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quinta-feira, 8 de fevereiro, 2007
Teorias da conspiração

I - Os morangos com açúcar, as telenovelas da SIC, os passatempos do canal 1, o lixo generalizado das televisões generalistas, é estrategicamente depositado à hora a que um individuo chega a casa depois de um dia de trabalho. A intenção é criar no individuo que chega a casa depois de um dia do trabalho o desejo de emigrar para um país qualquer onde não se sinta tanto um individuo que chega a casa depois de um dia de trabalho. Sabendo-se da sua falta de tomates, sabe-se que ele apenas se arrependerá de ter saído do trabalho a horas decentes.

II - O esganiçamento com que os defensores da penalização do aborto esgrimem os seus argumentos válidos, deixa transparecer um complexo, um medo latente e reprimido. Causa-lhes desconforto imaginarem que poderiam ter sido eles, os nados abatidos, os abortos consumados. Nunca teriam portanto a oportunidade de estarem agora contra o aborto.
Os outros fundamentalistas que pelo contrário esganiçadamente defendem o aborto, defendem-no assim porque sentem que se teria poupado muito trabalho, não teriam de estar agora para ali a ganir argumentos válidos.

III - No metro há pessoas contratadas pelos principais fabricantes de leitores de MP3, para terem diálogos como o que segue:
- O teu deixa-te corta-lhe as unhas ?
- Sim.
- O meu não!...
- Com ele não tenho problemas.
- Mas tu com o teu podes fazer o que quiseres, ele ainda é pequeno.
- Não tão pequeno quanto isso.
- Mas é mais pequeno que o meu.
- És um totó!
- Ah, ah, ah, ah…

IV - Há pessoas perdidas por toda a parte que estão absolutamente convencidas que, ao contrário da morte, conseguirão ir ao encontro do amor mais que uma vez na vida.

Publicado por jorge b pelas 02:03 PM | Comentários (4)
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quarta-feira, 25 de outubro, 2006
A cantina

Sirvo-me no self-service duma cantina gigantesca onde centenas de funcionários almoçam alinhados. Sou o ultimo a chegar, o único que ainda está de pé. Ninguém fala, mas ouvem-se os talheres a bater nos pratos, o vidro contra a porcelana, os mastigares, barulho anestesiante, suficiente para me impedir de pensar.
Existe um lugar à minha espera, bem lá ao fundo, único lugar vago, e quando começo a percorrer o corredor do meio, entre as mesas, deixo escorregar o prato com a comida da bandeja para o chão. O barulho quebra a monótona sinfonia, faz com que todos parem de comer e se virem na minha direcção. O silêncio é sepulcral, todos me observam, parece-me, atónitos. Baixo a cabeça e observo a comida espalhada no chão. Milhares de pequenos vermes, pequenas lagartas brancas, devoram-na. Dou um passo em frente, continuo, segurando agora a bandeja vazia com o cuidado que há pouco me faltara, como se nada me tivesse acontecido. Na enorme cantina só se ouvem os meus tímidos passos, sempre observados em silêncio por centenas de olhos. Quando chego ao lugar vazio e me sento, todos se levantam e saem interrompendo as suas refeições. Fico sozinho na enorme cantina e pouco tempo depois milhões de vermes sobem às mesas e começam a devorar os restos de comida enquanto eu, finalmente, consigo acordar.

Publicado por jorge b pelas 05:04 PM | Comentários (0)
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quarta-feira, 27 de setembro, 2006
Momentos expresso

No sábado cheguei ao quiosque ao pé da minha casa e perguntei, Tem o expresso ? Não, ainda não chegou. E eu disse, Saí de casa de propósito para comprar o expresso e afinal ainda não chegou… ah, ah, ah. Então fui apanhar o comboio e no quiosque da estação perguntei, Tem o expresso ? Não, já esgotou. E eu disse, Quer dizer, saí de casa de propósito para comprar o expresso e no quiosque ao pé da minha casa disseram-me que ainda não tinha chegado, e aqui dizem-me que já se esgotou… ah, ah, ah. Depois apanhei o comboio e fui até Lisboa. À saída da estação havia um quiosque e eu perguntei: Tem o expresso ? Não, já não tenho. E eu disse, Já viu, saí de casa de propósito para comprar o expresso e no quiosque ao pé da minha casa disseram-me que ainda não tinha chegado, no quiosque da estação do fogueteiro disseram-me que já se tinha esgotado e aqui dizem-me que já não têm… ah, ah, ah. Então fui passear até ao centro comercial colombo e entrei numa papelaria e perguntei, Tem o expresso ? Não vendemos o expresso. E eu disse, Isto é que é hein!! Saí de casa de propósito para comprar o expresso e o no quiosque ao pé da minha casa disseram-me que ainda não tinha chegado, no quiosque da estação do fogueteiro disseram-me que já se tinha esgotado, na estação de sete rios disseram-me que já não tinham e aqui dizem-me que não vendem… ah, ah, ah. Então finalmente apareceu uma ambulância e eu aproveitei.

Publicado por jorge b pelas 03:14 PM | Comentários (0)
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terça-feira, 29 de agosto, 2006
BLOG

OVER

Publicado por jorge b pelas 07:20 PM | Comentários (0)
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sexta-feira, 25 de agosto, 2006
O sermão do comboio

