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sexta-feira, 19 de janeiro, 2007
Turísticonsumo

(da série ‘palavras que deviam existir’)
Andamos enganados acerca da sempre adiada viagem das nossas vidas. Andamos entretidos a sonhar com esses destinos de férias pret-a-porter, formatados à medida dos sonhos bem comportados, daqueles ilustrados nos outdoors e nas montras das agências. Aquele mar azul ao mesmo tempo cálido e transparente, a areia branca que ao mesmo tempo não fica teimosamente entre os dedos dos pés, as belas palmeiras ao mesmo tempo frondosas cuja sombra nos protege do sol ao mesmo tempo inofensivo para a pele, e a companhia da mulher dos nossos sonhos, aquela ao mesmo tempo loura de biquini no cartaz… Tudo isto é entediante, ao mesmo tempo, tudo isto é alucinante. O que conta não é o prazer da viagem em si, a continuidade inerente à viagem de A a B, o que interessa é a finalidade, o que conta é o destino, o paraíso a prazo, a ostensiva pensão completa, encher os cartões de memória das máquinas e esvaziar depois à chegada as recordações empoladas aos que se seguirão. O que vale é a fartura de não sairmos do mesmo lugar emocional, empanturrados de extras num local completamente efémero mas com juros eternos. A volta ao mundo nada significa quando comparada com a volta à vida que em vez de financiamento a crédito pede coragem a pronto. Estranho consumismo turístico, quando a grande viagem pode-nos sair de borla, o mais extraordinário dos destinos pode muito bem estar já ali ao virar da rua, na grande viagem ao quiosque da esquina, ou, por exemplo, ao Beco dos Toucinheiros, amanhã quando subirmos a rua, viagem épica onde um dia, tudo pode acontecer.

Publicado por jorge b pelas 04:17 PM | Comentários (3)
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quarta-feira, 27 de dezembro, 2006
8 boas razões para implodir o Cristo Rei de Almada

A implosão é o método mais seguro embora, como método destrutivo, não dê o gozo que daria a demolição ou a explosão. Esta ultima hipótese, embora mais espalhafatosa e espectacular, poderia trazer consequências catastróficas. Decerto que obrigaria à evacuação de Almada, Lisboa e aldeias limítrofes. Não seria agradável levar com um estilhaço, por exemplo o nariz do Cristo, na cabeça. A hipótese de demolição, pelo contrário, levantaria questões de logística relativa ao alojamento de hordas de demolidores armados de martelo e escopro vindos de todo o mundo que não iriam querer perder a oportunidade de fazer história e participarem na destruição do nefando mamarracho.

O Cristo-Rei do Rio de Janeiro está na short-list para a eleição das 7 maravilhas do mundo. Na eventualidade de ser um dos eleitos, catástrofe ecológica que não será de descurar acontecer, qualquer turista passaria a identificar o até agora meio discreto Cristo Rei de Almada como uma mera cópia fraquinha do Cristo Rei Redentor. Já temos a ponte sobre o Tejo, mera cópia da Golden Gate. Já chega de cópias, obrigado.

O Cristo brasileiro está erigido a centenas de metros acima do nível do mar. A maior parte do tempo está tapado pelas nuvens, felizmente. Ou seja, não é observável por qualquer incauto que ali passe nas redondezas, como acontece ao incontornável Cristo Rei de Almada. Por muito que nos esforcemos, que desviemos o olhar, a atenção, ali está sempre o mamarracho, pois ao invés do brasileiro, montado bem lá no cimo do longínquo Corcuvado, este está montado sobre um planalto, à beira de um precipício. É um objecto arquitectonicamente desproporcionado relativamente à volumetria envolvente ao local onde está implantado e que, portanto, do ponto de vista do ordenamento da orla costeira, deverá ser implodido.

O Cristo Rei de Almada assenta sobre quatro pilares gigantescos que decerto poderiam ser reciclados e utilizados na construção da nova travessia sobre o Tejo. Poupavam-se milhões.

Se por acaso fossemos invadidos por uma super-potencia ateia, à semelhança com o que aconteceu com a invasão dos cristãos americanos ao Iraque, decerto que a força invasora mal conquistasse a margem sul suburbana ataria uma corda ao pescoço do Cristo e a um taque, e faria o mesmo que fez à estátua do Saddam. Antes prevenir que depois ter que limpar entulho.

Com um aeroporto a meia dúzia de quilómetros é completamente irresponsável ter uma espécie que policia sinaleiro com centenas de metros de altura a estorvar o trânsito aéreo. Oxalá nunca aconteça mas seria triste um dia ser notícia de primeira página: “Cristo Rei de Almada decepado pela asa de um Airbus”

Numa época de crise energética em que a poupança de electricidade está na ordem do dia, é irreflectido gastarem-se milhares de kilowats para iluminar a aberração. Calcula-se que a energia mal gasta ali numa semana dava para pagar a assistência médica, os pensos e as pomadas para os calos, dos peregrinos devotos de Nossa Senhora de Fátima, durante uma década.

O que significa afinal um boneco de braços abertos virado para Lisboa ? Está a abençoa-la, como defendem os beatos ? Não parece. O Cristo parece antes estar na eminência de se atirar dali abaixo. É sabido que os desportos radicais fazem bem à adrenalina; mas ter erigida à beira Tejo uma estátua daquela dimensões fazendo a apologia ao bungee-jumping é exagerado.

Publicado por jorge b pelas 09:58 PM | Comentários (0)
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segunda-feira, 31 de julho, 2006
Floribella sex-symbol

Não me causa admiração o facto de 90% dos internautas que ultimamente visitam este blog o façam no seguimento de pesquisas no google com as palavras “Floribella” ou “Luciana Abreu nua”. Excepto a questão da nudez da actriz, os assuntos foram debatidos num post há algumas semanas atrás, portanto, explicam-se as incautas visitas. O que é curioso é ninguém procurar no google pela “Floribella nua”. Ou seja, além da Nossa Senhora de Fátima, a Floribella é a única personagem de ficção que nunca ninguém desejou ver nua. Sugeria portanto um estudo sociológico aprofundado sobre a questão. Não andará a malta a negligenciar as potencialidades eróticas desta personagem ? Já alguém reparou naquelas saias com folhos, naqueles tops justinhos, a maneira como ela se agarra a todos, ou sou só eu ?
Mas creio que com o evoluir da história, à medida que ela vai conseguindo dominar aquele sotaque de Vila Nova de Gaia, o franshising Floribella, passará das roupas, para os perfumes, relógios, material escolar, ursinhas de peluche, até chegar ás bonecas insufláveis.
Na próxima despedida de solteiro, não me admirarei nadinha se encontrar no Passarelle uma daquelas reputadas artistas num exercício de ‘cosplay’ a rodopiar na barra, só com uns lindos ténis ás florezinhas calçados, ao som daquela insuspeita musica “(…) para a frente e para trás, para cima e p’ra baixo (!!!) ”.

Publicado por jorge b pelas 04:12 PM | Comentários (5)
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domingo, 16 de abril, 2006
Boy doesn’t meet girl, girl meets medium

Mais tarde ou mais cedo acaba por acontecer. Aconselhadas por amigas, as solteironas, entenda-se, mulheres com mais de trinta anos, portanto, à beira dos quarenta, com um relativo historial de relações falhadas e de má memória, acabam por recorrer aos serviços de médiums e videntes, procurando respostas para o enguiço. Porque razão mulheres cultas e interessantes e até com atributos físicos superiores à média das outras já casadas há anos e com filhos na secundária, não conseguem atinar com uma relação ? Porque razão só lhes aparecem pela frente gajos comprometidos cheios de promessas batidas, divorciados à procura de companhia para os fins de semana ocupados com os deveres da regulação paternal, ou então cromos dos quais têm vergonha de sequer serem alvos da sua cobiça ? Porque razão, fora das páginas das revistas, todos os homens são iguais ?
E a resposta parece ser recorrente: existe o espírito de alguém que numa vida passada manteve com elas uma relação amorosa muito intensa e que agora não descola, fazendo tudo para que não se relacionem decentemente com outros homens. É bonito este romantismo post-mortem e calculo que traga alguma espécie de reconforto a estas donas de casa desejosas de desesperarem. Um espírito empata-fodas pode ser um excelente placebo para uma alma desencantada com a vida (os homens), um bode expiatório perfeito, a garantia de mais duas ou três consultas mediúnicas. Calculo que o próximo objectivo seja conseguir falar com o fantasma ciumento e até, mais tarde, como se fosse uma mão que lhe percorria as pernas quando não estava mais ninguém na cama, no quarto, infelizmente. Digo isto porque não deixo de notar um certo conformismo, um certo carinho que estas mulheres nutrem pelos seus espíritos apaixonados. É o ciúme um dos combustíveis do amor. Mas neste caso não há uma cara para dar uma estalada, ninguém para gritar e depois fazer as pazes. Logo, tal carinho é algo de absurdo, uma perda de tempo. Tratam-se de espíritos que não estão na posse das suas normais faculdades mentais, incapazes de reconhecerem que não podem oferecer às mulheres que atormentam, umas costas largas e suadas onde elas possam cravar as unhas e até arranhar se a coisa ficar descontrolada. Só podem ser doentiamente ciumentos e possessivos e em vez de se entreterem com as espíritas da sua condição e desejarem o melhor para a sua apaixonada terrena, entretém-se a estragar-lhe os engates. Não pode ser amor de verdade porque quando se ama só se deseja a felicidade da outra pessoa, nem que isso implique saber que ela estará naquele momento feliz algures a cravar as unhas nas costas estreitas e suadas do nosso pior inimigo. Pelo menos é o que dizem os budistas.
Apesar das estatísticas demonstrarem que a partir dos trinta, por cada ano que passa, a mulher sozinha que nunca casou tem menos 10% de probabilidade de casar, na sua maioria, mais tarde ou mais cedo, aquela mulher culta e interessante e até com atributos físicos superiores à média, resultado também da inexistência da rubrica na agenda e no orçamento “filhos”, substituída pela rubrica “eu e o meu rico corpo”, será recompensada. Se limar algumas arestas que são notórias naquele celibato forçado, se não viver tanto a vida da irmã casada, não viver tanto a vida das sobrinhas, a vida da mãe, se não viver tanto a vida das páginas das revistas, por feliz e normal casualidade encontrará alguém com afinidades suficientes para com ela viver, partilhar. Alguém que lhe desculpe, tolere ou, de preferência, e é no fundo isso que ela mais deseja, a exorcize das suas pequenas manias, dos seus fantasmas, das pequenas fobias, das afectações que desenvolveu na sua solidão, naquela vida passada.

Publicado por jorge b pelas 11:27 PM | Comentários (0)
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sexta-feira, 30 de dezembro, 2005
Prejudicial à saúde

A biblioteca pública que frequento tem ultimamente apostado nos livros de auto-ajuda que, nos ultimos meses, têm sido presença constante e maioritária no expositor principal. Tenho intervalado as minhas leituras com alguns destes livros e à parte criticas óbvias (todos prometem felicidade, são oportunistas, tratam o leitor como autómato, etc) e pudores politicamente correctos (serão livros dirigidos essencialmente ao leitor básico e pobre de espírito, nunca para intelectuais e fãs de Proust), descobri que se consegue tirar de todos eles pelo menos uma qualquer ideia nova, talvez a ideia central e inovadora que os terá feito merecer a publicação. Têm este mérito e tal não é despiciendo. Algumas dessas ideias ficam, são de facto interessantes, ficam para lá do efémero.
E o que fica afinal dos livros, qualquer que seja o tipo, afinal todos eles de auto-ajuda mais ou menos explícita ? Ler faz bem, diz-se, todos os livros são assim uma ajuda para o leitor que voluntariamente os lê. Mas o que fica, como nos marcam os livros no curto prazo ? Sendo constantemente assediados por formas de comunicação mais confortáveis, que poder terão as palavras, as ideias dos livros sobre a nossa maneira de ser e estar nos dias que se seguirão, como influenciarão os livros a prática do nosso relacionamento com a vida e com os outros ?
Ler é anti-natural. É saudável se consumido com a moderação essencial e necessária à aprendizagem, ao conhecimento diferido, à distracção pontual. Não o é como o hábito de consumo moderno em que se tornou, companhia das horas vagas e do tédio que a vida moderna provoca. Anti-natural, a começar pela posição de leitura, seja ela qual for, desconfortável. Como é preciso estarmos agarrados ao que estamos a ler, ler implica estar sentado ou estendido, com os braços em tensão. Isto não é saudável. E o tempo que se está a ler, além de provocar danos a longo prazo na espinha (é impossível estar a ler horas a fio direitinho na cadeira), no pescoço, na visão, é um tempo em que não se vive, um tempo sem interacção humana, um tempo em que somos um corpo inanimado, absorto, alheio à realidade do tempo, do presente, do mundo ao lado, lá fora. Por mais bem instalados que estejamos, a posição de leitura é inestética. O próprio livro tem uma forma geométrica nada ergonómica. Trata-se pois de um passatempo prejudicial à saúde, um investimento na grande maioria dos casos com pouco ou insignificante retorno. Li uma vez algures que "a vida não vem nos livros". Os livros vêm da vida dos outros.

Publicado por jorge b pelas 03:30 PM | Comentários (2)
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segunda-feira, 3 de janeiro, 2005
Missão cumprida

Paulo Coelho ocupa um lugar de destaque no processo de cretinização em curso na sociedade ocidental. Pode parecer um exagero, mas como pequena acha para a fogueira, que consome o bom senso e o bom gosto da nossa era, não merece ser menosprezado. Os seus livros vendem-se aos milhões, a sua palavra é espalhada por milhares de sites e blogs, mesmo de gente respeitável, como é o meu caso, que mais abaixo, entre outras citações, tenho uma do gajo, bem apanhada convenhamos, que diz que nada está completamente errado, mesmo um relógio parado está certo duas vezes por dia. Não haverá por isso razões para duvidarmos que há muita gente que vê nos seus livrecos tábuas de salvação espiritual e vivencial, uma geração de pobres de espírito duvidoso que o louva com um respeito e admiração desmedida.
Feita a homenagem, escrevo agora que tropeço numa crónica sua no “Jornal de Notícias”, com o original e sugestivo título, “viajando pelo mundo”. Há três historietas para adormecer, uma de Praga, outra de Marrocos, e a de Nova Iorque, que me comoveu particularmente. Quando se dirigia para pagar uma multa ao Departamento de Trânsito, Paulo Coelho lembra-se da nota de um dólar que encontrara no chão no dia anterior. Naturalmente deve ter-se apercebido que a sorte não tinha sido muita, que o mísero dólar afinal mal daria para mandar cantar um cego quanto mais pagar uma multa em Nova Iorque. Portanto, muito naturalmente e à sua maneira, em vez de começar a imaginar sítios maravilhosos para mandar os bófias que o multaram, começou a interrogar-se “Quem sabe, eu peguei a nota antes da pessoa certa encontrá-la”, e, “Quem sabe tirei aquele dólar do caminho de alguém que estava precisando”, e, como se fosse possível ser-se mais beato, “Quem sabe interferi com o que está escrito”. Estão a ver a pinta não é ?... Quem sabe se não será possível escrever-se algo mais lastimável, mas enfim, é o que se vende bem hoje em dia. E o pior estava ainda para ser pensado, quando o homem decide “Preciso livrar-me dela”. Dela, a nota maldita, não a camisa que trás vestida, de seda pura, manufacturada no Paquistão por um menino de 7 anos, não o rolex manufacturado na Suiça, mas sim a nota de um mísero dólar. Decerto se fosse uma de 100 ou 1000 dólares não lhe provocaria tamanho desconforto. O Coelho aproximou-se então de um mendigo e deu-lhe a nota. “Parece que consegui reequilibrar de novo as coisas.” Mas o mendigo algo indignado respondeu que não estava ali para pedir, disse-lhe que era poeta, e que com aquele dólar, o mãos largas teria direito a que lhe fosse declamado um poema. E assim foi, atente-se na pérola:
Existe uma maneira de você saber se já cumpriu sua missão na Terra. Se você continua vivo, é porque ainda não cumpriu.” Não sei se esta patranha rimará em inglês mas, desculpem, esta é mesmo mesmo à Paulo Coelho, esta é mesmo mesmo de dar a volta à tripa até a um Etíope. É tão reaccionária que o gajo, cauteloso, meteu-a na boca do mendigo poeta. Mas dela não se escapa.
Segundo a lógica daquela pródiga cabeça, quem morre é porque já não andava cá a fazer nada, estava a mais porque ou não tinha ou já terminara a sua missão. Eu que ainda estou vivo, é porque tenho ainda uma missão, várias até, entre as quais, desancar o raio do Coelho que ganha a vida a embrutecer quem o lê. Portanto, indo mais longe, mais profundo, não nas suas palavras que são sempre truques engraçadinhos ou piadinhas espirituais de gosto duvidoso, indo mais fundo, ao mar e à terra onde jazem as dezenas de milhar de pessoas que morreram recentemente na Ásia, elas morreram porque na realidade já tinham cumprido a sua missão, já não precisavam de cá estar. Portanto, vala comum com elas.

Depois de ler um livro de Paulo Coelho, na SIC radical alguem se lembrou "Quem sabe se pusermos a Paula Coelho a fazer stip-tease ficamos com mais audiência ?". Video-captura do site Capxino

Publicado por jorge b pelas 11:08 PM | Comentários (1)
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domingo, 31 de outubro, 2004
Dinheiro

Acompanho desde há anos os mercados bolsistas. Foi desde a 2ª fase de privatização da EDP, naquela hora em que uma empregada do CPP com um ‘je ne sais quoi’ qualquer, me aliciou a descobrir o fantástico mundo da bolsa. Acho que nunca mais fui o mesmo, subitamente pareceu-me ter descoberto um sentido para a vida e desde então, eu que não acompanhava nada, diariamente passei a acompanhar com mais atenção o mercado nacional, onde tenho as minhas modestas posições. Neste momentum, depois de terem andado a dar umas voltas de aquecimento durante muito tempo, há uma série de títulos que se parecem posicionar na grelha de partida… É nestas alturas que dava jeito ter aquilo que é preciso para fazer dinheiro, BES dixit: dinheiro. Todos aqueles ensinamentos remotos dos nossos antepassados, baseados na máxima de que é a trabalhar que se ganha, se faz dinheiro, são hoje menos verídicos que a história do Pai Natal. O mundo todo ele está feito e cada vez mais a ser concebido para quem tem dinheiro e não para quem simplesmente trabalha. E quem tem dinheiro tem incomparavelmente mais probabilidades de ganhar mais dinheiro do que quem tem apenas braços para simplesmente trabalhar. Dou por mim a imaginar uma vida sem poder consumir e entro em depressão. O que interessa cá andar se não se tem dinheiro, se não se tem o que realmente faz falta ? Valerá a pena nascer hoje em dia ? São incomparavelmente maiores as probabilidades de se nascer num país onde não se usa after-shave e não se sabe o que é o Dow Jones. Eu não arriscava.

Publicado por jorge b pelas 04:24 AM | Comentários (0)
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sábado, 10 de julho, 2004
Anti-Maria

Vou a mais uma dessas salas de espera dos hospitais para uma consulta de especialidade. A monotonia e enfado colectivo pela espera é reforçada pela agitação da criancinha de 3 ou 4 anos que teima em não deixar a mãe distrair-se com a leitura que trouxe de casa. Pelo rasto desordenado e pisado de migalhas de várias dimensões espalhadas pelo chão bicolor, o stock de bolachas já se terá esgotado e a criancinha, aparentado visíveis sinais de mais fome de bolachas e desenhos animados que não passam aquela hora no SIC notícias, esperneia e contorce-se, vocaliza sons desconexos e palavras ocas, sossegando apenas breves segundos quando fixa o olhar de um ou outro desesperado e comichoso esperante. Tenho que referir que quando olha para mim, não resisto, e garantindo que ninguém me observa, marimbando-me para a câmara de vigilância lá do canto, não resisto a fazer-lhe as piores caretas que consigo fazer, coisa na qual não sou muito talentoso, mas esforçado faço esgares que a petiz, para meu desespero, julga serem-me normais, prestando-me não mais que uns breves instantes de atenção para depois responder com a indiferença da sua inquietude insuportável.
Entre os outros esperantes é nítida a vontade de fuzilar o pequeno batoque, estrangular a impávida mãezinha e chicotear a funcionária da recepção que a todos parece ter prometido uma curta espera “que a doutora tinha apenas ido tratar de um assunto particular ao Vasco da Gama mas que já retomaria as consultas”. Tal vontade é nítida mas não é vísivel à mera empregada de limpeza que sem afinco se arrasta junto à máquina do café. Cada um dos pacientes impacientes tenta refugiar-se à sua maneira dos seus instintos, relendo pela décima vez a mil vezes mais que folheada revista “pais e filhos” de Fevereiro de 2003, abrindo o portátil para fazer palavras cruzadas no Word, tentando ler os lábios ou talvez despindo com os olhos a apresentadora muda das notícias, esticando as pernas pelos corredores, ou simplesmente, como eu, observando todos os detalhes da cena, ocasionalmente reparando nos minutos do relógio da parede. Tenho que me perder pela descrição da insuportável petiz, um paralelepípedo de carne que sai à mãe, untuosamente falando, mas bonitinha, como são todas as crias até dos répteis mais fossilizados. Tem o cabelinho cortado à tigela de corn-flakes, milimétricamente preto, da cor dos seus olhitos de azeitona de lata do Lidl, com os pulsitos e os tornozelozitos excessivamente revestidos duma generosa tez branca. Resumindo, um autêntico saquinho de batatas com a respectiva matéria adiposa espalhada uniformemente por todo o mal locomovido corpo. Nada disto impede a petiz de parecer o ser humano mais leve do mundo, de transpirar aquele felicidade própria da inconsciência infantil, no caso, inconsciência do seu estado volumétrico, inconsciência própria de quem se está realmente marimbando para tudo, de quem não adquiriu a capacidade de comparar e reparar nas diferenças, de quem ainda vive essa suprema exaltação da irresponsabilidade e da alegria que nostalgicamente invejamos, que inevitavelmente todos vamos perdendo com o progredir dos anos.
Surgem então lá ao fundo as inseparáveis meias pretas dos habituais saltos altos. A ausência da bata branca do costume revela uma sempre atraente médica alergologista, acrescida do bom gosto com que se veste na vida civil. Uma fugaz aparição porque a sua passagem é muito rápida, quase despercebida a quem agora pergunta se era a doutora que tinha ido ás compras ao centro comercial. Respondo que sim, eu que fui brindado com aquela visão, que mais uma horinha, porque daquela gente só estava à frente da mãezinha do saquinho de batatinhas, e estaria a actualizar o meu estado clínico a um curvilíneo mas muito profissional monte de rímel.
Viajo agora até ao futuro, não sei porquê, o que terá acontecido, mas estou agora num sítio igualzinho, mas sem criancinhas insuportáveis, acompanhado no entanto pelos mesmos desconhecidos companheiros de espera. Reparo que a criancinha está agora 30 anos mais velha, já não parece o saquinho que parecia, parece antes um pote gigante que lê a revista Maria que traz na capa uma figura do jet set acabadinha de fazer uma operação plástica. A senhora atende agora o telemóvel e nessa altura reforça, eu diria que, não há outro termo mais indicado, o trombil, supondo eu que só poderá estar a falar com o marido que trabalha por turnos, ouve-se a conversa, todos ouvem, espera há muito que lhe aqueçam o jantar. Há inúteis assim, que nem são capazes de aquecer os restos da janta de ante-ontem a jazer no frigorífico. Nada mais oportuno para realçar o semblante fucinheiro da senhora, por arrasto, todo o seu corpo desprovido de sentido estético, toda a sua adiposa frustração. