguém crescer sabendo disto.
Mas o trio não deu com a língua nos dentes, não se evitando infelizmente o morticínio, porque talvez tivesse ficado convencido de que sortiriam efeito as suas .prendas.. E que prendas levavam aqueles antepassados dos homens bombas dos nosso dias! Analisemos à luz da moderna ciência o que estes três amigos ofereceram ao puto Jesus. Chupetas, fraldas, biberões, bonequinhos da Chicco, leite em pó ?... Nada disso. É certo que também não lhe ofereceram um saquinho cheio de urânio empobrecido, mas terá sido por falta de lembrança ou então um quarto rei mago que por descuido se ficou pelo caminho. Mas o que ia nos alforges daqueles três já bastava para cumprir o objectivo: levar o caos e a destruição á família do velho José. Analisemos as nefastas prendas:
Ouro: Existirá metal mais vil, que mais sangue tenha derramado, maior símbolo do materialismo e da cobiça ? É óbvio que não. De todas as prendas oferecidas pelos três maléficos, esta era de longe a pior e mais perigosa. O reluzente ouro ao menino nada entretia e só nos bolsos dos adultos que o circundavam fazia jeito. José, tutor legal, ter-se-á apropriado do ouro com o qual terá subornado meia dúzia de pastores para que não dissessem quem ali tinha parido, liquidado alguns calotes e... Havia que dar ao cava dali para fora, que já se ouviam zunzuns da façanha do Herodes. O que terá feito José ao resto do ouro não deve ser difícil de adivinhar. Ainda não tinham sido inventadas as slot machines nem o bingo mas já naquele tempo perdições havia capazes de fazer derreter ouro e a evolução do homem era tão lenta que as tentadoras medidas do mulherio de então não era nada diferente das actuais. Que se saiba, apesar do ouro, nunca foi família que experimentasse os prazeres de uma vida desafogada, da vida num condomínio fechado com vista para a faixa de Gaza, e só alguém saberá com quantos bicos de papagaio terá ficado a mãe Maria de tanto viajar no desconforto dum burro, enquanto até o teso do Ben-hur já treinava em carroças com amortecedores. Que se saiba, não consta que em qualquer museu do mundo se encontre exposta uma pulseirinha ou medalhinha que seja em ouro com as inscrições .Recordação dos reis magos.. Talvez os bancos suíços queiram esconder muito mais do que aquilo que se sabe que escondem.
Mirra: .Mas para que raio quer a gente mirra ??!. poderá muito bem ter sido este o pensamento do afamado carpinteiro (consta que naquela noite fria, depois de ter recebido o ouro, José deixou de ir acartar lenha para a fogueira porque pensou que o melhor das oferendas ainda estaria para vir e começou portanto a esfregar as mãos de contentamento; com tanta fricção aqueceu o ambiente). É que naquele tempo, a mirra era utilizada para fazer mumificações e conservar os corpos mortos. Estou em crer que o plano dos 3 lobos muçulmanos vestidos de cordeirinhos, seria o de com o ouro provocar desavenças conjugais, trazer a discórdia á família sagrada, provocar desgraça homicida. Tudo muito bem embrulhado na mirra, ainda hoje estaria em exposição no Museu de Bagdad e muita guerra se tinha evitado.
Incenso: Caso as duas oferendas anteriores não resultassem, esta seria infalível. A desculpa era queimar o incenso para ajudar a purificar o ar, eliminando o odor nauseabundo a estrume e a sovaco que por ali se fazia cheirar. Mas se nos adultos de caixa toráxica feita, algum efeito faz, imagine-se o que fará a uma criança recém-nascida, ainda com poucos litros de ar passados pelos pulmões, respirar tetrahidrocannabinnol... Perguntem a quem quiserem, esta substancia alucinogénica, como o próprio nome inspira, está presente no incenso sim senhor, e naturalmente que os reis magos já o sabiam, sendo mais que certo que fora a .negociar. tal matéria prima que tinham enriquecido. E esta seria a jogada de marketing que precisavam para impulsionar e levar o conceito de negócio aos cinco pontos do mundo, principalmente, à América Latina.
Resumindo, decapitar o cristianismo à nascença, cannabinar o seu profeta, golpe publicitário ou aliciar a mais famosa das virgens para os respectivos haréns, a verdadeira intenção do três reis é algo que jamais saberemos. Mas a celebração do dia 6 de Janeiro, é apenas mais uma dessas celebrações sem sentido à qual só mesmo os Espanhóis ainda lhe dedicam um feriado.
Publicado por jorge b pelas 09:32 AM
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terça-feira, 30 de dezembro, 2003
Para acabar de vez com o Natal
O homem de quem mais se fala todos os anos por estas alturas, não nasceu no dia 25 de Dezembro coisa nenhuma. A Sissy Spacek é que nasceu naquele dia, ela e mais milhões de anónimas pessoas em todo o mundo. O mais provável mês para o nascimento do Gajo terá sido algures durante Abril, curiosamente altura em que se celebra a Páscoa (agora imagine-se que algum dia se descobre que Ele afinal morreu em Dezembro... as comemorações estariam todas ao oirártnoc, seria de doidos!). E mais, o Fulano nasceu 5 anos antes da data convencionada. Já ouvi falar em bébés prematuros mas isto é ridículo! Estamos portanto em 1998 d.c. e a ideia de poder celebrar mais uma passagem de milénio devia, isso sim, encher os nossos corações de alegria.
Mas as PEQUENAS incorrecções bíblicas não se ficam por aqui. Reputados historiadores e cientistas que se deram ao trabalho de ler as entrelinhas e as letras mais pequeninas que nunca ninguém lê, descobriram coisas ainda mais interessantes. Quem pagou a conta da ultima ceia, é tema para se discutir ainda por muito século vindouro. Mas para se descobrir quem foi afinal o verdadeiro pai de Jesus Cristo, não foi preciso chegar aos testes de DNA. De facto, a história daquela gravidez inesperada que já deixara José com a pulga atrás da orelha mas com a comichão na testa, parecia muito mal contada. Ainda mais porque diziam as más línguas da época, que a boa da Maria andava enrolada com um soldado romano, um tal de Pantera de alcunha, de nome que não reti mas que sei era nomen tipicamente romano. José, mais velho e pai barbudo de alguns filhos de outras legítimas uniões, quiçá igualmente azaradas, já não dava para o gasto, e a Jovem Maria (o epíteto virginal foi mal traduzido da palavra hebraica que significa Jovem e não Virgem), lá inventou o mais famoso e tangueado alibi de todos os tempos para esconder a facadinha no matrimónio, e que lhe valeu uma viagenzinha de burro até outras paragens.
Posto isto, perante estes factos científicos por mim assimilados numa destas manhãs frias de Dezembro quando frente ao televisor aguardava pacientemente pela chegada dos saldos, o Natal só tem lógica até aos nossos 5, 6 anos, idades em que normalmente deixamos de acreditar nessa simpática, assumida e incontestavelmente inventada figura que é o Pai Natal. Nessas idades pensamos que o tal de menino Jesus deve se apenas mais um puto qualquer mas que terá algo de especial e portanto será o preferido do Pai Natal, o primeiro a receber prendas, tipo logo á meia noite (as minhas só chegavam por volta das 6 ou 7 da manhã, quando já raiava o sol. Estaria portanto lá para o fim das preferências do velhote).
Nesta época deviam-se comprar só brinquedos para os nossos filhos, para os filhos dos nossos amigos, para os filhos sem sorte, e para os dos vizinhos, caso fossemos assim mais a dar para o cínico.
Este post foi escrito GRAÇAS A edp, pela oportuna energia eléctrica fornecida ao meu equipamento informático, ainda que a troco duma parcela do meu ordenado.
E mais agradecimentos:
À rtp1 que oportunamente exibiu um documentário sobre a VERDADEIRA vida de Jesus.
Ao lidl que oportunisticamente importou da Alemanha a pilsener Fink Brau (4,7% vol.), companheira e musa deste post em particular.
.Presumo que fui um pai severo. Sempre disse aos meus filhos: façam o que quiserem, o enterro é de vocês..
Charles Chaplin, n.16-4-1889 / f.25-12-1977 (alguém em quem valia a pena acreditar).
Publicado por jorge b pelas 12:03 AM
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sexta-feira, 19 de dezembro, 2003
Uma história de Natal
Assisti a várias matanças de porcos, principalmente quando era puto, acreditava eu ainda no pai natal. Na ultima, já homenzinho, a vítima tinha sido baptizada com o nome de Fritz. Um grupo de malta juntou-se, decidiu comprar um porquito pequeno, leitão, chinito, trazê-lo no carro e entregá-lo a um homem também 'ito', dono de uma quinta, para que, conforme previamente combinado, o cria-se com todo o 'amor & carinho' até estar bom para se matar, esquartejar, comer e elogiar o sabor da carne. De facto, o bicho desde que entrou naquele curral, fazendo companhia a novos amigos e vizinhos, esqueceu decerto rapidamente a mãe e restante família que deixara para trás, e, ganhando novas raizes, não mais saiu das nossas vidas durante alguns meses. Tinha direito a visita regular, crescimento acompanhado, atenção redobrada sobre o seu estado de saúde, peso principalmente, cenouras e bolotas que caprichosamente comprávamos e apanhávamos das matas circundantes.