E o Senhor sentiu-se satisfeito com o seu bronze e recolheu a toalha de praia, guardou o creme solar e enfiou os chinelos nos pés. Dirigiu-se então em direcção á estação de comboios disposto a apanhar transporte para destino incerto. Entrou numa carruagem que em boa hora acabara de chegar e sentou-se ao lado duma jovem que fitava um anuncio publicitário como se fosse a mais bela das paisagens.
- Que tanto discorreis naquele painel publicitário minha filha ?
A jovem não respondeu e o Senhor apercebendo-se de que a rapariga se encontrava em transe, beliscou-lhe a coxa pois que era sabido ser aquele o melhor método para fazer a pobre voltar ao mundo real.
- Desculpai-me Senhor não vos imaginava aqui ao meu lado, tão encostadinho a mim.
- Eu percebi minha filha que os teus pensamentos vagueavam por longínquas paragens, mas felizmente o teu corpo permanecia no meu raio de alcance. Mas dizei-me, qual é o teu destino, para onde vais, de onde vens, as tuas medidas ?...
- Senhor, eu deveria ter saído algumas paragens atrás mas tanto me apraz a magnífica paisagem que se vislumbra durante a viagem que me deixei ficar. Hoje gostava que o comboio me levasse até um sitio onde sentisse algo mais que este desejo de desejar, esta tristeza inquieta que não me dá a necessária paz de espírito para usufruir convenientemente de todas as potencialidades eróticas do meu corpo.
- Não te iludais minha filha, pois que tal sítio que procuras, não o encontrarás no fim desta linha. E a paisagem que atrás vistes toda ela é obra dos poetas, essa escumalha da pior espécie! Gente que jamais sentiu a verdadeira tristeza, essa tristeza que experimentais.
- Mas Senhor o que dizeis ? Não vedes que, não fossem eles, como seria o nosso mundo... Haveis já conhecido o belo lago de águas azuis por onde todos os dias passa o comboio ? Haverá obra mais bela quando iluminada pela luz do pôr do sol ?...
- Minha filha, tu fazes a tua viagem todos os dias, sempre na mesma direcção sempre à mesma hora...
- E haverá mal nisso Senhor, não vedes que estou condenada á rotina dos meus tristes dias.
- Vinde comigo, dai-me vossa mão suave e macia como a minha glande, mudemos de comboio, vou-vos mostrar pelos meus olhos a realidade 10 minutos depois, a realidade do comboio seguinte que nunca haveis visto, a realidade no sentido contrário.
O Senhor estava deveras entusiasmado pois que não era todos os dias que encontrava uma discípula disposta a segui-lo cegamente. Levou-a pela mão, voluptuosa ceguinha, até um comboio que se preparava para partir no sentido oposto.
Alguns minutos depois, o comboio passava pelo lago que a jovem referira ao Senhor, tendo esta ficado estupefacta com a paisagem que agora se apresentava.
- Mas Senhor, o que é feito do azul da água, e da água propriamente dita, o que se passou meu Senhor ?
- Minha filha, em boa verdade te digo que a água que vês todos os dias e que tanto julgas deslumbrar-te o espírito, não é mais que uma fina camada de azul pintado à pressa pelos poetas, esses lambodes, para quando o comboio passa. Logo após, a chuva que com eles mantém um ignóbil acordo, abate-se violentamente sobre o azul, desvanecendo-o, revelando a sua verdadeira cor, a sua verdadeira natureza, transformando-o em sangue que os vermes que habitam no lodo devoram com grande voracidade. É o lodo minha filha, o que está por debaixo do azul por que te apaixonas.
- Mas Senhor, e agora o que vejo eu, o belo pôr do sol que me inspira todos os dias, o que lhe aconteceu.
- Mais uma obra dos poetas, essa canalha. Vede que mal passa vosso comboio e o vosso sol moribundo não é mais que um orifício anal gigantesco que nem ao mais privado dos habitantes de Sodoma apeteceria.
- Senhor não sei o que vos diga...
- Digo-vos eu minha filha, que há beleza neste mundo verdadeiro que ora vos revelo, mas tendes que descobrir dentro de vós a necessária verdade que te é mais fácil negar. Mas chega de conversa, sairemos no próximo apeadeiro.
- Mas por alguma razão especial meu Senhor ?
- Sim, há por lá uns arbustos fantásticos. Esperai por mim no cimo da escadaria, minha filha.

Publicado por jorge b pelas 08:15 PM | Comentários (0)
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quinta-feira, 16 de março, 2006
Uma tarde na vida do homem que só pensava em dinheiro

O homem que só pensava em dinheiro tinha decidido aproveitar o sol e investir num dia bem passado na praia. Chegado ao escaldante local que fervilhava de bikinis, o homem que só pensava em dinheiro equipou-se a preceito e dirigiu-se em linha recta na direcção da água fresquinha. Apesar do choque térmico que o arrepiou logo que tocou com os pés na água, incentivado pela presença de duas moçoilas que ali perto com água pela cintura lhe pareciam estar a tirar os rácios, avançou destemido mais alguns metros e mergulhou com grande estilo e logo de seguida deu várias braçadas até ficar sem pé. Demonstrada a sua destreza em vários estilos, e continuando a imaginar-se observado pelas moçoilas, achou por bem rumar novamente a terra. As moçoilas tinham entretanto desaparecido, algo que ele notou com algum desencanto e apesar da curiosidade que sentiu em perscrutar no horizonte as suas silhuetas, fingiu-se indiferente, fazendo-se como habitualmente muito seguro do seu nariz. Saia ele da água quando, entre o barulho das ondas que morriam na areia e os guinchos das gaivotas e da multidão, conseguiu distinguir o choro de uma criança. Reparou numa menina que se encontrava agachada a poucos metros de si e que soluçava balbuciando algumas palavras imperceptíveis. Estranhou que entre a multidão que quase se acotovelava à beira da água, ninguém reparasse na menina e no seu choro. Tendo-se aproximado com algum cuidado, agachou-se e com a mão afagou a cabeça da menina arredando-lhe suavemente os cabelos da face. A menina tinha um lindo cabelo loiro e uns olhos azuis que ganhavam uma intensidade quase irreal com o reflexo do outro azul, o da água. Era notório que já há muito tempo que chorava, chamando baixinho pela mãe, numa constante ladainha. A menina devia estar ali há algum tempo, os seus lábiozitos estavam ressequidos e a sua carita estava marcada de vários riscos de um pó branco, o sal que ficara das suas lágrimas. O homem que só pensava em dinheiro sentiu-se imediatamente tocado e iluminado com a situação da menina perdida na imensa praia, um ser frágil e desprotegido, sem saber da mãe, dos pais que deveriam estar desesperados à sua procura. Veio então uma onda mais forte que como por milagre arrastou a menina para junto dos seus familiares que a poucos metros de distância chamavam por ela. O homem que só pensava em dinheiro não reparou, tão absorvido que estava nos seus pensamentos. Pensava o quanto valeria a petiz se vendida para adopção. Existiriam milhares e milhares de casais estéreis no mundo inteiro dispostos a pagar pequenas fortunas para ter uma menina daquelas tão bonita como filha adoptiva. Mas depois a sua consciência fê-lo ver a situação de maneira diferente... Se deixasse que fosse o mercado a definir o preço, se fosse posta em leilão, certamente conseguiria obter um valor ainda mais elevado.

Publicado por jorge b pelas 06:51 PM | Comentários (3)
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terça-feira, 14 de março, 2006
#14306

Um homem acabado de chegar conhece uma mulher daquelas que fazem ‘ploc’ e que gostam de passar multas Vivem felizes até que durante a primeira noite o homem começa a recitar de trás para a frente os seus códigos pessoais e ela antes de poder dele abusar transforma-se num papel químico vermelho O homem que nunca tivera semelhante alucinação começa a chorar convulsivamente como se lhe tivessem acabado de tirar a sua chupeta da sorte ao mesmo tempo que pergunta desesperadamente aos puxadores das portas se sabem onde deixou a cabeça Ela aproveitando-se da lei da vantagem começa a sentir um prazer desmedido e até então desconhecido dos manuais e decide telefonar para o seu até então melhor cliente O telefone toca até desmaiar.

