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Teorias da conspiração
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quinta-feira, 8 de fevereiro, 2007
Teorias da conspiração
I - Os morangos com açúcar, as telenovelas da SIC, os passatempos do canal 1, o lixo generalizado das televisões generalistas, é estrategicamente depositado à hora a que um individuo chega a casa depois de um dia de trabalho. A intenção é criar no individuo que chega a casa depois de um dia do trabalho o desejo de emigrar para um país qualquer onde não se sinta tanto um individuo que chega a casa depois de um dia de trabalho. Sabendo-se da sua falta de tomates, sabe-se que ele apenas se arrependerá de ter saído do trabalho a horas decentes. II - O esganiçamento com que os defensores da penalização do aborto esgrimem os seus argumentos válidos, deixa transparecer um complexo, um medo latente e reprimido. Causa-lhes desconforto imaginarem que poderiam ter sido eles, os nados abatidos, os abortos consumados. Nunca teriam portanto a oportunidade de estarem agora contra o aborto. III - No metro há pessoas contratadas pelos principais fabricantes de leitores de MP3, para terem diálogos como o que segue: IV - Há pessoas perdidas por toda a parte que estão absolutamente convencidas que, ao contrário da morte, conseguirão ir ao encontro do amor mais que uma vez na vida. Publicado por jorge b pelas 02:03 PM
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quarta-feira, 25 de outubro, 2006
A cantina
Sirvo-me no self-service duma cantina gigantesca onde centenas de funcionários almoçam alinhados. Sou o ultimo a chegar, o único que ainda está de pé. Ninguém fala, mas ouvem-se os talheres a bater nos pratos, o vidro contra a porcelana, os mastigares, barulho anestesiante, suficiente para me impedir de pensar. Publicado por jorge b pelas 05:04 PM
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quarta-feira, 27 de setembro, 2006
Momentos expresso
No sábado cheguei ao quiosque ao pé da minha casa e perguntei, Tem o expresso ? Não, ainda não chegou. E eu disse, Saí de casa de propósito para comprar o expresso e afinal ainda não chegou… ah, ah, ah. Então fui apanhar o comboio e no quiosque da estação perguntei, Tem o expresso ? Não, já esgotou. E eu disse, Quer dizer, saí de casa de propósito para comprar o expresso e no quiosque ao pé da minha casa disseram-me que ainda não tinha chegado, e aqui dizem-me que já se esgotou… ah, ah, ah. Depois apanhei o comboio e fui até Lisboa. À saída da estação havia um quiosque e eu perguntei: Tem o expresso ? Não, já não tenho. E eu disse, Já viu, saí de casa de propósito para comprar o expresso e no quiosque ao pé da minha casa disseram-me que ainda não tinha chegado, no quiosque da estação do fogueteiro disseram-me que já se tinha esgotado e aqui dizem-me que já não têm… ah, ah, ah. Então fui passear até ao centro comercial colombo e entrei numa papelaria e perguntei, Tem o expresso ? Não vendemos o expresso. E eu disse, Isto é que é hein!! Saí de casa de propósito para comprar o expresso e o no quiosque ao pé da minha casa disseram-me que ainda não tinha chegado, no quiosque da estação do fogueteiro disseram-me que já se tinha esgotado, na estação de sete rios disseram-me que já não tinham e aqui dizem-me que não vendem… ah, ah, ah. Então finalmente apareceu uma ambulância e eu aproveitei. Publicado por jorge b pelas 03:14 PM
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terça-feira, 29 de agosto, 2006
BLOG
OVER Publicado por jorge b pelas 07:20 PM
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sexta-feira, 25 de agosto, 2006
O sermão do comboio
Publicado por jorge b pelas 08:15 PM
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quinta-feira, 16 de março, 2006
Uma tarde na vida do homem que só pensava em dinheiro