Assistíamos embevecidos ao seu crescimento e indiferentes ao desaparecimento e chegada de novos amigos suínos aos quais naturalmente pouca atenção dávamos não estando os mesmos sob a alçada do nosso sustento. O nosso ?carinho?, ia todo para o Fritz, o nosso orgulho, e parecia-nos a nós ser o mais belo exemplar que ali estava, que tínhamos tido muita sorte, que o vendedor tinha sido pessoa honesta e recomendável, o tratador seguia escrupulosamente as nossas instruções: para o Fritz, apenas da melhor ração, mas de preferência, apenas dos melhores restos de comida.
Como o dia da matança estava para breve, enquanto preparava-mos as câmaras de filmar e fotografar, alguém afiava as facas e lavavam-se alguidares. E quando chegou a hora, naquela manhã fria à beira dum Natal, o bicho, estranhamente, não veio ao chamamento como sempre fazia. Não havia bolotas para ninguém e parecia que adivinhava. Os porcos também tinham 6º sentido e nós, sentido nenhum, concluí quando o ouvi guinchar, quando o vi puxado á força, quando me chamaram também a mim para ajudar e eu recusei, recuando para mais tarde ser alvo de chacota. Era preciso chamar o dono da Quinta, o pai do Fritz, sim, pai, que pai e mãe são quem cria e não quem pare. E lá veio o 'homezito', aquele seu sorriso de quem já esperava, de faca afiada, de quem já sabia que aquela meia duzia de marmanjos não conseguiria sequer apartar o bicho dos outros porcos. 'Anda cá Fritz, vá anda cá meu menino, isso amigo, vá vem...' Fritz para além de porco tinha muito de burro e lá veio na cantiga até ao local escolhido, até começar a guinchar de novo, até ser novamente agarrado por duas mão em cada pata, outras ao pescoço, na barriga, junto á fogueira que eu tinha ajudado a acender. O homezito lá espetou a faca no amigo, e nós matámo-lo, e como se não bastasse, comemo-lo.
Publicado por jorge b pelas 03:30 PM
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Da pior espécie
Imagina-se a seguinte teoria marada, saída da cabeça dum gajo qualquer: Alguns homens já nascem com uma propensão genética para serem cornos.
Continua-se a imaginar, que alguém garante ao outro lado, com a mais absoluta das certezas, que não nasceu com essa propensão genética, pelo que jamais foi ou será vítima de tal má sorte, jamais será corno, cornudo, cabrã*, por maior que seja o precipício, por muito que à beira dele se encontre. Esta certeza confessada oralmente com esta convicção, faz automaticamente desse alguém, não um gajo estúpido ou ingénuo, antes um gajo arrogante, da pior espécie.
Publicado por jorge b pelas 10:30 AM
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quarta-feira, 17 de dezembro, 2003
Drama diário
Vivo o drama diário de quem tem um horário a cumprir. Se chego depois dos 15 minutos de tolerância, tenho que fazer um pequeno ritual, a que muitos apelidam de .O beija mão.... e que consiste em arranjar uma desculpa plausível ao .chefe., apresentar-lhe um relatório resumido daquela nossa pontual incompetência, apaparicá-lo, se for necessário, beijar-lhe o cu. Não sei se o gajo está ciente disso mas, naturalmente que 90% das desculpas que damos por qualquer lapso temporal, são tangas inventadas durante aquele período traumático, durante aquela fase em que já só pensamos .e agora caraças ?!., em que o chegar atrasado é já um facto irreversível. É que quando saímos de casa, por mais atrasados que estejamos, pensamos sempre que chegaremos a tempo, que haverá uma conjugação de factores cósmicos e paranormais que farão com que todos os sinais estejam verdes á nossa passagem, que não hajam lesmas pelo caminho, que não haverá bicha na ponte, e outras ausências ou ocorrências de outros factores que influenciam a nossa performance a caminho do trabalho.
No caso concreto de hoje, não aconteceu aquilo que geralmente acontece entre as 7h30 e as 8h00. Hoje não parecia um maluco a fazer ultrapassagens a torto e a direito apenas para ganhar uns lugarzinhos a mais lá à frente na bicha. E quando fui ao .beija mão. (nunca lhe beijei o cu, é com muito orgulho que o digo), mais atrasado que nunca, é óbvio que não poderia dizer a verdade: Que tinha estado acordado até de madrugada porque estivera a ver o episódio "End of Eternity" do .Space 1999. em DVD, e depois, o .Cubo. na RTP2, e que, apenas por descargo de consciência, quando tinha mudado para a SIC, estava um gajo a sodomizar (parecia) uma preta (ou negra se preferirem), facto que me tirou imediatamente o pouco sono que tinha e me fez automaticamente prestar atenção à estória que, confesso, tive dificuldade em perceber. O gajo, o chefe, nunca iria compreender o porquê das minhas olheiras e barba por fazer! E lá inventei uma tanga qualquer, a qual recebeu a benção com mais benevolência que o costume, sem direito a rebocada e tudo. Interrogo-me se o gajo estará realmente ciente, de que mesmo os atrasos resultantes de noticiadas catástrofes naturais, ou monumentais engarrafamentos ou choques em cadeia, são sempre ficcionados pelas vítimas, ninguém resiste a adicionar uns minutos de pura ficção para tornar a desculpa ainda mais plausível. Talvez, aquela benevolência com que aceitou a minha desculpa, tenha sido influenciada pelo meu estado de espírito de hoje, pela descontração involuntária que demonstrei, a grande eficácia com que fiz a exposição da tanga. Resultado decerto duma nova perspectiva de .vida a caminho do trabalho. que me fizeram ver ao início do dia, da viagem: .Vai com cuidado, olha que mais vale beijar a mão ao chefe que o cu a Deus..
Publicado por jorge b pelas 11:35 AM
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quarta-feira, 5 de novembro, 2003
Singelas contribuições para o meu daltônico auto-conhecimento
Terei descoberto um surpreendente padrão no meu irregular consumo de revistas. Já não bastava ter chegado à conclusão que afinal orientava-me muito mais pelos gostos da maioria do que aquilo que julgava, e agora sinto-me como um chimpanzé a fazer um teste de Pavlov... Vi nas bancas a Maxmen (ex Maxim, ex Super Maxim) e senti logo o impulso de a comprar... Autêntico reflexo condicionado, comprei-a.
Tenho em casa, guardadas naquela pilha de revistas que são para guardar, os números anteriores das Maxmens compradas e que pretendo preservar para a posterioridade. Foi naquela molhada que descobri que, pondo de parte as revistas que traziam na capa a Mónica Belushi e a Denise Richards, comprei todas aquelas que prometiam mais fotos duma qualquer loira seminua no seu interior! Sendo consumidor mais ou menos regular da revista, falhei no entanto os números que, agora concluo, traziam na capa fotos de morenas ou ruivas... Se na capa vinha uma loira, foi comprada de certezinha absoluta (tirando a que trazia na capa a Alexandra Fernandes, pouco apelativa).
Confesso que nunca julguei que teria uma preferência assim tão evidente... Sempre detectei beleza em todo o corpo sobejamente feminino, independentemente da cor do cabelo, da pele, do batôn ou da altura dos sapatos de salto alto. Longe de mim recusar liminarmente qualquer tipo de contacto explicitamente mais estreito com não loiras, avesso a superstições que sou, e nunca me pareceu lógico fazer qualquer tipo de discriminações generalistas entre loiras e morenas. Há morenas feias e bonitas, assim como há loiras e ruivas e por aí fora. O que é feio e bonito é naturalmente relativo a cada apreciador que por sua vez não tem nem loira nem morena, antes sempre cinzenta, aquela parte do cérebro onde se registam as suas preferências e referências volumétricas.
Mas perante aquelas provas de compra, assumo a minha involuntária preferência: Este gajo prefere as loiras sim senhor, seminuas!... E todo o restante universo feminino, bem vestido ou bem despido, consoante... A beleza agasalha-se, esconde-se em lugares por demais visíveis...
Publicado por jorge b pelas 03:32 PM
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quarta-feira, 29 de outubro, 2003
Reflexões sobre o espantosamente belo
Reflexões sobre o espantosamente belo
Na realidade um interior espantosamente belo não existe. Apenas a beleza exterior pode-o ser.
*
Quando se fala do espantosamente belo, estou em sintonia com os gostos universais da maioria. Por maior que seja o fosso social e cultural que nos separe, a gaja que povoa o imaginário do pedinte da esquina ou daquele gajo que vai a ler o "Record" e a coçar as meias brancas, é a mesmissima gaja que povoa o meu. Dada a minha alergia ás maiorias, isto ás vezes dá-me que pensar...
*
Um mais ou menos mal disfarçado mau feito pode conferir à distinta proprietária do mesmo muita sensualidade (proporcional aos atributos fisicos visivelmente evidentes), criando num gajo a necessidade diria que cristã, de transformar a vítima num objectivo que a todo o custo necessita ser conquistado e exorcizado, conduzido para o lado do bem.
Publicado por jorge b pelas 12:18 PM
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sexta-feira, 26 de setembro, 2003
Más companhias
Más companhias
Acompanho o meu irmão à matrícula. Portalegre. Aquilo é longe e ele não tem carro. Ele não fez parte dos sessenta e tal por cento dos que entraram para a primeira escolha. Sei que se tivesse entrado para o curso que queria, até era capaz de ir a pé. Só por esse motivo, porque sou contra estes acompanhantes tipo sombra ou anjo da guarda, acompanho-o.