Publicado por jorge b pelas 04:03 PM | Comentários (0)
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terça-feira, 15 de março, 2005
Um funcionário realmente exemplar

- Não sei como agradecer a sua celeridade...
- Não tem que agradecer, é o meu trabalho.
- Mas foi de uma atenção e de uma dedicação na resolução do meu problema que é raro encontrar-se hoje em dia sabe...
- Infelizmente sou forçado a concordar com o que diz. Apesar do elevado profissionalismo e da exigência de altos padrões de qualidade no atendimento que a nossa instituição cultiva, reconheço que nem todos os meus colegas colocam no seu trabalho diário o mesmo esforço e dedicação que aqui colocamos. Aqui fazemos sempre todos os possíveis e até por vezes os impossíveis para uma resolução mais rápida e eficaz dos problemas dos utentes.
- De facto assim é, felizmente tive o previlégio de o poder comprovar.
- Obrigado.
- Olhe, convido-o a beber comigo um cafezinho...
- Lamento mas, como vê, estou a trabalhar...
- Mas eu insisto, é o mínimo que posso fazer para agradecer toda a sua atenção e dedicação.
- Agradeço mas, e os meus colegas serão disso testemunhas, nunca me ausento para beber café. Até porque não gosto de café.
- Venha daí que toma comigo o pequeno almoço. Eles fazem ali em baixo uns pastelinhos de nata óptimos.
- Desculpe mas não pode ser. Embora ainda não tenha efectivamente tomado o pequeno almoço, eu só me levanto daquela cadeira para atender os utentes ou ir cagar.
- Nesse caso faço questão de esperar por si junto á porta da casa de banho.

Publicado por jorge b pelas 10:42 AM | Comentários (0)
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segunda-feira, 7 de fevereiro, 2005
Driving you scary

Hoje de noite sonhei que desfilava no sambodromo de Sesimbra, sambando com uma gaja toda descascada só com uma dúzia de penachos em cima do pêlo, empuleirado no cimo de um daqueles carros alegóricos, acenando de vez em quando para a populaça, mas muito mais concentrado na gaja e nas gotas de suor que lhe percorriam o corpo ultra-violeta e me salpicavam também. Depois, sem que ninguém reparasse, fui com a gaja toda descascada só com meia duzia de penachos em cima do pêlo, para os bancos de trás do carro alegórico. Quando estava muito bem descansado a comê-la, sem que nada o fizesse prever, ela colocou um penacho no canto da boca e, fingindo que o fumava displicentemente, começou a cantar com o vozeirão da gaja dos The Gift: “(...)I will build my world, I will sing my songs, I will keep my helmet on. And you can ruin my world, or ruin my songs; I will keep my helmet on.”
Ainda não estou recomposto.

Publicado por jorge b pelas 02:50 PM | Comentários (2)
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terça-feira, 17 de fevereiro, 2004
A rosa anã

Um homem coloca religiosamente todos os dias uma espécie de rosa anã à frente de uma mulher que se apaixona e acaba por lhe dar tudo o que tem. E pela primeira vez na vida ela está feliz porque sente não ter mais nada a dar. Durante algum tempo vive num mundo perfeito onde as únicas flores que existem são as que recebe. Até que, inesperada e inexplicavelmente, o ritual da rosa anã pára. A mulher, de certo modo, estranha a ausência, mas continua a respirar o perfume que ainda paira no ar. E num dia que sabia ser muito especial para ela, o homem vai-se embora deixando para sempre palavras por dizer.
Longe de tudo, o homem tem um sonho onde confessa à mulher que recorre à crueldade sempre que não compreende como pode alguém gostar de rosas anãs. Haverão mais razões mas ele acorda e apercebe-se que afinal tinha sido um sonho. Aliviado, sente-se revigorado e pronto para continuar o seu cultivo.

Publicado por jorge b pelas 10:42 AM | Comentários (0)
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sexta-feira, 6 de fevereiro, 2004
As flores

Um homem vive o drama permanente de alguém que não consegue fazer estalar as norças dos dedos. Até que certo dia, numa esplanada à beira estrada nacional, conhece uma mulher que era capaz de recitar, sem mexer os lábios, um poema escrito com os olhos fechados. Além disso, a mulher tinha um assobio que se ouvia a vários litros de distância e gostava de mastigar aloe vera esmagada em cubos. O homem estava tão satisfeito e tão automaticamente apaixonado que se pôs a balir, e como tal, correu os jardins mais próximos em busca de flores viçosas para comer. A mulher ficou à sua espera na esplanada e entretanto mandou vir mais um empregado de mesa bem passado. Surgiu de imediato um prato de tremoços com o pedido, que a atendeu melhor que o prato de caracóis, e por isso mereceu melhor gorjeta. A espera pelo homem que tinha ido ás flores e nunca mais vinha, era visível no rosto dum mendigo que pedia boleia aos carros que seguiam no sentido contrário daquele para onde queria ir. Mas ninguém notava.
O homem procurava flores por toda a parte e com o passar do tempo perdera a fome e parara de balir. Na realidade havia um silêncio sepulcral por todo o seu aparelho digestivo. Resolveu que apanharia as flores não para comer, antes para as oferecer à mulher, um sinal do seu amor. Imaginava-a sentada à sua espera e isso excitava-o. Felizmente viu ao longe um lindo canteiro de flores de todas as cores e feitios. Ele sempre preferira flores com mau feito e daí os cravos serem a sua preferência. Reparou no entanto que o canteiro era guardado por dois crocodilos fêmeas que estavam entretidos a comer o poeta que escrevera o poema de olhos fechados. Aproveitando que comiam deliciadas uma estranha genitália, o homem esgueirou-se e apanhou para dentro do bolso das calças o maior número possível de flores. Mas subitamente picou-se num espinho de rosa e gritou f*da-se, o que provocou uma reacção estranha nos crocodilos. Um deles começou a transformar-se num crocodilo macho e o outro engasgou-se. Surgiu um terceiro, que seria hermafrodita, com uma tesoura numa das mãos e uma palmada nas costas na outra. O que se passou a seguir o homem não sabe porque entretanto apanhara boleia duma antiga combatente da grande guerra dos sexos. Durante o caminho contou-lhe como tinha sobrevivido ficando sempre por cima, as camas que tinha conhecido, as peças de roupa que tivera que deixar para trás... O homem parecia conhecer aquele nariz de algum lado, assim como o sabor daquele perfume.... Mas, com a conversa, tinha adormecido e sonhado que estava a chegar à esplanada onde a mulher o esperava fielmente sentada de cócoras. Subitamente o homem acordou e realmente tinham chegado sim senhor. O mendigo que pedia boleia agarrou-o por um braço e puxou-o pelo canudo do depósito da gasolina pelo que as flores ficaram num estado pior que ele. O carro voltou para trás pelo mesmo caminho, agora com os dois ocupantes que felizes cantavam uma musica chamada piloto automático que há muitos anos era utilizada como escape livre.
O homem pegou nas flores e dirigiu-se até à esplanada onde havia um fogo de artificio que formava as palavras esplanada deserta. Parecia que tudo se tinha evaporado, restando apenas as mesas, as cadeiras, e umas cascas de nós que pareciam ter ali sido estrategicamente deixadas ao acaso. Sentiu vontade de ir à casa de banho mas não viu a porta dos homens. Apercebeu-se que não existiam nem portas nem paredes, nem pneus de automóvel ou postes de electricidade. Chamou pela mulher mas como não sabia o seu nome ficou calado. Então ao longe começou a ouvir-se um assobio misturado com o barulho dum motor a diesel que parecia afastar-se cada vez mais. Passou as mãos pela cabeça e rezou para que começasse a chover tónico capilar. Atirou com as flores para dentro das goelas dum porco com peste suína que já ali estava há 5 minutos de boca aberta e fez uma derradeira tentativa para fazer estalar as norças dos dedos. Talvez aquele barulho fizesse abafar o som do assobio que entretanto se tinha transformado numa grande e invisível dor de cabeça. Como não conseguia, montou-se em cima do porco e premiu o botão start. Numa arriscada manobra de marcha atrás, viu-se cara a cara com o poeta que escrevia poemas com os olhos fechados e que entretanto se tinha transformado num estivador sem pernas nem genitália mas de olhos semi-abertos. O porco, reconhecendo-o, vomitou de imediato uma jarra de flores e desfez-se em elogios e foi preciso chamar a empregada da limpeza para apanhar aquilo tudo para dentro dum balde amarelo em forma de alicate. O estivador carregava ás costas um best-seller que o homem se prontificou a ajudar a rasgar. E assim o fizeram até não terem mais forças, nem sequer para pensar no dia de amanhã.

Publicado por jorge b pelas 10:37 AM | Comentários (0)
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sexta-feira, 28 de novembro, 2003
Zé Gaspar

Zé Gaspar vive num prédio degradado numa zona também dos subúrbios. O sentido de responsabilidade e vergonha, incutidos pela educação provinciana dos pais sempre sob a supervisão dos céus e a benção do pároco local, fez com que desde há cinco meses seja o único morador a pagar o condomínio, para além do vizinho indiano do rés do chão, actual administrador. Quantia global manifestamente suficiente para manter em pagamento a luz de passagem da escada, insuficiente para reparar o elevador, há já algum tempo condenado sem reparação pela ultima visita dum técnico que ainda hoje está a arder. É certo que os sacos do hipermercado a carregar para o 7º andar são cada vez em menor numero e mais leves, mas os degraus parecem eles próprios efectivamente mais altos e pesados, da idade. E Zé tem agora, desde o início dum ano passado à meia noite num engarrafamento provocado pela morte duma bateria, essa recompensa e o estimulo acrescidos, de ao cimo das escadas avistar a imagem irreconhecível, cada vez mais, da sua mulher, que o vem receber, a perna esquerda a rebentar pelas costuras de tanta variz, de tanta escada subida e descida, no meio do lixo que se acumula nesta que nas outras era trabalho sempre elogiado que fazia com afinco, a limpeza.
A Zé valem-lhe as breves paragens que faz quando passa pelo 5º andar esquerdo, quando bate á porta, naqueles dias incertos, aquele bater do costume, e é recebido pela vizinha que o trata por .amorzinho. e que com tanta habilidade lhe desvia a atenção das pernas em estado semelhante ou pior que a da mulher. Mas respira melhor àquela altura, vá-se lá saber porquê, ela mal casada assumida parece adivinhar-lhe a visita, e ao contrário do que o marido diz depois da 5ª imperial quantas vezes paga pelo amigo Zé, ela apresenta-se sempre lavada, com cheiro a sabão macaco debaixo do eterno pijama amarelo que, mas porquê, teima em não desbotar, e contribui para aumentar o rol das coisas que os homens têm que nunca serão bem compreendidas. Não são mais que cinco ou 10 minutos, que reforçam a pena e o misto sentimento de culpa que a mulher de Zé sente quando abre a porta e o vê chegar cansado uns dias, incertos, mais que outros, naquele estado.
Se houvesse por aí uma vida em conta, ele não hesitaria.
Fim.

Publicado por jorge b pelas 02:42 PM | Comentários (0)
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quinta-feira, 2 de outubro, 2003
A burra

Uma mãezinha qualquer interroga o filho, então como foi hoje a escola ? comeste o papo-seco com manteiga ? bateram-te muito no recreio ? quando subitamente a criança diz, eu sou burro! A mãezinha fica indignada e volta à carga, quem é que te disse isso ? diz! A criança não diz. É coisa daquela professora, diz a mãezinha. Olha tu não dizes mas deixa estar que eu vou saber ouvistes ? Depois de garantir à mãezinha que ouvira, ela sai e vai à escola da criança falar com a professora da criança. A professora da criança nega tudo mas a mãezinha exige que ela jure a pés juntos. A professora tem artroses nos pés e como não consegue juntá-los, a mãezinha fica desconfiada. Contrata um detective que além da professora doente dos pés, põe sob escuta todos os professores num raio de 20 Km. Diariamente o detective passa a entregar à mãezinha, relatórios sobre todas as chamadas efectuadas. A mãezinha finge que lê os relatórios antes do jantar e depois da novela liga religiosamente ao detective para lhe perguntar, o que é que acha ? O detective, passada uma semana, não disse o habitual, olhe vamos continuar a trabalhar, disse antes, olhe minha senhora mãezinha, mais de metade das conversas dos professores são entre eles. Combinam encontros secretos, falam da bolsa, dos filmes que estreiam, dos jogos da bola, de revolveres, de problemas com queda de cabelo, combinam jogos de matraquilhos, marcam quartos de hotel... A minha principal suspeita era uma professora que fazia muitas chamadas para a farmácia e falava muitas vezes ao telefone com outro professor, e muitas vezes parecia chamar-lhe .burro.! mas depois de analisadas as conversas, concluímos tratarem-se de espirros! dava-os com muita frequência. A mãezinha conta isto ao pai, que, ainda bem, pensa, não é professor. Já desistiu de interrogar a criança que teima em não dizer quem lhe tinha chamado de burro. A mãezinha já nem põe sal em condições na massa, só de pensar quem afinal tinha incutido na cabeça da criancinha tal ignóbil ideia. Só pode ter sido alguém, um adulto, pensa, porque a criança ainda não tem idade suficiente para descorrer sozinha o que é ou não é. Telefona então para a policia, quer meter um processo contra desconhecidos, por difamação, aliciamento de menores, o que seja. O detective continua o seu trabalho, entregando diariamente milhares de relatórios que são elaborados num centro de escutas ilegais entretanto construído para o efeito, e num tribunal qualquer corre um processo contra desconhecidos havendo no entanto uma forte suspeita, a professora. A desconfiança da mãezinha foi ainda maior quando esta foi lá a casa perguntar pela criança. A criança está ? já não aparece na escola há tanto tempo. O que é que quer dela, já não lhe bastou ter-lhe chamado de burro ? Eu não tinha razões nenhumas para chamar isso à criança. E nisto juntou os pés e jurou. Tinha feito diversas operações e agora já podia fazê-lo. Estava claramente a querer apagar as provas pensa a mãezinha. Dali vai directa ao tribunal dar o nome da professora. O processo passa pelas mãos dum juiz, que manda a criança ser inspeccionada por um técnico especializado. Ocorre ao juiz que a criança esteja a dizer a verdade, que possa ser mesmo burra. Uma semana mais tarde é o processo arquivado. A criança é enviada para uma escola especial onde as crianças estão longe das mãezinhas, e nessa feliz condição faz progressos assinaláveis. Um dia recebe o telefonema da mãezinha que lhe pergunta, como estás filho ? batem-te muito no recreio ? tens comido bem ? estou mal disposto. então filho, o que é que sentes ? sinto que és burra mãezinha. A mãezinha comovida, despede o detective.

Publicado por jorge b pelas 03:19 PM | Comentários (0)
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terça-feira, 16 de setembro, 2003
A Mosca

Duas moscas são observadas por uma quarta mosca. Estão ambas a sussurrar, interrogando-se a outra porque falam tão baixinho quando àquela distancia é moscamente impossível ouvir a conversa. A terceira mosca já não existe, ou pelo menos já não respira, já não mexe, já não apresenta sinais de vida nem chateia ninguém. Debaixo duma casca de tremoço as moscas:
- Achas que existem moscas que antes de levantarem voo já sabem qual vai ser o próximo local de aterragem ?
- Claro que há, as que têm sorte. Qualquer mosca que caia no erro de fazê-lo, qualquer mosca que perca milionésimo de segundo em tal ou semelhante pensamento, perderá o tempo suficiente que tem para escapar a um mata moscas de plástico, químico ou orgânico.
- Quer dizer que eu, que já tive desse tipo de pensamentos, tenho sorte por ainda estar viva ?
- Esse é o tipo de pergunta óbvia e desnecessária que odeio nas outras moscas. Logicamente que sim! Se estás aqui é porque tiveste a sorte de não estar um mata moscas por perto quando estupidamente pensavas no teu poiso seguinte. Repara que já estamos aqui há quase um centésimo de segundo na palheta. Tempo precioso para fugir. Só não o faço porque me sinto segura debaixo desta casca de tremoço.
- Sim mas no voo de reconhecimento não vislumbrei nenhum mata-moscas de plástico...
- Imbecil mosca, não vês que qualquer objecto é um mata moscas em potência ?
Entretanto ouve-se tossir. A quarta mosca aproximou-se, e empoleirada na borda dum copo, tenta ouvir a conversa. Tosse uma daquelas tosses que nitidamente não está a ser medicamentada, e isso irrita as outras moscas.
- Bem, vou mas é pôr-me na alheta.
- Alheira ? Não me cheira, onde ? Eu vou também!
- Alheta, vou pôr-me na alheta! Aquela macaca ali em cima está a dar granel. A imperial ainda vai a meio e para ajudar à festa a gaja pôs-se a tossir na borda do copo, a parva. Vai dar nas vistas e vamos ser notadas.
- Vamos para onde ?
- Sei lá! Conheço-te de algum lado ? Nunca penso onde vou aterrar antes de levantar voo. Pensei que isso tivesse ficado bem claro! Estavas aqui por acaso e eu aterrei aqui por acaso e conversámos umas baboseiras quaisqueres.
- Não foi por acaso... Na realidade eu ando a seguir-te há muitos segundos. Descobri um padrão nos teus locais de aterragem, uma sequência que sabes muito bem que tens.
- Tás parva ?! Eu nunca penso para onde vou. Ando ao sabor dos cheiros que encontro aqui e ali. Tenho uma certa tara por casas de banhos com autoclismos avariados, mas isso agora não vem ao caso.
Ouve-se um estrondo, as cascas de tremoço estremecem mas todas as moscas mantêm-se nos seus lugares.
- Sim senhor, isso é que é coragem! Nem pestanejaste as asas.
- Chiça que susto! Mas como vi que não voaste, também não voei.
- Estou a ver que és bastante observadora. Esta barulheira foi apenas mais uma imperial que veio para a mesa. Há gajos assim. Esquecem-se de beber as imperiais até ao fim, ou então gostam de beber devagarinho. O gás desaparece e a solução é mandar vir outra. Sorte da mosca que tosse. O bêbado pelo menos por ora não vai pegar mais naquele copo e beber o que resta sem gás. Não está suficientemente bêbado para isso. E o empregado quando vier recolher a loiça, mesmo que veja a mosca, não fará nada que faça notá-la à clientela. É má onda haver moscas numa cervejaria. Pegará calmamente no copo dando tempo à outra para se pôr na alheta.
- É por isso que gosto de ti. Admiro-te muito. Ficas sexy quando dizes alheta. Sabes tudo. Isso excita-me. Ai...
- Tás parva!
- A sério. Diz-me para onde vais agora ? Seguirei tuas asas, poderás fazer de mim o que te apetecer. Sou toda tua.
- Tu própria disseste que havia nos meus voos um padrão... Adivinha imbecil!
A mosca que ficou, ficou de rastos, prostrada junto a uma casca ainda com um resto de tremoço no seu interior. Ela sabia para onde ia voar a outra, sabia que a outra estava a executar a sequência de voos sempre iguais nº 101. Mas de alguma maneira, teria sido uma prova de amor a outra ter-lhe revelado o poiso pela sua própria boca. Não dissera. Estava de rastos e só o cheiro a tremoço aliviava a tensão dramática da situação.
Será que a mosca nem por um segundo pensara que a outra poderia ter razão, de facto nunca sabia para onde voava e que se existia um padrão, era um acaso ?... Ela não sabia, não estava consciente disso e poderia ter sido honesta para com a outra. Foi isto que a quarta mosca lhe explicou. Aproximara-se entretanto. Era uma mosca que estava sempre à espera destas situações onde podia servir de ombro amigo primeiro, consolo erótico segundo. Era assim que engatava as outras.
- Diz-me para onde me levas ? Com a tosse que tens, sugeria um sitio pouco húmido...
- Deixa-me pensar... Podemos ir para... para... já sei, para a...
Aquele cheiro a mosca morta e tremoço durante muito tempo não saiu do nariz da mosca que testemunhou o fim daquela breve história de engate.

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quarta-feira, 16 de julho, 2003
O robalo

Numa madrugada húmida, um homem tem um pesadelo numa cama demasiadamente seca. Começa a sufocar, engasgado com uma pastilha elástica, enquanto beija uma das mulheres dos seus sonhos. Ela retoca a maquilhagem e ao mesmo tempo tenta salvá-lo com a língua que toma a forma dum anzol mas que à distancia parece apenas uma língua molhada. Pesca um robalo e o homem, aflito, começa a acenar tentando chamar as atenções, não lhe passando uma única vez pela cabeça porque é um robalo e não uma corvina que está agora ali ao seu lado, também a estrebuchar. Passa por ali perto uma outra mulher que é especialista em homens com pesadelos e espera pacientemente que a outra comece a ter a certeza sobre o que fazer mas a ficar sem saber para onde ir. Assim acontece, tendo sido vista pela ultima vez tentando à força sincronizar o passo com uma avestruz. A especialista aproxima-se e repara divertida como a cor da cara do homem condiz com a cor do robalo que só desejava que alguém lhe fizesse respiração boca sensual de lábios vermelhos à guelra. Ela podia estar ali uma contemplativa vida inteira Chega a rir mas depois apercebe-se que parece uma louca, que facilmente pode engasgar-se, e muda de expressão. A visível alteração facial faz com que do tecto do quarto comece a cair uma grande carga de carvão em brasa. O robalo, numa aflição, larga tudo o que não trazia e volta ao seu habitat natural. Mas tal foi a pressa de fugir à saraivada que o homem fica sem 8 dentes e uma espinha atravessada na garganta. A especialista transforma-se em sardinha assada e o molho que escorre pelas goelas do homem faz acender a lâmpada dum candeeiro duma mesa de cabeceira com um parafuso a menos. A pastilha e os dentes estão no mesmo lugar. A mulher ressona ao seu lado. Por debaixo da cama há mais.

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terça-feira, 8 de julho, 2003
Switch

Boa tarde. Boa tarde. Queria algumas gramas de lenha. Embalada em papel manteiga ou dentro dum tupperware, partida em bocadinhos ? Era para me queimar, como acha que será melhor ? Não me pergunte a mim, sou uma pessoa muito indecisa, veja que quando entrou, estava indeciso entre atende-lo ou não. Não sou um cliente como outro qualquer ? Já piscou os olhos mais de cem vezes desde que aqui entrou. Foi essa a razão porque me atendeu, por abrir e fechar muitas vezes os olhos ? Vi que você tem o perfil ou melhor dizendo, as medidas ideais para um pequeno trabalho que gostava de ser eu a fazer mas que não tenho coragem. Tenho já trabalho que chegue, o que queria mesmo era lenha, pode ser daquela ás bolinhas cor de rosa, mas embrulhada em papel manteiga sem sal. Já reparou que tem exactamente as mesmas medidas que eu ? Apenas reparei na verruga que sai dessa sua sobrancelha mal aparada. É de estimação. Óptimo, são as de melhor qualidade. Leve a lenha que é por conta da casa, mas primeiro faça o que lhe peço. Estou tão curioso que subitamente surgiu em mim uma vontade enorme de me esfregar todo com óleo de amêndoas doces. É simples, terá apenas de se colocar na minha pele. Pouco tentador. Besunto-me se tal for sua exigência. Por lenha faço o que for preciso nem que para isso não saiba que o estou a fazer. Não demora mais que vários minutos. E o que terei de fazer depois ? Não deixar que eu me assalte.

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quinta-feira, 26 de junho, 2003
A trela

Uma mulher como algumas, caminha a passos largos em direcção a um largo qualquer. Calça uma espécie de sandália, projectando para a frente os dedos dos pés, que saem assim fora do alcance da sola em couro cerca de um centímetro, tocando carne com chão, no alcatrão, nas pedras da calçada, no cócó de cão e até na gravilha, consoante, porque para além do ziguezague que faz para se desviar dos automóveis mal estacionados, a rua, que é a descer, está em obras. Por incrível que pareça, ela não dá por isso, convencendo-se antes que alguém a persegue a passos curtos. Decide então parar e aguardar pacientemente que o perseguidor se aproxime, enquanto aproveita para medir com uma régua a medida atrás especulada, isto numa clara demonstração do quão pacientemente parece aguardar. É um cão, que passa por ela cheirando tudo e nem água vai nem água vem. Perplexa, a mulher agora com sede, abre o cantil que trás a tiracolo e coloca os lábios pintados no gargalo, começando a emitir sons que pelo eco denunciam um cantil vazio. Aproxima-se então dum homem que está agachado e se penteia no espelho lateral dum carro verde bem estacionado. Pergunta-lhe, com a voz ainda meio embargada da sede, que tipo de shampoo ele usa da seguinte maneira, o senhor desculpe mas julguei que estava a ser perseguida, sempre que isto acontece dirijo-me à primeira pessoa agachada que encontro e pergunto-lhe como faz para evitar a oleosidade no couro cabeludo. O homem levanta-se, sacode caspa dos joelhos e responde-lhe se entrar dentro deste carro verde eu confesso-lhe tudo. A mulher que queria a todo o custo obter uma resposta para a verdadeira questão que era porque andava sempre precisada duma boleia, entra, de imediato apercebendo-se que por dentro o carro verde é mesmo um carro verde só que com a pintura riscada. O homem senta-se a seu lado e pede-lhe com os olhos e as orelhas para ela lhe dar a mão, coisa que ela acede, tirando insidiosamente um dos anéis e uma das sandálias. Na sua mão o homem coloca-lhe uma trela de cão, colando-a com cola cuspe, espalhada uniformemente com uma língua desconhecida mas que não deixa marcas de batôn, ficando-se sem saber se houve esse cuidado. Por diversas vezes é-lhe pedido que ponha o dedo. Ela acede. Ela acede sempre. Pede-lhe a outra mão, desta vez só com os olhos. Ela acede. Ela acede sempre, mas não descalça a outra sandália porque há algo de inteligente naquela imagem reflectida no pequeno espelho de make-up. O homem descalça-se e toca com os seus dedos dos pés nos do pé descalço da mulher. Ela estranha que ele só lhe toque no pé descalço quando está o outro calçado mas também com os dedos expostos, e pergunta-lhe porque me pediu a outra mão ? Ele responde, julgava que fosse assim que gostasse. Ela volta a calçar-se e o homem visivelmente atrapalhado com aquela reacção inesperada, assobia, dando ao mesmo tempo à manivela. A porta do carro verde abre-se gradualmente e de repente a mulher é puxada violentamente para exterior indo agarrada atrás da trela. Desaparece da vista de toda a gente e não se ouve ladrar. Minutos depois surgia no local um outro homem, depois identificado como marido da mulher, que gritava desesperado se alguém vira por ali uma trela. Mais tarde, muito mais tarde, seria posto em liberdade.

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sexta-feira, 16 de maio, 2003
A carraça