O homem que só pensava em dinheiro tinha decidido aproveitar o sol e investir num dia bem passado na praia. Chegado ao escaldante local que fervilhava de bikinis, o homem que só pensava em dinheiro equipou-se a preceito e dirigiu-se em linha recta na direcção da água fresquinha. Apesar do choque térmico que o arrepiou logo que tocou com os pés na água, incentivado pela presença de duas moçoilas que ali perto com água pela cintura lhe pareciam estar a tirar os rácios, avançou destemido mais alguns metros e mergulhou com grande estilo e logo de seguida deu várias braçadas até ficar sem pé. Demonstrada a sua destreza em vários estilos, e continuando a imaginar-se observado pelas moçoilas, achou por bem rumar novamente a terra. As moçoilas tinham entretanto desaparecido, algo que ele notou com algum desencanto e apesar da curiosidade que sentiu em perscrutar no horizonte as suas silhuetas, fingiu-se indiferente, fazendo-se como habitualmente muito seguro do seu nariz. Saia ele da água quando, entre o barulho das ondas que morriam na areia e os guinchos das gaivotas e da multidão, conseguiu distinguir o choro de uma criança. Reparou numa menina que se encontrava agachada a poucos metros de si e que soluçava balbuciando algumas palavras imperceptíveis. Estranhou que entre a multidão que quase se acotovelava à beira da água, ninguém reparasse na menina e no seu choro. Tendo-se aproximado com algum cuidado, agachou-se e com a mão afagou a cabeça da menina arredando-lhe suavemente os cabelos da face. A menina tinha um lindo cabelo loiro e uns olhos azuis que ganhavam uma intensidade quase irreal com o reflexo do outro azul, o da água. Era notório que já há muito tempo que chorava, chamando baixinho pela mãe, numa constante ladainha. A menina devia estar ali há algum tempo, os seus lábiozitos estavam ressequidos e a sua carita estava marcada de vários riscos de um pó branco, o sal que ficara das suas lágrimas. O homem que só pensava em dinheiro sentiu-se imediatamente tocado e iluminado com a situação da menina perdida na imensa praia, um ser frágil e desprotegido, sem saber da mãe, dos pais que deveriam estar desesperados à sua procura. Veio então uma onda mais forte que como por milagre arrastou a menina para junto dos seus familiares que a poucos metros de distância chamavam por ela. O homem que só pensava em dinheiro não reparou, tão absorvido que estava nos seus pensamentos. Pensava o quanto valeria a petiz se vendida para adopção. Existiriam milhares e milhares de casais estéreis no mundo inteiro dispostos a pagar pequenas fortunas para ter uma menina daquelas tão bonita como filha adoptiva. Mas depois a sua consciência fê-lo ver a situação de maneira diferente... Se deixasse que fosse o mercado a definir o preço, se fosse posta em leilão, certamente conseguiria obter um valor ainda mais elevado. Publicado por jorge b pelas 06:51 PM
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terça-feira, 14 de março, 2006
#14306
Um homem acabado de chegar conhece uma mulher daquelas que fazem ‘ploc’ e que gostam de passar multas Vivem felizes até que durante a primeira noite o homem começa a recitar de trás para a frente os seus códigos pessoais e ela antes de poder dele abusar transforma-se num papel químico vermelho O homem que nunca tivera semelhante alucinação começa a chorar convulsivamente como se lhe tivessem acabado de tirar a sua chupeta da sorte ao mesmo tempo que pergunta desesperadamente aos puxadores das portas se sabem onde deixou a cabeça Ela aproveitando-se da lei da vantagem começa a sentir um prazer desmedido e até então desconhecido dos manuais e decide telefonar para o seu até então melhor cliente O telefone toca até desmaiar. Publicado por jorge b pelas 04:03 PM
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terça-feira, 15 de março, 2005
Um funcionário realmente exemplar
- Não sei como agradecer a sua celeridade... Publicado por jorge b pelas 10:42 AM
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segunda-feira, 7 de fevereiro, 2005
Driving you scary
Hoje de noite sonhei que desfilava no sambodromo de Sesimbra, sambando com uma gaja toda descascada só com uma dúzia de penachos em cima do pêlo, empuleirado no cimo de um daqueles carros alegóricos, acenando de vez em quando para a populaça, mas muito mais concentrado na gaja e nas gotas de suor que lhe percorriam o corpo ultra-violeta e me salpicavam também. Depois, sem que ninguém reparasse, fui com a gaja toda descascada só com meia duzia de penachos em cima do pêlo, para os bancos de trás do carro alegórico. Quando estava muito bem descansado a comê-la, sem que nada o fizesse prever, ela colocou um penacho no canto da boca e, fingindo que o fumava displicentemente, começou a cantar com o vozeirão da gaja dos The Gift: “(...)I will build my world, I will sing my songs, I will keep my helmet on. And you can ruin my world, or ruin my songs; I will keep my helmet on.” Publicado por jorge b pelas 02:50 PM
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terça-feira, 17 de fevereiro, 2004
A rosa anã
Um homem coloca religiosamente todos os dias uma espécie de rosa anã à frente de uma mulher que se apaixona e acaba por lhe dar tudo o que tem. E pela primeira vez na vida ela está feliz porque sente não ter mais nada a dar. Durante algum tempo vive num mundo perfeito onde as únicas flores que existem são as que recebe. Até que, inesperada e inexplicavelmente, o ritual da rosa anã pára. A mulher, de certo modo, estranha a ausência, mas continua a respirar o perfume que ainda paira no ar. E num dia que sabia ser muito especial para ela, o homem vai-se embora deixando para sempre palavras por dizer. Publicado por jorge b pelas 10:42 AM
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sexta-feira, 6 de fevereiro, 2004
As flores
Publicado por jorge b pelas 10:37 AM
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sexta-feira, 28 de novembro, 2003
Zé Gaspar
Zé Gaspar vive num prédio degradado numa zona também dos subúrbios. O sentido de responsabilidade e vergonha, incutidos pela educação provinciana dos pais sempre sob a supervisão dos céus e a benção do pároco local, fez com que desde há cinco meses seja o único morador a pagar o condomínio, para além do vizinho indiano do rés do chão, actual administrador. Quantia global manifestamente suficiente para manter em pagamento a luz de passagem da escada, insuficiente para reparar o elevador, há já algum tempo condenado sem reparação pela ultima visita dum técnico que ainda hoje está a arder. É certo que os sacos do hipermercado a carregar para o 7º andar são cada vez em menor numero e mais leves, mas os degraus parecem eles próprios efectivamente mais altos e pesados, da idade. E Zé tem agora, desde o início dum ano passado à meia noite num engarrafamento provocado pela morte duma bateria, essa recompensa e o estimulo acrescidos, de ao cimo das escadas avistar a imagem irreconhecível, cada vez mais, da sua mulher, que o vem receber, a perna esquerda a rebentar pelas costuras de tanta variz, de tanta escada subida e descida, no meio do lixo que se acumula nesta que nas outras era trabalho sempre elogiado que fazia com afinco, a limpeza. Publicado por jorge b pelas 02:42 PM
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quinta-feira, 2 de outubro, 2003
A burra
Uma mãezinha qualquer interroga o filho, então como foi hoje a escola ? comeste o papo-seco com manteiga ? bateram-te muito no recreio ? quando subitamente a criança diz, eu sou burro! A mãezinha fica indignada e volta à carga, quem é que te disse isso ? diz! A criança não diz. É coisa daquela professora, diz a mãezinha. Olha tu não dizes mas deixa estar que eu vou saber ouvistes ? Depois de garantir à mãezinha que ouvira, ela sai e vai à escola da criança falar com a professora da criança. A professora da criança nega tudo mas a mãezinha exige que ela jure a pés juntos. A professora tem artroses nos pés e como não consegue juntá-los, a mãezinha fica desconfiada. Contrata um detective que além da professora doente dos pés, põe sob escuta todos os professores num raio de 20 Km. Diariamente o detective passa a entregar à mãezinha, relatórios sobre todas as chamadas efectuadas. A mãezinha finge que lê os relatórios antes do jantar e depois da novela liga religiosamente ao detective para lhe perguntar, o que é que acha ? O detective, passada uma semana, não disse o habitual, olhe vamos continuar a trabalhar, disse antes, olhe minha senhora mãezinha, mais de metade das conversas dos professores são entre eles. Combinam encontros secretos, falam da bolsa, dos filmes que estreiam, dos jogos da bola, de revolveres, de problemas com queda de cabelo, combinam jogos de matraquilhos, marcam quartos de hotel... A minha principal suspeita era uma professora que fazia muitas chamadas para a farmácia e falava muitas vezes ao telefone com outro professor, e muitas vezes parecia chamar-lhe .burro.! mas depois de analisadas as conversas, concluímos tratarem-se de espirros! dava-os com muita frequência. A mãezinha conta isto ao pai, que, ainda bem, pensa, não é professor. Já desistiu de interrogar a criança que teima em não dizer quem lhe tinha chamado de burro. A mãezinha já nem põe sal em condições na massa, só de pensar quem afinal tinha incutido na cabeça da criancinha tal ignóbil ideia. Só pode ter sido alguém, um adulto, pensa, porque a criança ainda não tem idade suficiente para descorrer sozinha o que é ou não é. Telefona então para a policia, quer meter um processo contra desconhecidos, por difamação, aliciamento de menores, o que seja. O detective continua o seu trabalho, entregando diariamente milhares de relatórios que são elaborados num centro de escutas ilegais entretanto construído para o efeito, e num tribunal qualquer corre um processo contra desconhecidos havendo no entanto uma forte suspeita, a professora. A desconfiança da mãezinha foi ainda maior quando esta foi lá a casa perguntar pela criança. A criança está ? já não aparece na escola há tanto tempo. O que é que quer dela, já não lhe bastou ter-lhe chamado de burro ? Eu não tinha razões nenhumas para chamar isso à criança. E nisto juntou os pés e jurou. Tinha feito diversas operações e agora já podia fazê-lo. Estava claramente a querer apagar as provas pensa a mãezinha. Dali vai directa ao tribunal dar o nome da professora. O processo passa pelas mãos dum juiz, que manda a criança ser inspeccionada por um técnico especializado. Ocorre ao juiz que a criança esteja a dizer a verdade, que possa ser mesmo burra. Uma semana mais tarde é o processo arquivado. A criança é enviada para uma escola especial onde as crianças estão longe das mãezinhas, e nessa feliz condição faz progressos assinaláveis. Um dia recebe o telefonema da mãezinha que lhe pergunta, como estás filho ? batem-te muito no recreio ? tens comido bem ? estou mal disposto. então filho, o que é que sentes ? sinto que és burra mãezinha. A mãezinha comovida, despede o detective. Publicado por jorge b pelas 03:19 PM
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terça-feira, 16 de setembro, 2003
A Mosca
Duas moscas são observadas por uma quarta mosca. Estão ambas a sussurrar, interrogando-se a outra porque falam tão baixinho quando àquela distancia é moscamente impossível ouvir a conversa. A terceira mosca já não existe, ou pelo menos já não respira, já não mexe, já não apresenta sinais de vida nem chateia ninguém. Debaixo duma casca de tremoço as moscas: Publicado por jorge b pelas 01:58 PM
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quarta-feira, 16 de julho, 2003
O robalo
Numa madrugada húmida, um homem tem um pesadelo numa cama demasiadamente seca. Começa a sufocar, engasgado com uma pastilha elástica, enquanto beija uma das mulheres dos seus sonhos. Ela retoca a maquilhagem e ao mesmo tempo tenta salvá-lo com a língua que toma a forma dum anzol mas que à distancia parece apenas uma língua molhada. Pesca um robalo e o homem, aflito, começa a acenar tentando chamar as atenções, não lhe passando uma única vez pela cabeça porque é um robalo e não uma corvina que está agora ali ao seu lado, também a estrebuchar. Passa por ali perto uma outra mulher que é especialista em homens com pesadelos e espera pacientemente que a outra comece a ter a certeza sobre o que fazer mas a ficar sem saber para onde ir. Assim acontece, tendo sido vista pela ultima vez tentando à força sincronizar o passo com uma avestruz. A especialista aproxima-se e repara divertida como a cor da cara do homem condiz com a cor do robalo que só desejava que alguém lhe fizesse respiração boca sensual de lábios vermelhos à guelra. Ela podia estar ali uma contemplativa vida inteira Chega a rir mas depois