Causa-me uma certa impressão ver miúdas acabadas de sair do liceu, já umas mulherzinhas portanto, acompanhadas sob a alçada dos pais, manas e primas, sempre mais velhas estas companhias, essa espécie de guardiões hormonais, no acto da matrícula, e quiçá depois no primeiro dia de aulas, na entrada para a residência de estudantes, sabe-se lá até onde... Esta geração de miúdas que afinal parecem desenvoltas apenas com as teclas do telemóvel. Fico envergonhado e teclo ás escondidas. Falo destas miúdas porque a universidade vai ser delas numa relação de 5 para um. Os pais dele também lá estão. Os meus só foram companhia quando entrei para a primeira classe, não tenho a certeza. Sei que para a pré-primária estiveram, isso sei. Depois, por aí fora, nunca mais tive companhia. Para quê ?! A parte burocrática sempre foi tratada por mim. Não era só eu, éramos todos assim, uns desenrascados. O tempo nas filas era passado na galhofa espontânea, aquela que só brota naturalmente sem a presença das fantasmagóricas companhias mais velhas. É no mínimo constrangedor saber que aquele gajo de bigodaças lá ao fundo é o pai da miúda ao lado, tão... cheia de dúvidas com o boletim das estatísticas do ministério. É absurdo estar num acto de matrícula onde no ar se respira o perfume rasca da praxe misturado com os perfumes austeros das mãezinhas. Ainda mais agora que existem os gabinetes de apoio ao aluno cujas simpáticas faces visíveis desfilam orgulhosa e elegantemente em traje académico. Mesmo com o calor, as prestáveis não tiram a roupa preta, mas tiram todas as dúvidas e as fotocópias. Que melhores companhias ?
Bagão Félix, paladino da segurança social do século XXI, havia de fazer contas ás horas de trabalho perdidas, e proibir duma vez por todas a entrada dos pais, manas e primas, sempre mais velhas, nos recintos universitários.
Publicado por jorge b pelas 10:09 AM
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segunda-feira, 15 de setembro, 2003
DVD
Neste verão inscrevi-me num clube de vídeo. Mau sinal. Mas foi. Ultrapassados os tramites burocráticos (exigiram-me comprovativos de residência, atestado de sanidade mental e diversos testes de paternidade) pude finalmente retirar do expositor o meu primeiro filme DVD por 500 paus. Uns dias antes, imagine-se, em pleno Julho, comprara o meu primeiro leitor de DVD. Péssimo sinal, preparação óbvia para umas férias muito caseiras. A minha habitual volta por outras paragens foi sacrificada por motivos técnicos alheios. O programa lá seguiu dentro de momentos com um saltinho a Espanha (tinha que ser, tinha mesmo que ser), interior sul. Coisa pouca mas deu para fazer o gosto ao vicio das viagens e dormir uma das noites numa ?hostal? ao som da algazarra que as baratas faziam no sótão. De volta a casa, aperfeiçoei o ritual da visita ao clube de vídeo, dominando a nomenclatura das etiquetas, a localização das diversas secções e prateleiras, descobrindo todas as funcionalidades do aparelho reprodutor de DVD. A minha mão adaptou-se maravilhosamente bem ao mais recente telecomando da casa e quando saía do sofá, dava por mim a frequentar as secções de DVDs em promoção dos hiper-mercados. Foi em Espanha num "Al Campo" que adquiri oficialmente o meu primeiro filme. "El Hombre Elefant", a obra prima de David Lynch por 1500 paus. Achado do caraças, com legendas em português e opção de ouvir John Hurt em Castelhano. Ao rever o filme, dei-me conta da minha crescente incapacidade em reter as histórias e os momentos dos filmes que já vi. Estava a rever um filme mas era quase como se fosse a primeira vez. Vá lá, tinha a ideia de que a fotografia era a preto e branco e acertei. É certo que haviam passados uns bons dez anos, mas conheço malta capaz de se lembrar da marca da mota que a Pamela Anderson montava em "Barb Wire" ou descrever ao pormenor a alucinante sequência final de "Ghostbusters"! Não é fantástico!? Eu não. Esqueço-me. As memórias com que fico dos filmes são difusas, imagens mentais desfocadas, pontinhas de linhas descosidas que não levam a nada. Fica apenas a ideia reduzida do plot. Curiosamente retenho os nomes dos actores, realizador, director de fotografia e um ou outro momento mais marcante ou então um pormenor técnico, tudo matéria irrelevante quando se pretende contar o que se viu a quem de direito. A recordação quase exclusiva e compulsiva deste tipo de pormenores quase que chega a ser assustadora. Por exemplo, actualmente não me sai da ideia aquela sequência do "Panic Room" do David Fincher, com a Jodie Foster e fotografia do Darius Kondji, em que a camera, qual impossibilidade à boa maneira de "Siegfried & Roy" passa por dentro da pega duma máquina de café depois de segundos antes ter estado no interior duma fechadura. Esta minha característica afasta no entanto de mim o fantasma da Alzheimer. Mas pelo sim pelo não, a empregada do clube de vídeo está avisada. Verificará sempre na base de dados se acaso não estarei a levar um filme já visto. Caso tal aconteça e não apresente uma boa desculpa, tem ordem para ligar para um número que só nós cá sabemos.
Publicado por jorge b pelas 11:05 AM
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segunda-feira, 14 de julho, 2003
Hidrotupia
A água podia ser fabricada já com todos os ingredientes necessários à vida. Não haviam facas nem garfos, só copos, garrafas e pedras nos rins. Bebia-se um copo de água, ficava-se enfartado e arrotava-se a enchiladas. Às vezes dar-nos-ia azia e tomaríamos umas gotinhas de água com sabor a compensame.
Publicado por jorge b pelas 01:42 PM
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quinta-feira, 10 de julho, 2003
A idade da proeminência
A partir dos trinta anos não começamos a sentir qualquer peso da idade, antes, começamos a procurar sinais da idade. Até ali um gajo não tem idade, é simplesmente novo, alegremente sem idade, nem sequer sabe o que é isso da idade. Não procura nada que não seja o próximo engate ou com insistência novas maneiras de tanguear os porteiros das discotecas para entrar sem pagar. Depois, de um ano para o outro, apercebe-se que já não pode renovar o cartão jovem, é confrontado com o facto de que afinal já começa a ter idade, e que nas discotecas o barmen deve andar a meter-lhe ás escondidas soporíferos nos copos depois do 2º vodka . Diz-se que surge aqui a primeira crise, a dos trinta.
Felizmente sou um gajo já batido em crises. Por volta dos 30 anos, já tinha 29 crises em cima do lombo, de maneira que aquela foi apenas mais uma. Mas claro, teve um saborzinho diferente, o da descoberta, o da procura dos sinais e efeitos da idade, espécie de obsessão genética. O problema é que em mim são difíceis de encontrar esses sinais e ainda mais os efeitos, é verdade! Claro que visto de cima pareço-me cada vez mais com o Santo António mas também nunca fui de fazer parar o trânsito. Tirando aqueles detalhes fisionómicos, algumas proeminências na zona abdominal de somenos importância, não encontro nada de verdadeiramente significativo. Não ocorre em mim neste momento nenhum processo de degradação física ou intelectual visível, qualquer sintoma de senilidade mental... O que é que eu estava a falar mesmo ?... Ah, a única alteração que ocorreu em mim, foi de um momento para o outro achar que tenho as bainhas da maioria das minhas calças subidas de mais. Deixei de suportar andar com a boca das calças a dançarem-se-me nas canelas quando ando. Quando aperto o passo o efeito piora. Fui eu que cresci ? Será que ainda estou a crescer ? Não exageremos, o fenómeno é sinal da idade ou então dever-se-á antes às sucessivas lavagens que fizeram encolher o tecido e, reparo agora nestas que trago, descoser as costuras em sítios embaraçosos. A partir de agora a calça tem que roçar o chão sem lhe tocar, sem que no entanto não esconda a marca da meia quando cruzar as pernas. Confesso que ainda não dou mais valor ao interior que ao exterior duma gaja mas talvez para me redimir, passei a dar mais valor à minha roupa interior que exterior. De marca, impreterivelmente, tenho actualmente um invejável stock de meias e cuecas tipo boxer justinhas de excelente qualidade. Que melhor sinal dos trinta que este!?
Também devo dizer que, outra alteração significativa, passei a dar importância ao barulho que os sapatos fazem quando ando. É verdade, o que este gajo se lembra! Continuo com a elegante mania de só usar sapatos pretos com atacadores, mas a sola e o tacão ganharam significados completamente novos para mim. De modo que naturalmente numa próxima visita á sapataria, levarei em conta tais pormenores e pedirei à empregada que me deixe medi-los antes de ensaiar o andar em diversos tipo de solo. Se virem alguém experimentar sapatos nos canteiros das plantas, teste de som em solo arenoso, muito provavelmente serei eu. Se usar boxers Colvin Kein, então serei eu de certeza absoluta.
De resto, cabelos brancos nicles, calos nos pés nicles, divórcios nicles. Estou, como diria o Herman, .melhor que nunca. e não fui acusado de pedófilia, de cheirar mal dos pés, de não ter declarado todos os meus desastrosos negócios bolsitas no IRS e não tenho ninguém atrás de mim exigindo-me uma pensão de alimentos. Sinto-me em forma e comecei a beber um litro de água por dia no trabalho, outro sinal da idade mas também resultado das leituras fugazes que faço da men.s health, por acaso outro sinal da idade.