Alguem mas noutra encarnação
Um homem vai num comboio a ler um livro comprado numa estação de serviço. O cheiro a gasolina atrai uma melga resistente ao ar condicionado que poisa em cima duma pinhoada de marca branca, precisamente no momento em que o homem a leva á boca. Entretanto, estação a estação, o comboio vai enchendo e várias pessoas vão ora ficando sem carteira, umas, ora retocando a maquilhagem, outras. Alguém repara então que o homem que lê tem uma carraça no nariz. Mas não é uma carraça. Há uma criancinha que começa num berreiro daqueles normais. Neste momento ninguém sabe que não é uma carraça, mas toda a gente pensa que é. Todos passam, reparam e ninguém diz nada porque ninguém tem coragem de dizer olhe desculpe mas não é uma carraça o que tem aí no nariz ? Pode ser uma carraça de estimação, diz o revisor alertado por um passageiro que entretanto lhe suja os sapatos com um vomitado verde pastoso mas sem cheiro. Será melhor não dizer nada e limpar-me antes os sapatos, continuou enquanto picava mais um dedo por engano. Mais á frente um jovem com uma camisola cor de rosa abriu uma das janelas e pôs-se debruçado do lado de fora, na esperança de ser colhido por um poste plantado mais perto da via férrea. Devido ao vento que entrava na carruagem, uma senhora começou a sentir falta de ar e tentou em vão acordar o marido que a seu lado sonhava ter uma pequena loja de encadernação de fascículos na Sibéria. Ouve-se um apito seguido dum pequeno estrondo e por uma das janelas do comboio entra um sapato de salto alto de senhora ainda com a etiqueta do preço por baixo. O revisor usa-o para estancar o sangue que lhe sai dos dedos. O homem que lê chega ao fim da página 68 e isso significa que a próxima estação é a dele. Fecha o livro e repara então que tem algo escuro na ponta do nariz. Tira uma pequena pinça de dentro do bolso da camisa e retira a partícula negra do nariz. Prova para ver o que é. Todos os passageiros olham-no com expectativa e neste momento o comboio passa por um poste plantado muito perto da linha férrea. Sabe a fruto seco mas ninguém para além do homem sabe. Na loja de encadernação surge uma cliente que em russo informa o dono da loja da morte da sua esposa. O encadernador não compreende o que a mulher diz mas presume pela cara de felicidade dela que sejam boas noticias e decide fazer saldos para comemorar. É um amendoim com mel. A criancinha continua a chorar e a mãezinha diz-lhe pronto filho pronto o senhor já comeu a carraça já passou, já passou.

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terça-feira, 8 de abril, 2003
O Monge


Um homem de gatas prepara-se para atravessar uma passadeira com o sinal vermelho para peões. Compõe a gravata e calça uns ténis sem marca. Farta-se de se preparar e decide seguir. O condutor que faz uma travagem de 51 cm sai do carro e ajuda o homem de gatas a levantar-se ao mesmo tempo que lhe oferece um sistema informático completo multimédia próprio para homens de gatas mas sem monitor, por uma quantia que na sua boca é irrisória. O homem de gatas aceita mas pergunta-lhe se tem garantia. O condutor vê passar um monge budista na passadeira com sinal verde para peões e pergunta-lhe por gestos se acaso tinha uma garantia que lhe pudesse emprestar. O monge fica confuso pois a única garantia que tem é a da sua morte. Ainda procura por todos os bolsos mas é tempo perdido. Repara então que o sinal entretanto já passou a vermelho e aflito volta para trás. No caminho é atropelado por um carro movido a energia solar e morre por isso, com um sorriso nos lábios.

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sexta-feira, 4 de abril, 2003
Aspira-dor


Três mulheres, todas á volta dos trinta anos, começam a fazer sexo precisamente ao mesmo tempo (mais tarde uma diria á sua melhor amiga que não tinha sido sexo, tinha sido amor, o que deixou toda a gente perplexa) em três diferentes quartos do mesmo hotel. Uma com o marido, outra com o amante e a outra com o empregado da secção de perdidos e achados do aeroporto. Passada meia hora e não suportando o roncar dos homens, saem dos quartos e vão em roupão até ao .lobby. do hotel que acaba de ser aspirado por uma empregada emigrante de cabo verde e que naquela noite tinha sido aliciada para efectuar a limpeza e aspiração do quarto 113 apenas vestida com um traje típico usado pelas nativas da sua terra, ou seja apenas com umas palhitas em cima do pêlo. As três mulheres sentam-se e começam a folhear as revistas deixadas ao acaso numa pequena mesa circular concebida para o efeito. Atiram com as revista janela fora quando se apercebem que as mesmas falam apenas da vida equina e começam a discutir sobre como se prenuncia o nome esquisito duma cadeia de lojas de perfumes que adquirira outra cadeia de lojas de perfumes mas com um nome normal. Enquanto isso um hospede que não consegue roncar mas gostava muito, espreita-as entre a frincha da porta do quarto 112 e apaixona-se pela mulher que tem o melhor sotaque e consegue pronunciar de maneira impecável o nome da cadeia de lojas de perfumaria. Não resistindo volta para dentro do quarto e dirige-se apressadamente para a casa de banho onde começa a ouvir o som do aspirador vindo do quarto do lado. Quando parece que o aspirador está com alguma dificuldade em aspirar, parece ter alguma coisa presa no cano, o homem decide declara-se á mulher cuja pronuncia não lhe sai da cabeça. Começa a vestir o seu melhor fato, corta as unhas dos pés e faz a barba tudo em simultâneo para poupar tempo. Entretanto as mulheres chegam á conclusão que naquele sitio não acontece nada de inesperado para além do irritante barulho dum aspirador misturado com o roncar que sai dos quartos, e que quem tem a melhor pronuncia é efectivamente a mulher de roupão de veludo vermelho e calcinhas a condizer. Então começam a achar que está demasiado calor e começam a despir-se. Isto demora uma hora. Depois despedem-se e dirigem-se as três para os respectivos quartos. Quando o homem que se pretendia declarar chega ao .lobby., dá de caras com a empregada cabo-verdiana equipada com um aspirador e com menos meia dúzia de palhitas involuntariamente ou talvez insinuantemente aspiradas, que lhe vem pedir o dinheiro conforme combinado. O homem pergunta-lhe se ela aceita cheque, e ela diz que pode ser desde que seja visado.

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quarta-feira, 2 de abril, 2003
Estória de princípio de século para adormecer crianças até adormecerem


Quando estava a três metros da meta, o esqueleto Maurício tropeçou na sua tíbia direita e caiu na pista de .tartan.. O esqueleto rival, o Albertino, que era até então o segundo na corrida, quando ultrapassou o esqueleto caído, deu-lhe sem querer um pontapé na cabeça.
O esqueleto Albertino que agora cortava a meta vitorioso, erguia os ossos dos seus membros superiores num sinal de evidente satisfação, mal sabendo que a cabeça do seu adversário caído e que ele pontapeara sem querer, tinha rolado e atravessado o risco da meta em primeiro lugar.
Como mandavam as regras, numa corrida de 100 metros ganhava o esqueleto que com a cabeça, ou seja, com o crânio, passasse em primeiro lugar sobre a linha de meta.
Com a enorme satisfação que lhe percorria os 206 ossos de todo o seu esqueleto, o convencido vencedor Albertino era saudado por todos, sem que ninguém se apercebesse que os maxilares da cabeça caída do esqueleto Maurício se abriam e fechavam, balbuciando palavras vitoriosas e exigindo que o seu corpo esqueleto ainda caído, se levantasse e viesse até si.
Quando o esqueleto Maurício se recompôs, voltando á sua posição erecta e com a respectiva cabeça no sitio certo, dirigiu-se aos esqueletos árbitros para verificar o .photo-finish., enquanto o esqueleto Albertino recebia os aplausos do esquelético público entusiasta.
Sim, não havia duvida! A cabeça do esqueleto Maurício que tinha tropeçado e caído, desprendera-se do resto dos ossos e atravessara a linha de meta primeiro que a cabeça do esqueleto Albertino que a tinha pontapeado, sem querer claro.
Pronto, estava lançada a polémica sobre as Olimpíadas dos Esqueletos Vaidosos.
Tudo foi decidido á cacetada, ou seja, à ossada, como mandavam as regras naqueles casos.
Como sempre, ganhou aquele que tinha mais resistência e força nos ossos. Aquele que tinha os ossos mais rijos. Aquele que tinha bebido mais leite e assim tomado mais cálcio. O vencedor acabaria por ser o esqueleto que tinha tropeçado e caído, o esqueleto Maurício.
Num gesto bonito, aquando da entrega das medalhas no .podium., o esqueleto vencedor emprestou algumas das vértebras cervicais do seu pescoço ao esqueleto Albertino, o desclassificado do 1º lugar, para que este podesse receber condignamente a respectiva medalha de prata.

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quinta-feira, 13 de março, 2003
Ó-ó

Um casal vive feliz principalmente sempre que dá o Big-Brother na televisão. Até que um dia o homem da casa decide de então em diante cortar os És do seu vocabulário substituindo-os por Ós. A ideia ocorrera-lhe um dia antes quando tinha estado nos copos até ás tantas quando afinal lá tinha chegado não eram tantas quanto isso. Esta decisão é acompanhado dum súbito e inexplicável desejo de ter alguém a chamar-lhe papá ou até mesmo pai, e de comprar um cabide novo. Aproxima-se da mulher que está tão entretida a trocar as pilhas do telecomando do televisor que nem repara que está a dar um ultimo episódio qualquer onde finalmente a filha do fazendeiro ganha coragem e aceita fazer uma complicada operação na Suíça para lhe tirarem as peneiras. Ele pousa-lhe a peruca em cima do joelho e pergunta-lhe doixas-mo fazor-to um bóbó? Ou tonho dinhoiro para as fraldas!. Como a mulher era trans-sexual, pensou que ele, ou a estava a gozar ou então estava com lombrigas. Atirou-lhe com o telecomando na direcção da cabeça mas um bocadinho mais para a direita. Desviou-se ainda a tempo de ir apanhar uma sessão continua no Olímpia. E foi lá que lhe fizeram um.

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O poste

Um dia depois de almoçar uma feijoada á Transmontana, um homem decide que é chegada a altura de se suicidar. Sai para fora da cidade e munido duma bússola, conduz-se na direcção do poste de alta tensão mais próximo. Quando chega, tem o cuidado de escolher um sem ninho de cegonha e começa a trepá-lo descalçando-se para o efeito. Quando chega lá acima, repara que não há luz e conclui que só pode ser por isso que andam um pardal e um pombo á bicada por cima da sua cabeça. Quando cai o pombo degolado nas suas mãos, lembra-se que deixou a torneira de casa aberta e decide voltar para a fechar. Como tem pressa, atira-se poste de alta tensão abaixo mas sobrevive porque a queda é amparada pelos sapatos e meias que lá em baixo tinha deixado. Antes de fechar a torneira, passa por uma sapataria e por uma casa de ferramentas e compra respectivamente uma calçadeira porque misteriosamente agora não conseguia enfiar os sapatos, e um serrote, não fosse a torneira estar avariada. E estava mesmo. Rapidamente chega à conclusão que o serrote que tinha comprado apenas foi útil para lhe serrar as unhas dos pés e a água essa continuava correr. Quando já tinha água pelas virilhas, decidiu ligar para um canalizador. Em menos de 10 minutos estava em sua casa uma canalizadora diplomada por uma universidade que não dava para ver o nome porque a água lhe tinha apagado a tinta do diploma. A canalizadora também não conseguia resolver o problema e quando a água lhe chegou ao umbigo, decidiu despir-se e mostrá-lo ao homem que fez o vice-versa. Como foi amor á primeira vista, começaram a fazer amor em cima da caixa de ferramentas, na proporção de 2 partes de amor, 3 de sexo e 5 de água. Aquilo resultou durante alguns minutos mas depois, quando a água já lhes dava pelo nariz, começaram a sentir uma sensação estranha, assim como se não conseguissem respirar. No meio de tanta perna e braço e zona púbica inclusive, no meio de tanta falta de ar e aflição, mas mesmo no meio, a canalizadora teve o discernimento de procurar um botão qualquer de emergência que houvesse por ali. Descobriu-o e depois de o carregar, surgiu uma placa com uma seta a indicar a direcção em que se encontrava o ralo. Mergulhou e conseguiu destapá-lo partindo no entanto uma unha. Gerou-se um redemoinho e os dois ficaram muito tontos mas secos. Entretanto veio a luz que fez ligar a televisão onde apareceu um senhor da companhia da electricidade a desculpar-se pela falta. Então o homem reparou que a canalizadora tinha partido também os saltos altos. Aproximou-se lentamente dela e disse-lhe baixinho ao ouvido Desculpa mas agora tenho que ir... Tenho que apanhar o poste de alta tensão mais próximo.

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sexta-feira, 7 de março, 2003
Cheira

Era uma vez um menino do tamanho dum pionés que morava sozinho num belo agrafador sem marca. Um dia, uma menina que tinha a mania que era pau de incenso, disse-lhe que o raio do agrafador estava assombrado por um agrafe que anos antes se tinha ali entortado por amor, sem deixar testamento a ninguem. O menino que até então vivia feliz na sua ignorancia, nunca mais foi o mesmo. Atirou-se agrafador abaixo e foi vê-lo, estatelar-se no chão, de bico afiado para cima. Ficou ali, bem de saude, a olhar para o tecto falso, apenas com um naco do resto do frango assado do almoço preso aos dentes e uma ligeira dor nas costas. Aproximou-se a dona do famigerado isqueiro, um serial-killer da pior espécie, recargável, que vinha descalça... Está-se bem a ver o que aconteceu!... O pionés foi esmigalhado por um calo há muito fossilizado, e a gaja do pau de incenso também não se safou. Cheira não cheira ?

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segunda-feira, 3 de março, 2003
Um conto indiferente

Era uma vez um pequeno conto. Franzino, engelhado, quase medíocre mas muito ambicioso. A sua história começa na primeira letra, à qual se juntam outras, espaços e sinais. Formam-se as primeiras palavras, as primeiras linhas... A primeira folha. E a seguir nada mais surge. A alma esvazia-se em apenas uma folha. Uma folha ? Que generosidade! Acabaram-se muito antes as letras e os espaços cuja sequência deveria fazer sentido. Frustração. Tudo o que este conto queria era ser um livro. Um livro com uma bela e luzidia lombada. Um romance, uma novela, um drama ? Pormenores sem interesse. Pode ler-se mas não se pode agradar à lua e ao sol. Mas queria sobretudo ser um livro farto, cheio de conteúdo mas sem ser fanfarrão. Muito para esfolhar, muito até chegar ao fim. Um livro apetecido, devorado pelos entusiastas, que não deixasse ninguém com essa sensação de... indiferença ?...

Publicado por jorge b pelas 03:26 PM | Comentários (0)
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