apercebe-se que parece uma louca, que facilmente pode engasgar-se, e muda de expressão. A visível alteração facial faz com que do tecto do quarto comece a cair uma grande carga de carvão em brasa. O robalo, numa aflição, larga tudo o que não trazia e volta ao seu habitat natural. Mas tal foi a pressa de fugir à saraivada que o homem fica sem 8 dentes e uma espinha atravessada na garganta. A especialista transforma-se em sardinha assada e o molho que escorre pelas goelas do homem faz acender a lâmpada dum candeeiro duma mesa de cabeceira com um parafuso a menos. A pastilha e os dentes estão no mesmo lugar. A mulher ressona ao seu lado. Por debaixo da cama há mais. Publicado por jorge b pelas 03:13 PM
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terça-feira, 8 de julho, 2003
Switch
Boa tarde. Boa tarde. Queria algumas gramas de lenha. Embalada em papel manteiga ou dentro dum tupperware, partida em bocadinhos ? Era para me queimar, como acha que será melhor ? Não me pergunte a mim, sou uma pessoa muito indecisa, veja que quando entrou, estava indeciso entre atende-lo ou não. Não sou um cliente como outro qualquer ? Já piscou os olhos mais de cem vezes desde que aqui entrou. Foi essa a razão porque me atendeu, por abrir e fechar muitas vezes os olhos ? Vi que você tem o perfil ou melhor dizendo, as medidas ideais para um pequeno trabalho que gostava de ser eu a fazer mas que não tenho coragem. Tenho já trabalho que chegue, o que queria mesmo era lenha, pode ser daquela ás bolinhas cor de rosa, mas embrulhada em papel manteiga sem sal. Já reparou que tem exactamente as mesmas medidas que eu ? Apenas reparei na verruga que sai dessa sua sobrancelha mal aparada. É de estimação. Óptimo, são as de melhor qualidade. Leve a lenha que é por conta da casa, mas primeiro faça o que lhe peço. Estou tão curioso que subitamente surgiu em mim uma vontade enorme de me esfregar todo com óleo de amêndoas doces. É simples, terá apenas de se colocar na minha pele. Pouco tentador. Besunto-me se tal for sua exigência. Por lenha faço o que for preciso nem que para isso não saiba que o estou a fazer. Não demora mais que vários minutos. E o que terei de fazer depois ? Não deixar que eu me assalte. Publicado por jorge b pelas 02:03 PM
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quinta-feira, 26 de junho, 2003
A trela
Uma mulher como algumas, caminha a passos largos em direcção a um largo qualquer. Calça uma espécie de sandália, projectando para a frente os dedos dos pés, que saem assim fora do alcance da sola em couro cerca de um centímetro, tocando carne com chão, no alcatrão, nas pedras da calçada, no cócó de cão e até na gravilha, consoante, porque para além do ziguezague que faz para se desviar dos automóveis mal estacionados, a rua, que é a descer, está em obras. Por incrível que pareça, ela não dá por isso, convencendo-se antes que alguém a persegue a passos curtos. Decide então parar e aguardar pacientemente que o perseguidor se aproxime, enquanto aproveita para medir com uma régua a medida atrás especulada, isto numa clara demonstração do quão pacientemente parece aguardar. É um cão, que passa por ela cheirando tudo e nem água vai nem água vem. Perplexa, a mulher agora com sede, abre o cantil que trás a tiracolo e coloca os lábios pintados no gargalo, começando a emitir sons que pelo eco denunciam um cantil vazio. Aproxima-se então dum homem que está agachado e se penteia no espelho lateral dum carro verde bem estacionado. Pergunta-lhe, com a voz ainda meio embargada da sede, que tipo de shampoo ele usa da seguinte maneira, o senhor desculpe mas julguei que estava a ser perseguida, sempre que isto acontece dirijo-me à primeira pessoa agachada que encontro e pergunto-lhe como faz para evitar a oleosidade no couro cabeludo. O homem levanta-se, sacode caspa dos joelhos e responde-lhe se entrar dentro deste carro verde eu confesso-lhe tudo. A mulher que queria a todo o custo obter uma resposta para a verdadeira questão que era porque andava sempre precisada duma boleia, entra, de imediato apercebendo-se que por dentro o carro verde é mesmo um carro verde só que com a pintura riscada. O homem senta-se a seu lado e pede-lhe com os olhos e as orelhas para ela lhe dar a mão, coisa que ela acede, tirando insidiosamente um dos anéis e uma das sandálias. Na sua mão o homem coloca-lhe uma trela de cão, colando-a com cola cuspe, espalhada uniformemente com uma língua desconhecida mas que não deixa marcas de batôn, ficando-se sem saber se houve esse cuidado. Por diversas vezes é-lhe pedido que ponha o dedo. Ela acede. Ela acede sempre. Pede-lhe a outra mão, desta vez só com os olhos. Ela acede. Ela acede sempre, mas não descalça a outra sandália porque há algo de inteligente naquela imagem reflectida no pequeno espelho de make-up. O homem descalça-se e toca com os seus dedos dos pés nos do pé descalço da mulher. Ela estranha que ele só lhe toque no pé descalço quando está o outro calçado mas também com os dedos expostos, e pergunta-lhe porque me pediu a outra mão ? Ele responde, julgava que fosse assim que gostasse. Ela volta a calçar-se e o homem visivelmente atrapalhado com aquela reacção inesperada, assobia, dando ao mesmo tempo à manivela. A porta do carro verde abre-se gradualmente e de repente a mulher é puxada violentamente para exterior indo agarrada atrás da trela. Desaparece da vista de toda a gente e não se ouve ladrar. Minutos depois surgia no local um outro homem, depois identificado como marido da mulher, que gritava desesperado se alguém vira por ali uma trela. Mais tarde, muito mais tarde, seria posto em liberdade. Publicado por jorge b pelas 08:36 AM
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sexta-feira, 16 de maio, 2003
A carraça
Publicado por jorge b pelas 03:26 PM
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terça-feira, 8 de abril, 2003
O Monge
Publicado por jorge b pelas 04:05 PM
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sexta-feira, 4 de abril, 2003
Aspira-dor
Publicado por jorge b pelas 09:30 AM
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quarta-feira, 2 de abril, 2003
Estória de princípio de século para adormecer crianças até adormecerem
Publicado por jorge b pelas 08:16 AM
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quinta-feira, 13 de março, 2003
Ó-ó
Um casal vive feliz principalmente sempre que dá o Big-Brother na televisão. Até que um dia o homem da casa decide de então em diante cortar os És do seu vocabulário substituindo-os por Ós. A ideia ocorrera-lhe um dia antes quando tinha estado nos copos até ás tantas quando afinal lá tinha chegado não eram tantas quanto isso. Esta decisão é acompanhado dum súbito e inexplicável desejo de ter alguém a chamar-lhe papá ou até mesmo pai, e de comprar um cabide novo. Aproxima-se da mulher que está tão entretida a trocar as pilhas do telecomando do televisor que nem repara que está a dar um ultimo episódio qualquer onde finalmente a filha do fazendeiro ganha coragem e aceita fazer uma complicada operação na Suíça para lhe tirarem as peneiras. Ele pousa-lhe a peruca em cima do joelho e pergunta-lhe doixas-mo fazor-to um bóbó? Ou tonho dinhoiro para as fraldas!. Como a mulher era trans-sexual, pensou que ele, ou a estava a gozar ou então estava com lombrigas. Atirou-lhe com o telecomando na direcção da cabeça mas um bocadinho mais para a direita. Desviou-se ainda a tempo de ir apanhar uma sessão continua no Olímpia. E foi lá que lhe fizeram um. Publicado por jorge b pelas 02:35 PM
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O poste
Um dia depois de almoçar uma feijoada á Transmontana, um homem decide que é chegada a altura de se suicidar. Sai para fora da cidade e munido duma bússola, conduz-se na direcção do poste de alta tensão mais próximo. Quando chega, tem o cuidado de escolher um sem ninho de cegonha e começa a trepá-lo descalçando-se para o efeito. Quando chega lá acima, repara que não há luz e conclui que só pode ser por isso que andam um pardal e um pombo á bicada por cima da sua cabeça. Quando cai o pombo degolado nas suas mãos, lembra-se que deixou a torneira de casa aberta e decide voltar para a fechar. Como tem pressa, atira-se poste de alta tensão abaixo mas sobrevive porque a queda é