E por este andar, com tanto sinal mas pouco efeito, assim como desapareceu a minha urticária que julgava crónica, as minhas ligeiras rugas de expressão irão desvanecer-se porque na realidade não tenho nada que me dê dores de cabeça mas também nada que me faça rejubilar por ali além. Vivo num meio termo nirvanico, conseguindo por um lado pagar as contas triviais, água, luz, aspirinas, ir ao cinema ás segundas feiras e frequentar cadeias de fast-food, mas por outro não consigo chegar a um roadster e ter uma casa com vista para o mar nas Açoteias... Não terei desgastes nem aborrecimentos e daqui a uns aninhos, muitos aninhos lá para a frente, uma miúda do liceu irá confundir-me com o namorado com quem acabou ontem porque os seus namoros nunca resultaram com miúdos mais novos que ela, e os meus amigos esquecidos da escola primária vão .reconhecer-me. à saída duma matinée dançante e imediatamente perguntar-me-ão .Desculpe, acho que andei com o seu pai na escola.. Jamais terei umas rugas de expressão (idade, velhice portanto) como o Jack Nicholson. Que idade terá o gajo... Já terá passado dos trinta ?
Publicado por jorge b pelas 01:53 PM
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quarta-feira, 2 de julho, 2003
Ricos: Perigo de Morte
Indiferente ao caos urbanos, um velhote estilo sem abrigo deslocou-se calmamente até á faixa central para peões, e em pleno Largo do Rato, deitou-se por cima do gradeamento de uma saída de ar do metropolitano. Lá se aninhou, fechou os olhos, parecendo dormitar satisfeito, a grande distancia de tudo. Lamentei não ter uma máquina de fotografar à mão (as milhares de fotografias que não tiramos por não termos uma máquina de fotografar sempre à mão). O sono do velhote foi curto ou então foi interrompido por acção humana directa. Porque buzina, fumos de escape, barulhos dos martelos hidráulicos da obra ali perto, nada o faria despertar daquele encantamento. Passada uma hora, quando lá voltei, já não existia aquele contraste que daria cor à fotografia.
Passados uns dias, voltei a encontrar o mesmo velhote, o mesmo estilo. À saída do estacionamento, tive de travar e desviar o carro para não atropelá-lo. A mesma paz, um ressonar invejável e tranquilo, desta vez em plena faixa de rodagem... Cheguei á conclusão que o homenzito certamente não teria problemas na coluna. É sabido que dormir no chão só faz bem. E depois dei por mim a pensar o quão perigoso pode ser, ser-se rico. Lembrei-me daquele caso de uns amigos afastados, recém casados. Gente abastada, proprietária milionária daqueles barcos que atestados levam mais de mil litros de gasóleo e custam mais de mil contos por ano manter estacionados na Marina de Vila Moura. Numa das saídas em família para o mar, depois dum mergulho, o rapaz recém marido voltava para o barco. Momento em que o pai da rapariga ligou inadvertidamente o motor do barco. O rapaz foi apanhado pelas hélices e ficou sem pernas. Isto é extremamente dramático e verídico (caso raro aqui no blog) e não me vou alongar mais.
Nem eu nem aquele homenzito jamais sofreremos semelhante acidente. Jamais. E porquê toda esta certeza ? Simplesmente porque não somos ricos. Nunca morreremos ao volante dum carro com 300 cavalos, numa queda de avião nos mares da Polinésia ou picados por uma serpente venenosa da Patagónia. Poderemos morrer de tédio é certo, sermos atropelados enquanto batemos uma sorna , mas não teremos acidentes ou morter profundamente dramáticas e aflitivas, coisas que parecem perseguir os ricos. Ser rico é perigoso. Se fosse rico pensava duas vezes antes de me hospedar no Ritz de Paris e me meter dentro de um Mercedes conduzido por chauffeur à noite. Se pensasse só uma vez, fazia como o cromo do Michael Jackson. Pensam que ele não está bem ciente do perigo que corre ? Faz bem em proteger-se atrás daquela mascara, viver em ambientes os mais acéticos possível, rodear-se de um exercito de guarda costas, videntes e médicos. Enquanto os pobres são habituados desde pequeninos a conviver com toda uma vasta panóplia de vírus imundos e doenças reles ao ponto de depois de contra elas ganharem imunidades inexplicáveis pela ciência, os ricos estão muito mais expostos a síndromas selectivos e se vêem sangue desmaiam com muita facilidade. Eu sei que os hospitais civis estão a abarrotar pelas costuras de pobres. Mas 90% dos casos é hipocondria descarada, mal próprio de gente que não tem nada importante com que se queixar.
Lembro-me de outro caso raro mas que só vem dar razão a mim e ao Michael. Um tal sucateiro, história de vida que há tempos me contaram, fizera fortuna a juntar e vender ferro velho. Não satisfeito com o ainda pouco que dizia ter a todos, começa a entrar em jogadas, que parece as há muito por aí, de comprar novo a entidades muito respeitáveis como se de ferro velho se tratasse e depois vender como estava, novo em folha a outras entidades também respeitáveis. Os pormenores desta traquitana contaram-me mas não reti que sou gajo nada dado a jogadas. Mas sei que o raio do sucateiro lá conseguiu amealhar fortuna de milhões, leram bem, milhões de contos (é muito euro caramba!). E onde pensam que vive hoje o regalado sucateiro, na Quinta da Marinha, do Peru, Aroeira, apartamento nas Amoreiras ou na Expo, não ? Foi a custo que ainda há pouco tempo tiveram de o expropriar pelas vias legais da casa abarracada onde vivia com a mulher, para ali construírem uma estrada qualquer. Dizem que não se pode estar ao pé do animal mais de um minuto que o gajo tresanda a cavalo que não é lavado há mais de 6 meses que se farta. A mulher é daquelas que têm bicharocos pequeninos sem nome a viverem há muitos anos pacificamente debaixo das unhacas grandes daqueles pés gretados rodeados de calos por todos os lados. Entre bicharocos e paparazzis, os primeiros não serão mais inofensivos ? Não me admirava que vivessem felizes, sucateiros e bichos das unhas, ambos com ligeiros problemas olfactivos, algures numa daquelas casinhas da Quinta do Conde ou em Fernão Ferro. F-e-l-i-z-e-s, leia-se bem. Aquela gente poupada alguma vez vai morrer vitima duma operação plástica mal sucedida ?! De longe, o único plástico que alguma vez lhes fará mal é se alguma vez comerem gelatina Alsa num tupperware desses novos coloridos em vez de aproveitarem a mesma taça de barro onde comem os cães. Alguma vez morrerão vitimas de um acidente quando o helicóptero privado em que seguiam aterrava no telhado da sua penthouse no Mónaco ? Vive-se numa casa térrea com fossa a céu aberto e anda-se a pé que só faz bem.
Eu, se fosse rico, pensava seriamente em mudar de vida. Há tantos exemplos que poderia seguir. Mais sofisticados e dispendiosos na versão Michael, mais saudáveis e económicos na versão sucata. E o dinheiro, o que fazer a tanto dinheiro ? Ora, ora, recompensar monetariamente gajos como eu, aqueles que os fizeram ver a luz ao fundo da casa da Linha com vista para o mar. Deixá-los desgraçarem-se já que disso parecem estar tão desejosos. Tomem lá, sacrifiquem-se, espatifem-se todos ao volante dos Ferraris, naufraguem de barco á volta do mundo, morram de falta de ar numa dessas viagens de turismo espacial, tenham ataques cardíacos nos braços de Top Models internacionais!
Publicado por jorge b pelas 11:24 AM
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terça-feira, 24 de junho, 2003
A união faz a forca
src="http://www.nypl.org/research/chss/spe/art/photo/hinex/empire/hanging.jpeg" align="right" width=230 height=180 alt="- Uff! Finalmente um sítio à maneira para atar uma corda e... estender a roupa!">
Se há coisa que não suporto é o concenso. Encerra em si um perigo qualquer, algo de inexplicavelmente desconfortável. Não tanto do tipo "pedra no sapato" ou "unha encravada" mas mais "comichão no toutiço". Naturalmente haverá um termo clinico para este meu sintoma. Ocorre-me a imagem dum imenso marasmo de pessoas obedientes e concordantes, maiorias que não são mais que rebanhos de carneiros anónimos, ordeiros, comandados por um pastor por sua vez caseiro dum patrão qualquer... Lembram-se do genérico do "Tal Canal" ? "Méeee! Mééé!"... Meia duzia de focas amestradas que batessem palmas sempre que aparecesse uma bola por perto também servia. "Clap! Clap!"
Não é nada recomendável ser-se chato mas ser-se do .contra. nunca fez mal a ninguém. Não ver o que toda a gente vê, não ler, não bater palmas àquilo a que todos aplaudem, não estar onde está toda a gente está, enfim, não fazer orgulhosamente parte da maralha.
Há que ter sérias reservas sobre as tendências dessa maioria unida que brame, gente que não é de confiança. Não se notam os seus nefastos efeitos colaterais por toda a parte ?
Há que pensar pela própria cabecinha. Dá trabalho, e oh meu senhores, que trabalheira! Por isso a união faz a forca ao indivíduo, oferecendo-lhe uma suave morte cerebral, a anestesia do pensamento. Poupa-lhe o labor, mas tira-lhe essa incómoda diversidade, bem cada vez mais prescindível para a maioria, só preservado e apreciado com o requinte de alguns...
Publicado por jorge b pelas 11:13 AM
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sexta-feira, 20 de junho, 2003
Bacalhau inútil
src="http://www.outcomesservices.com/images/hand_shake.jpg" align="right" width=200 height=120 alt="Venha de lá esse escamudo!">
Por mais que me esforce, não me consigo imaginar na pele daquele gajo e descortinar o que passará naquela cabecinha. Passo a explicar, que por força da minha actividade profissional, desloco-me frequentemente a certo local que viu reforçada a sua segurança à entrada com mais um elemento. Segurança privada, típico, um gajo que curiosamente já fizera segurança no edifício onde trabalho, velho reconhecido. Ditaram então ordens superiores, que cada pessoa que ali entrasse, fosse quem fosse presumo, teria a partir de então de mostrar a sua identificação. Compreende-se, porque é local de muita devassa, muito turista perdido ali espreita porque aquilo por fora tem ar de casa apalaçada, museu, monumento nacional pela certa. Outra gente ali vai, entre eu e muitos outros anónimos ou não, por razões que desconhecerei ou que não serão para aqui chamadas. Mas eu sou habitué, assim como sou já conhecido do segurança, um gajo que impõe respeito, correctíssimo e com uma peculiaridades na linguagem e no trato que não passarão despercebidas ao utente do local. Há sempre uma troca de bacalhaus à entrada e um até breve à saída sem que isto signifique um tu lá e um tu cá que é compreensível não existir: .Como está... Cumprimentos lá ao senhor fulano.... E o senhor beltrano nunca mais o vi por aqui... Hoje está muito calor.... Logicamente, seria de supor, sendo eu pessoa conhecida já se vê, que o segurança, tendo eu dado prova mais do que uma vez da minha identificação, não me voltasse a pedir a mesma. Mas não, o homem, cumpridor escrupuloso das suas funções, não se duvide, lá me questiona, barrando-me discretamente a entrada. E não é preciso dizer nada que eu já sei. Bacalhau (se calhar é mais escamudo=peixe parecido mas que não é bacalhau, e que por vezes é vendido em alguns supermercados como sendo) e vai-se procurar a identificação na carteira. Há que fazer prova da identidade. .É assim que tem que ser e ordens são ordens e eles mandam e nós cumprimos.. Mas porquê ??!! Porquê ritual inútil e repetitivo ? Eu não sou da casa mas é quase como que fosse. O gajo não se lembra de mim ? Estive ali ontem. Ou é como o outro do .Memento. cuja memória, o conhecimento e a lembrança de pessoas e locais não ia além dos últimos quinze minutos ? Não compreendo este excesso de zelo, o que vai naquela cabecinha. É suposto pôr-mo-nos na pele dos outros para tentar compreender as suas motivações e as causas para determinadas atitudes. Exercício no qual julgo ter alguma habilidade. Mas neste caso, que começo a julgar perdido, não consigo. Em conversa com outros colegas, todos são alvo daquele mesmo zelo e quase todos já sentiram o horror de ali terem chegado um dia esquecidos da identificação: .hoje passa mas da próxima vez...!.. Alguns que até têm inclusive confiança com o gajo segurança ao ponto de discutirem sobre bola, carros, bola e carros (!) A inutilidade é coisa que emprega muita gente neste país. Acredito que deve haver funcionários públicos em Ministérios cuja tarefa será simplesmente estarem sentadinhos junto às portas levantando-se para as abrir e fechar à passagem dos senhores da casa. E o pior é o excesso de zelo na inutilidade e na autoridade do qual é exemplo cómico aquele segurança.
Quando entro no Blogger, ele reconhece-me. Inseri uma vez a password, identifiquei-me uma vez e a máquina desde então nunca mais me pediu identificação. E nunca lhe dei um bacalhau...
Publicado por jorge b pelas 11:00 AM
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quinta-feira, 12 de junho, 2003
Fora do penico
A minha maior lacuna não é não ser capaz de apreciar um bom vinho ou nunca ter ido assistir a um jogo do Benfica ao vivo. Muito menos é nunca ter estado em Novaiorque, Queluz ou no quarto da Monica Bellucci. A minha maior lacuna é não ser uma besta. E que jeito me dava. Não se confunda com a reconhecida e mui vulgar besta quadrada, versão torpe, um erro genético. Antes uma besta, simplesmente, mas com a mesma sensibilidade, bom gosto e sentido de estado que tenho. Mas infelizmente não sou... Na tropa, quando formava o pelotão, ficava para lá do meio, do lado do pessoal com menos caparro que é desta forma que se ordena o pelotão. A questão do caparro não quer dizer nada. Mas os olhos também têm medo, e a primeira impressão, a impressão do arcaboiço é a imagem de marca de qualquer besta que se preze. De longe ser eu uma besta. A minha sombra desde sempre me pareceu ridícula, principalmente quando ao sol de fim de tarde.
Sim, se eu fosse uma besta, a humanidade só tinha a ganhar. Não havia estúpido nas redondezas que já não tivesse levado no focinho ou nas trombas e aprendido com a sua própria estupidez e os meus próprios metatarsos. Consequentemente, familiares e amigos, vizinhos e inimigos dos estúpidos só tinham a ganhar com a humanização do animal. Não duvido que muitos passariam a ser bons país, melhores maridos e verdadeiros amigos do seu amigo depois de levarem nos cornos. Quiçá me ultrapassariam em virtudes e muitos depois pagar-me-iam umas bejecas tentado convencer-me a revelar-lhes o segredo da minha bestialidade. Coisa que teria sempre todo o gosto em revelar, se truque ou sabedoria fosse, assim houvessem tremoços a acompanhar a fartura da cerveja.
Hoje, por exemplo, aconteceram-me duas situações onde, só eu sei quanto, me trucidei interiormente por não ser bruto que nem uma besta. Logo ao começar do dia, pacatamente no meu automóvel, à entrada da ponte, naquela zona onde por milagre as três faixas passam a uma, isto depois de 6 terem passado a três e assim sucessivamente desde as portagens, dizia que, respeitando escrupulosamente a regra da alternância democrática, ou seja, passa agora um desta faixa, passa outro da outra e depois da outra e volta à primeira, um animal pôs-se a apitar. Só porque ia 10 cm à minha frente, julgava-se ter o direito de entrar imediatamente atrás do gajo que ia à sua frente na mesma faixa e que acabara de entrar. Obviamente que parei, baixei o vidro, sorri e... E depois lembrei-me que não era uma besta e não poderia fazer o favor que os olhos da miúda que ia com o animal me pediam: agarrar-lhe pelos colarinhos, atar-lhe a gravata ao para-choques e dár-lhe um carolo na mona (uma besta sem sempre precisa ser bruta; basta-lhe por vezes subtilmente causar a humilhação, coisa que muitas vezes é remédio santo e inesquecível). Claro que não podia fazê-lo. Sujeitava-me a levar eu no rosto, na cara. A razão dá-nos muita força, é certo, mas é mais força moral que força de braço, murro e pontapé.
Mas o pior ainda estava para acontecer. E quanto fervi interiormente, que conflito enorme entre esta minha condição de gajo desarcaboiçado e espírito rufia. Ao virar da esquina, dou com um cão a cagar em cima da nossa preciosa calçada portuguesa, e o dono, trelinha na mão, à espera, pacientemente à espera que se consumasse o atentado. O que é que um gajo pode fazer numa situação destas ? Em primeiro lugar, claro está, ter o cuidado de não pisar a merda, e em segundo conter-se ao máximo para não ir ao focinho do dono da trelinha. Neste caso, não só correria o risco de levar no rosto, como ainda levar uma dentada daquela amostra de cão que no entanto cagava como os grandes. A uma verdadeira besta bastaria ter arregalado os olhos para pôr imediatamente o dono a fazer o mesmo que o canídeo fazia. E caso o gajo se armasse em tótó e não fizesse continência, se se fizesse despercebido, trocava de cachaço à trela, e punha-o de gatas a fazer um castelinho na calçada e depois obrigava-o a trasladá-lo com o máximo dos cuidados para não desmanchar as ameias, para o caixote do lixo mais próximo. Uma verdadeira besta é assim, justa, implacável, imponente, e ninguém na sua presença pia, mia, rosna ou caga fora do penico.
Vou agora para o ginásio dar-lhe com força.
Publicado por jorge b pelas 03:10 PM
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quinta-feira, 5 de junho, 2003
Destino
Não acredito no destino. Não acho que algures alguém alguma vez se tenha dado ao trabalho de traçar o destino de alguém. Cada um constrói o seu e já vai com muita sorte. Qual .era o destino, tinha que ser. qual carapuça! Nalguns casos ou se tem azar ou sorte, ou então não se tem nem uma coisa nem outra e vai-se desta para melhor.
Cada um constrói ou destrói o seu próprio destino e os destinos reluzentes ou em ruínas podem cruzar-se, influenciar-se, pedirem matéria prima uns aos outros...
É que o destino está sempre em construção ou remodelação e acenta sobre os poderosos pilares das decisões que tomamos perante o imprevisto ou o previsivel. E tomamos milhares de decisões por dia. Aparentemente as mais importantes são aquelas, uma ou outra, que podem previsivelmente influenciar o nosso destino. Mas é só aparentemente. Enquanto escrevo, tomo repetitivamente a decisão sobre qual será a palavra, a letra seguinte. Tomo repetitivamente a decisão de voltar ou não voltar atrás, reler, apagar, ou continuar, caminhar para o absurdo, filosofar, ajavardar, decisões atrás de decisões mais ou menos conscientes que vão influenciar o meu destino, por mais insignificantes que possam parecer. Se demorar mais um ínfimo segundo que seja nisto, será o suficiente para quando daqui a pouco me levantar e quiser ir lá abaixo ao pequeno almoço, já não ir naquele elevador que irá avariar-se entre o 1º e o 2º andar. Descerei pelas escadas, tropeçarei num atacador e cairei desamparado nos braços duma cadeira que estava ali a arranjar. Partirei duas costelas. Na ambulância, a caminho do hospital, uma fulana da Cruz Vermelha, que preenche um boletim de totoloto, toma a decisão de me pedir seis números. Eu tomo a decisão de lhe dizer uns números quaisqueres enquanto reparo como ela não é mesmo nada de especial. Se fosse uma gaja boa tinha dito números provavelmente completamente diferentes (o número do meu telemóvel por exemplo...) mas assim sai-lhe o primeiro prémio da semana seguinte e eu nunca chegarei a saber.
Percebe-se a sequência, como todas as decisões podem influenciar outras decisões, destinos e vidas, e interligarem-se num pequeno caos de micro e macro acontecimentos e situações. Está tudo em aberto ao encontro do acaso, sorte e azar, aguardando decisões, opções e vontades que despoletarão outras, vários rastilhos que se cruzarão em novos sentidos.
Vou neste momento deitar fora a pastilha, que mastigo, já sem sabor. No lixo será lixo. No sapato de alguém será o destino.
Está tudo por escrever.
Publicado por jorge b pelas 10:53 AM
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sexta-feira, 30 de maio, 2003
Os Caroços

Uma menina está a brincar à malha sozinha e ninguém está a reparar nela. Entretanto ouve um gritinho e vira-se, pensando que seja uma das suas amigas imaginárias querendo desconcentrá-la. Era uma outra menina que tinha acabado de pisar um gafanhoto daqueles grandes e castanhos. A menina continuou com o seu jogo da malha, ao pé cochinho, baixando-se para apanhar a pedrita que momentos antes tinha atirado para a frente. Descobre que afinal não se trata duma pedrita coisa nenhuma, antes um caroço de damasco. Abana-o e repara que não faz toc-toc como faz a caixa de anti-depressivos que a mãe tem secretamente escondida na cafeteira eléctrica. A outra menina, que entretanto se tinha entretido a observar as formigas que agora devoravam o que restava do gafanhoto espezinhado e que ainda esperneava, aproxima-se e começa a apagar, maldosamente, os traços no chão do jogo da malha, enquanto cantarola uma musica baseada em factos verídicos. Era mesmo maldosamente porque sempre que fazia algo por maldade, a menina punha a língua de fora e tentava com a mesma chegar a uma verruga com a forma dum paralelipedo, verruga essa bem saliente e que tinha na face mesmo ao lado do nariz, assim como quem vai na direcção do olho direito. A menina do caroço de damasco na mão pergunta-lhe, olha lá, achas certo o que estás a fazer ? E a outra responde, enquanto não encontrar o caroço de damasco que perdi ontem quando estava entretida a fazer uma lobotomia a uma borboleta, mais ninguém que esteja perto de mim, num raio de 10 metros, terá sossego na vida!! A menina do caroço de damasco na mão, discretamente faz muita força para apertar o caroço e assim o esconder. Mas a outra, que tinha ténis novos e não via a hora de os saber calçar sozinha, desconfiou e disse olha lá porque é que continuas ao pé cochinho, se já te apaguei os riscos todos do chão ? És tola ou quê ? A outra ficou tão corada com aquela observação que disse, a minha mãe está a chamar-me, tenho que ir antes que o meu pai lhe grite para gritar mais baixo. A gritaria era quase infernal mas não era diabólica. Era assim, Oh Mariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia, Oh Mariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia. Nisto disse a menina da verruga, de facto, só me podes estar a esconder alguma coisa porque a Maria aqui sou eu e mais ninguem. Nisto mostrou à outra uma folha de papel com uma redacção da escola com o titulo .O meu nome é Maria graças a Deus., e continuou, palpita-me que deves saber onde está o meu querido caroço. A menina do caroço de damasco na mão passou de corada a branco natureza porque entretanto a outra começou a pintá-la à trincha com uma tinta plástica hidrosolúvel. Antes de levar uma pincelada na boca, ainda teve tempo de dizer, não era melhor ires para casa antes que gastes a tinta toda aos homens na Junta Autónoma das Estr... (?) Começa então a chover, e no chão forma-se um imenso lago branco, pois a terra, saturada com as chuvas daquele mês, não absorve a água da lata e a tinta da chuva. Subitamente no local onde estão as meninas, pára de chover. Uma grua faz passar por cima delas um espelho gigante destinado ao tecto do quarto anão duma vizinha que dá nas vistas, que vive sozinha raramente no 18º direito. As meninas olham e observam as suas imagens reflectidas lá em cima, duas pequenas faces no meio do branco natureza, faces que iam no entanto ficando cada vez maiores, cada vez maiores, cada vez maiores, cada vez maiores, cada vez maiores... Ficam tão fascinadas com o que presenciam, que começam de imediato a correr da li para fora. Na atrapalhação da fuga, o caroço de damasco cai das mãos da menina que o tinha, logo seguido do enorme espelho que, no entanto, era à prova de bala, logo, no chão, apenas se partiu em quatro partes. Passado mais ano menos ano, depois de todo aquele bairro ter sido demolido e o entulho sido traficado para um país que ninguém desconfia, uma das meninas, agora mulher, é lascivamente acariciada na sua borbulha, agora em forma de cone, naquele mesmo sítio, debaixo duma árvore, quando um damasco lhe cai em cima da cabeça e se abre em quatro partes. Do seu interior salta o caroço para as suas mãos e diz, não me reconheces ? sou o teu caroço caraças! olha, o meu caroço, como terá vindo aqui parar ? Não olhes para mim, diz a outra com um caroço de nêspera escondido na mão.
Publicado por jorge b pelas 02:58 PM
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quinta-feira, 29 de maio, 2003
Depurar

A verdade é que a mariquice das sondagens (poll) aqui no blog revelou-se um fracasso ainda maior que o próprio blog em si. Estava-me já a fazer ao Jaguar mas não tive sorte nenhuma. Se a primeira sondagem ainda teve 8 cliqueiros, esta ultima sobre se seria preferível acreditar na vida antes ou depois da morte, merecia até à data apenas um clic, um desprezível clic. Como esta e outras .features. só servem para atafulhar as templates de código e tornar as páginas mais lentas, decido retirá-la do ar. As audiências assim obrigam. É uma decisão irredutível. E só um abaixo assinado com mais de uma assinatura ou a proprietária da cervejaria ali em baixo aceitar a minha sugestão de haver uma .happy hour. todas as sextas a partir da 17h me fará voltar atrás.
Além das sondagens, já retirei outro lixo que tinha colocado, deslumbrado que estava com estas mariquices todas que desconhecia existirem. Continua lá mais abaixo o bonequinho com a informação meteorológica que acho querido (não são só as gajas que têm direito a utilizar estes adjectivos!). Muda de roupa de vez em quando, aparecem nuvenzinhas, o sol, a chuva e houve um dia que, para gáudio dos fans, tirou os óculos escuros!!
Voltando ao tema desta ultima sondagem, julgo que o fracasso deveu-se à incómoda pergunta. Basta falar de morte para sentirmos desconforto, começarmos a pensar em carretas funerárias, varizes, amendoins com sabor a mofo, .talk-shows. e morgues, enfim, aquele tipo de pensamentos que na nossa adolescência os nossos amigos mais velhos nos aconselharam a ter durante a nervosa e sempre precoce primeira vez. As questões a sondar deveriam ser mais comerciais. Tenho a certeza que uma pergunta do género .Concorda com a afirmação de Francesco Alberoni segundo a qual Nietzsche tinha consciência de que era louco ?. seriam um sucesso; o número de hits no meu blog disparava para números astronómicos e não tardaria a estar sentado na cadeira dum qualquer conselho de administração e a pedir pelo intercomunicador .tragam-me mais morangos com chocolate derretido s.f.f... Mas eu não sou comercial. Sou daquele tipo de gajo que nunca põe saldos e jamais entrará em liquidação total. Quanto muito faz descontos especiais, mas nem sempre a quem merece, infelizmente. Mas gosto terrivelmente de morangos. Já se está a ver o conflito institucional que há em mim...
Espero ter ainda muitos anos pela frente para poder falar da morte e parar de vez em quando nas bombas de gasolina para encher os furos lentos do meu carro. Na realidade já prometi a mim mesmo que quando o meu blog fizer o seu primeiro centenário, publico uma entrada com a palavra morte escrita em todas a línguas; trabalho de investigação que desde já me comprometerei a fazer mal me instale no nono círculo...
Eu não acredito na vida depois da morte e acho uma perda de tempo colocar-se sequer semelhante hipótese. Por isso, apesar de todas as contrariedades, tento acreditar ao máximo na vida antes da morte e que estará para breve um boom bolsista que nos vai salvar a todos.
Concordo com o Woody Allen, que diz assim mais ou menos, .não tenho medo da minha morte mas quando isso acontecer, não quero lá estar.. Acrescento que se alguma vez morrer, tenho a certeza que depois, onde quer que esteja, serei facilmente confundido com uma formiga ou qualquer outra bicharada que comigo morra nesse dia. Eu e toda a gente seremos confundidos. Não me confundam é com o Alberoni.
Publicado por jorge b pelas 04:14 PM
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quarta-feira, 14 de maio, 2003
Cabedal
Esta coisa de um gajo escrever e não ganhar nada com isso pode ser complicada. Convertendo-se em Euros o tempo que se despende nesta labuta, é só real prejuízo. Ganhar ganhar, ganha-se sempre alguma coisa ou alguma coisinha, um auto-enriquecimento interior se assim lhe quisermos chamar, um consolo que muito valorizamos. Coisa que só quem escreve compreende e sabe dar valor, principalmente quando olha para trás e vê o quanto enriqueceu porque quão parco foi aquilo que já escreveu há mais ou menos tempo. Uma espécie de evolução da espécie qualquer, uma mais valia muito intima que só á distancia do tempo reconhecemos.
Um gajo que se deixe de tretas e ganhe dinheiro com o que escreve, está bem porque não tem esta relação monogâmica e obsessiva com a escrita que a maior parte da maralha tem. Se ganhar bem, vender muito bem, então até põe o gerente de conta a ler e a pedir-lhe autógrafos fora da zona reservada para o efeito, o que é bom sinal.
Isto da escrita exige metade de inspiração, outra metade de jeito, e outra metade de experiência e nenhuma vocação para a matemática. Mas a metade de experiência de vida, é sem sombras a metade mais importante. A escrita e a experiência da vida enriquecem e ajudam-se mutuamente mas não coexistem pacificamente. Explico, que um gajo que escreva muito não pode obviamente viver muito e vice-versa. É que a escrita não é vida para ninguém, ocupa muito e ás vezes pode ser tão trabalhosa que se pode tornar numa espécie de 11ª praga do Egipto. Só mesmo para quem faça vida disto. E esses, os que comem e apresentam sinais de riqueza exterior á pala da escrita, dão-se ao luxo de comprar experiência porque têm tempo e capital para isso. É que são as experiências que dão origem á experiência que por sua vez dá origem ás letras que vemos impressas nos livros, blogs e afins. E as experiências hoje em dia quase que se vendem ao quilo, compram-se como quase tudo, é um mercado em expansão.
Uma gaja minha conhecida andava a ser engatada por um escritor que anda muito aí na berlinda. O tipo, casado, teria decidido .comprar. uma experiência, investindo o seu tempo nela, solteira já algo fora do prazo e digo-o claramente convencido de que ela não lerá isto, e as amigas que diziam que tudo não passava de mais uma experiência do gajo que armado em vampiro queria ir beber da excentricidade e da experiência de vida da amiga solteira e depois mandá-la dar uma curva porque era casado e ainda por cima escritor. E dar-lhe umas quecas também antes da curva, está claro de se ver. Dor de cotovelo pensei. Mas, as gajas amigas além da dor, tinham razão, estou absolutamente convencido disso. Apesar do choradinho lamentável que o tipo tem feito, um show-off típico de escritor, a amiga que não é parva nenhuma, marimbou-se para o gajo antes que ele guina-se. Mas lá está, a situação decerto serviu de inspiração para o vampiro. Nunca se perde gota de sangue nestas situações e um escritor sabe sempre que nunca tem nada a perder quando se trata de conseguir inspiração. A esta hora deverá estar a ser confortado por outra experiência qualquer e nas horas livres, i.e. em casa enquanto a mulher faz a paparoca, está o gajo a debitar pró teclado mais umas quantas ideias que em breve serão convertidas em euros. As gajas deviam cobrar direitos de autor mas contentam-se pelo enriquecimento do currículo sentimental e saem com a sensação do dever cumprido, de terem causado a tal dor de cotovelo ás amigas que entretanto se perfilaram inutilmente debaixo da dentuça do vampiro.
Ora, há por aí muito boa gente a blogar, pior, a escrever sofregamente. Não falo de mim, que escrevo sofregamente mas porque fujo do horário de expediente que tenho que cumprir. Falo de quem parece não ter vida para mais nada que não seja escrever, manter 2,3 sabe-se lá quantos blogs em simultâneo, alguns com grande competência. Como é que conseguem ? Não ganhando supostamente massa com isso, como é possível tentar dormir, trabalhar, comer, e beber ocasionalmente umas bejecas e isto só para falar do mais politicamente convencional ? Ou seja, e espaço para a experiência, para essa loucura que é a experiência necessariamente gratuita para nós amadores, que nos dá cabedal para escrever ?
Publicado por jorge b pelas 02:17 PM
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quarta-feira, 9 de abril, 2003
Santa terrinha
Uma pessoa sabe se tem ou não tem terra, quando está na sua suposta terra, a terra onde nasceu, e alguém perdido se aproxima e lhe pergunta onde fica a Rua qualquer coisa. Isto é raro acontecer. As setas proliferam por toda a parte e hoje em dia é raro encontrar-se alguém perdido a não ser na cervejaria ali da esquina ao final do dia. Assim como é raro encontrar-se hoje em dia alguém na sua terra. Há uma atracção e migração natural para outras terras. Mas se acontecer aparecer-nos um tal perdido, e soubermos indicar a localização da rua, será sinal de que .temos terra.. Aquilo corre-nos nas veias, sabemos quem foram aqueles dirigentes associativos e músicos da sociedade filarmónica que deram nome ás ruas, não nos esquecmos deles e sabemos onde ficam as ruas e travessas, quem lá mora ou morou.
Não saber indicar o caminho para a Rua qualquer coisa, nem sequer alguma vez se ter lembrado ouvir semelhante artéria, foi o que aconteceu comigo um dia destes, que na minha terra parei por alguns instantes, o suficiente para se aproximar um perdido e que julgando-me com razão .da terra. me fez a pergunta reveladora. Descobri que não tenho terra. Eu já andava desconfiado. Sentia falta de qualquer coisa só não sabia o que era. Nunca vi o sitio onde nasci como sendo .a minha terra.. Á medida que fui crescendo e ouvia cada vez com mais frequência .vou passar o fim de semana á minha terra. consegui ensaiar um sorriso pré-fabricado que guardava sempre para aquela ocasião, aquela, quando surgia a pergunta .e a tua terra, qual é ?.. Nascer na subúrbia é do caraças e marca-nos para o resto da vida. Ainda há sítios com alguma história ou vizinhas giras, agora o sitio onde nasci, uma correnteza de prédios em forma de .S. mal feito, ao qual se deu o infeliz nome de .Casal de qualquer coisa.... Toda a gente nasce numa aldeia, vila ou cidade... Eu nasci num Casal (!) A história daqueles prédios de três andares, um aglomerado de marquizes inesteticamente coladas umas ás outras no meio daquelas quintas quase abandonadas, escreve-se em duas linhas: Esta terra nasceu porque ali perto surgiu uma grande fábrica e foi rentável construi-la para vender as casas aos trabalhadores que vieram de toda a parte do país com as famílias e pouco mais atrás. Não imagino história mais deprimente para uma terra. Mas torna-se fácil imaginar as escassos quilómetros de distancia as chaminés da fabrica a deitar constantemente aquele fumo negro ou acastanhado nos melhores dias, e a poucos metros o pó e o fumo acumulado nos estores das janelas, resultado de dias e dias de vento sul. Por isso quando há alguns anos deixei aquela .santa terrinha., talvez por isso não me custou nada. Trouxe tudo comigo, a minha infância principalmente, memórias, e os meus amigos, e só lá ficaram as arvores onde faziamos as casas e andavamos de baloiço, os campos onde jogávamos á bola agora cobertos de mato novamente porque parece que já não há putos para jogar á bola, ir á laranja ás escondidas e fugir á frente dos cães do caseiro. Tirado tudo daquela terra onde nasci, só dela me lembro por estes dias porque por ali tenho passado, 60, 80 quilometros à hora, depressa mas o suficiente para reparar que afinal está ali uma placa a indicar a Rua qualquer coisa. Mas só travo lá mais á frente 20 quilómetros á frente, onde já sei indicar ruas e caminhos com muito orgulho.
Publicado por jorge b pelas 02:46 PM
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segunda-feira, 7 de abril, 2003
Novas entradas

Aleixar . Demonstrar de forma grosseira e ostensiva um sentimento carnal por outra pessoa; exteriorizar de maneira desbocada um estimulo sexual; agir com total ausência de romantismo, humor, cordialidade ou poesia para com alguém por quem se tem uma atracção física. (Ex: .Aquela gaja ali é mesmo muito boa sim senhor. Vou-me pôr a aleixar para ela, piscando-lhe os olhos e exibindo a minha longa língua, da qual me orgulho muito, e fazendo com ela movimentos insinuantes e lascivos, de forma a que a gaja não tenha a menor dúvida sobre quais são as minhas verdadeiras intenções, e que fique bem ciente de que no fundo o que sinto por ela é apenas pura atracção sexual despida de qualquer tipo de sentimento lamechas. Isto parece que não está a resultar... Mas que se lixe, o que há mais para aí é gajas para aleixar!. ou .Aquele c*br*o de merd* está-me só a aleixar! Há com cada tarado mais ordinário hoje em dia....
Plocar . Defecar de forma saudável; termo utilizado por pessoas com corpos ou anûs elegantes. As pessoas que plocam são pessoas que se regem por uma alimentação saudável e racional. Logo não defecam, plocam.
(Ex: .Boa tarde, olhe se faz favor, era uma salada mediterrânica, um batido de manga, uma tosta e um iogurte natural... E olhe, vem rápido não vem ? É que depois tenho que ir plocar.. ou .Porra que está aqui uma tipa á rasca para arrear o calhau e a trinca espinhas que entrou ainda não parou de plocar! É que o ranchinho á moda de Viseu já me deu a volta á tripa! Só espero que haja papel higiénico nesta espelunca!.
Mijagreiro . Pessoa que faz milagres, vulgo mijagres com a própria urina. (Ex: .Pessoal, está um calor do caraças e não há dinheiro para sacar uma lata de Coca Cola da máquina. Mas não há problema. Faço já aqui um mijagre e mata-se já a sede á malta. Temos é que deixar arrefecer um bocadinho.. ou .Minha querida esposa, está por aí o nosso vizinho mijagreiro ? É que temos o carro a precisar duma lavagem e a água está sem pressão....
Publicado por jorge b pelas 08:14 AM
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quinta-feira, 20 de março, 2003
Porrada
Ao contrário do que se apregoa, a porrada pode ser a única maneira de resolver situações. Quem já andou à porrada sabe que isto é verdade. Pode-se poupar muito tempo. Mas naturalmente, a malta não tem vocação para a porrada. E é compreensível. Aleija e ás vezes faz sangue. Daí que numa sociedade civilizada, os políticos, representantes do povo, representariam-no também, sempre que houvesse porrada ou até mesmo guerra!
A malta continuava as suas vidas, e os gajos que se entendessem. Porrada havia de vez em quando; a guerra entrava em vias de extinção. É que ao contrário da salutar porrada, a guerra não é um mal inevitável ou evitável. Como estão as coisas, a guerra é natural. E não se compreende toda esta indignação, perigosa indignação acerca da guerra do Iraque, parte II. Ainda mais quando meio mundo está chocado porque falta o aval das nações unidas, a carta branca, livre transito legal para a morte. Entre uma guerra com aval e outra sem, a diferença é preocupante porque na realidade não há diferença. Mas há quem veja uma grande diferença. Entre uma e outra, prefiro a sem aval. A outra seria uma guerra .legal. e a guerra nunca pode ser legal. Assim, esta é ilegal como todas. Assim, nesta, os americanos terão mais cuidadinho, serão muito mais cirúrgicos. Imaginemos um marine americano bronco, equipado com um aval da ONU... Nem os camelos do deserto escapavam.
Publicado por jorge b pelas 12:32 PM
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Reciclagem
Sendo a felicidade o bem de consumo mais procurado e desejado do mundo, está com um preço inflacionado. Não se lhe consegue chegar. E o pior é que mesmo que a compre-mos a prestações, não há espaço para guardá-la. Pelo menos durante muito tempo. E depois começa a deteriorar-se. É que o espaço para a felicidade é cada vez menor. Os ricos estão a retirá-lo aos pobres. Sim, acho que são eles, os ricos. Mas não sabem o que fazer com ele. Tanto espaço para nada. É que a felicidade a que conseguem pôr as mãos traz sempre um sabor esquisito. Por vezes nem sequer a chegam a prová-la. Então mandam-na para a reciclagem. Sempre ganham algum. E vão apanhar sol para o deserto.
Publicado por jorge b pelas 12:28 PM
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quarta-feira, 12 de março, 2003
Fortuna
A vida, a minha, é feita de contracensos. Mas é que são demasiados! É aflitivo. O mais recente, acabadinho de descobrir, é este meu doentio desinteresse pelo IRS. Qualquer cidadão decente tem que por esta altura andar minimamente obcecado com tal. Aliás, a obsessão começa muito antes, mesmo antes do Natal, a altura do bombardeamento dos PPR.s. Não há canal que se mude, não há pagina de jornal e revista que se vire que não tenha lá enfiada publicidade dos bancos e seguradores, os mensageiros que anunciam para breve a chegada do messias da desgraça. O instinto leva qualquer um a pedir ao amigo que percebe de informática ou ao primo dele que trabalha nas finanças, que lhe arranjem a disquete mais desejada do ano com o programa de simulação. Qual Maya e outros zandingas quais carapuça! Ninguém resiste a saber que algures existe alguma coisa que permite saber o futuro com uma precisão até ao cêntimo.
Ora, por esta altura, a poucos dias do termo do prazo para entrega dos números do ano passado, não há cidadão que não faça simulações, não vasculhe entre as entrelinhas dos códigos artimanhas, não há ninguém que não se lance em busca da factura perdida.
Precisamente nesta altura, em que me encontro em falência técnica, mais do que nunca, deveria ser bom cidadão, juntar-me à prole, e alegremente discutir a táctica e a estratégia do IRS deste ano. Mas tal não acontece e deixo-me arrastar nesta languidez irresponsável até ás ultimas horas do ultimo dia, sem facturas, sem truques nem dicas, meia dúzia de números apenas que nem sei onde os encaixar. Sabe-se lá, que fortuna não estarei eu a perder vitima de mim próprio.-
Publicado por jorge b pelas 03:47 PM
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terça-feira, 11 de março, 2003
Repartição
Trabalha-se melhor com os dias bonitos. A luz natural sobrepõe-se á artificial. Até se podia desligar. Mas parece ser desta fusão de luzes que brota este estranho bem trabalhar.
Publicado por jorge b pelas 02:43 PM
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O ritmo mediático
Um dia destes pus-me a fazer contas à média. Quanto tempo em média têm-me durado o telemóvel, o computador, o relógio, o carro, a casa, o emprego... A conclusão que se chega é que não há nada que hoje em dia seja para toda a vida, assim como o salário não é para todo o mês. Mas isto está mal. As coisas se calhar deveriam ser para toda a vida ou então que durassem pelo menos até que acabássemos de pagar as prestações. Se nós somos para toda a vida, porque não ter um gira-discos para toda a vida ?! É claro que aqui entra a natureza de cada um e claro, o desgaste do material. Há gajos que como eu não suportam usar a mesma camisa em média mais que dois dias. Quem estivesse ao pé de mim também não suportaria. Mas falemos do essencial, ou seja, bens de consumo, que é para isso que cá estamos, consumir logo, existir. No meu caso, não suporto andar com o mesmo carro mais de 7 ou 8 anos. No entanto com o telemóvel a média baixa para 2 anos. Com o computador vai até aos 9 anos (escandaloso!). O relógio 2 ou 3, emprego vou com 10, a aparelhagem hi-fi irá nos 8... Há aqui uma falta de coerência assustadora e há um ritmo 'mediatico' (não encontro outra palavra, digamos que será o mediatismo do consumo) que tenho que descobrir. Não sei mesmo até que ponto a felicidade de cada um de nós não residirá em encontrar esta média. Por exemplo, o que se propõe seria, um gajo que gostasse de mudar de telemóvel de 6 em 6 meses, que fizesse o mesmo com todos os restantes bens de consumo. Carro novo de 6 em 6 meses, computador, câmara digital, relógio, até mulher, porque não?... Tudo, sem que fosse necessário ser tudo na mesma altura, mas apenas que se respeitasse escrupulosamente a média: 6 meses. Se era essa média, a sua natureza, que fosse, e que não se deixasse ludibriar com a conversa de publicitários, vendedores, padres, políticos e outros apóstolos do consumismo degradante. Certamente seria feliz, encontraria de certo uma paz e tranquilidade interior que justificaria qualquer dispêndio extra ou um alargamento no plafond do cartão de crédito. Feliz, como um primo meu foi. Ele tinha um BMW daqueles antigos (está-se a ver qual é o modelo não está ?), tinha-o desde que o conheço, ou seja há menos de 32 anos. Tinha o mesmo relógio, a mesma casa, a mesma mulher, a mesma filha... Todos estes gloriosos anos. Ele tinha encontrado o 'seu segredo' da felicidade ao descobrir o seu 'ritmo mediático'. Ele era feliz com o seu ritmo 'lifetime', tinha uma coerência nas suas médias e um equilíbrio existencial de fazer inveja a qualquer discípulo de Buda e aos vizinhos, nem se fala. Aqui há uns meses, não sei que carga de água lhe passou pela cabeça, decidiu vender o BM e pior, decidiu comprar um carro novo qualquer, daqueles tipo 'pequeno qualquer'. Está-se bem a ver o que aconteceu. As médias ficaram completamente desestabilizadas. E sabe-se lá o que atrás do carro novo veio pois que são tantas as tentações que passam pela cabeça das pessoas equilibradas... Quiçá televisão de écran plano, telemóvel com toques polifónicos, sabe-se lá... E perante vida tão desequilibrada, que aflição não sentirão a esta hora as primas, mulher e filha, com receios mais que justificados de serem substituídas por umas novas e fresquinhas!... E se me perguntarem se o homem está feliz, nem pensar!! É vê-lo a lavar o seu carrinho nas maquinas de lavar os carros, ar cabisbaixo, de mangueira de alta pressão na mão, entristecido a ver a espuma a desfazer-se no tablier do carro pequeno, quando antigamente era vê-lo puxar orgulhosamente o lustro ao BM, que não havia ali grama de pó que pousa-se mais de 10 minutos em cima da chapa mais bem polida da cidade.
Ou seja, para meu bem e para bem dos que me rodeiam, estou decidido a descobrir o meu .ritmo mediático. pois quem sabe se as médias não serão a resposta a tantas questões, como por exemplo porque tenho o saldo da minha conta negativo...
Publicado por jorge b pelas 02:05 PM
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quarta-feira, 5 de março, 2003
FM - ro
FM - ro
Nunca me dei bem com o efémero. Nunca achei piada oferecer a alguém um ramo de flores, sabendo que passados uns dias elas vão esmorecer e morrer, tudo o que menos desejo. Uma flor então nem pensar. Um ramo ainda é uma estatística, uma flor uma poesia. Logicamente tenho tido alguma dificuldade em dar-me bem com a vida. Ainda mais com os fins de semana e feriados, principalmente quando calham a meio da semana. Mas há coisas ainda mais obviamente efémeras que a própria vida que ao contrário do que dizem não são dois dias. E muito menos o carnaval são três. O Carnaval só é bonito no Brasil porque é lá que ele vive. Nos subúrbios do mundo são algumas horas onde as pessoas tem necessidade de exorcizarem o que é que quer que seja. Este o que é que quer que seja geralmente é preocupante e deveria ser alvo de estudo. Não sendo possível dada a falta de cadeiras na sala de espera, o que proponho é que a vida e o carnaval deiam as mãos, os pés e principalmente as bundinhas. E que assim seja todos os dias. Ou seja, que se fundam os dois e nasça a Carnavida ou a Vidaval. Acabava-se o efémero lógico, começava a existência em frequência modelada.
Publicado por jorge b pelas 10:10 AM
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