amparada pelos sapatos e meias que lá em baixo tinha deixado. Antes de fechar a torneira, passa por uma sapataria e por uma casa de ferramentas e compra respectivamente uma calçadeira porque misteriosamente agora não conseguia enfiar os sapatos, e um serrote, não fosse a torneira estar avariada. E estava mesmo. Rapidamente chega à conclusão que o serrote que tinha comprado apenas foi útil para lhe serrar as unhas dos pés e a água essa continuava correr. Quando já tinha água pelas virilhas, decidiu ligar para um canalizador. Em menos de 10 minutos estava em sua casa uma canalizadora diplomada por uma universidade que não dava para ver o nome porque a água lhe tinha apagado a tinta do diploma. A canalizadora também não conseguia resolver o problema e quando a água lhe chegou ao umbigo, decidiu despir-se e mostrá-lo ao homem que fez o vice-versa. Como foi amor á primeira vista, começaram a fazer amor em cima da caixa de ferramentas, na proporção de 2 partes de amor, 3 de sexo e 5 de água. Aquilo resultou durante alguns minutos mas depois, quando a água já lhes dava pelo nariz, começaram a sentir uma sensação estranha, assim como se não conseguissem respirar. No meio de tanta perna e braço e zona púbica inclusive, no meio de tanta falta de ar e aflição, mas mesmo no meio, a canalizadora teve o discernimento de procurar um botão qualquer de emergência que houvesse por ali. Descobriu-o e depois de o carregar, surgiu uma placa com uma seta a indicar a direcção em que se encontrava o ralo. Mergulhou e conseguiu destapá-lo partindo no entanto uma unha. Gerou-se um redemoinho e os dois ficaram muito tontos mas secos. Entretanto veio a luz que fez ligar a televisão onde apareceu um senhor da companhia da electricidade a desculpar-se pela falta. Então o homem reparou que a canalizadora tinha partido também os saltos altos. Aproximou-se lentamente dela e disse-lhe baixinho ao ouvido Desculpa mas agora tenho que ir... Tenho que apanhar o poste de alta tensão mais próximo. Publicado por jorge b pelas 10:56 AM
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sexta-feira, 7 de março, 2003
Cheira
Era uma vez um menino do tamanho dum pionés que morava sozinho num belo agrafador sem marca. Um dia, uma menina que tinha a mania que era pau de incenso, disse-lhe que o raio do agrafador estava assombrado por um agrafe que anos antes se tinha ali entortado por amor, sem deixar testamento a ninguem. O menino que até então vivia feliz na sua ignorancia, nunca mais foi o mesmo. Atirou-se agrafador abaixo e foi vê-lo, estatelar-se no chão, de bico afiado para cima. Ficou ali, bem de saude, a olhar para o tecto falso, apenas com um naco do resto do frango assado do almoço preso aos dentes e uma ligeira dor nas costas. Aproximou-se a dona do famigerado isqueiro, um serial-killer da pior espécie, recargável, que vinha descalça... Está-se bem a ver o que aconteceu!... O pionés foi esmigalhado por um calo há muito fossilizado, e a gaja do pau de incenso também não se safou. Cheira não cheira ? Publicado por jorge b pelas 11:25 AM
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segunda-feira, 3 de março, 2003
Um conto indiferente
Era uma vez um pequeno conto. Franzino, engelhado, quase medíocre mas muito ambicioso. A sua história começa na primeira letra, à qual se juntam outras, espaços e sinais. Formam-se as primeiras palavras, as primeiras linhas... A primeira folha. E a seguir nada mais surge. A alma esvazia-se em apenas uma folha. Uma folha ? Que generosidade! Acabaram-se muito antes as letras e os espaços cuja sequência deveria fazer sentido. Frustração. Tudo o que este conto queria era ser um livro. Um livro com uma bela e luzidia lombada. Um romance, uma novela, um drama ? Pormenores sem interesse. Pode ler-se mas não se pode agradar à lua e ao sol. Mas queria sobretudo ser um livro farto, cheio de conteúdo mas sem ser fanfarrão. Muito para esfolhar, muito até chegar ao fim. Um livro apetecido, devorado pelos entusiastas, que não deixasse ninguém com essa sensação de... indiferença ?... Publicado por jorge b pelas 03:26 PM
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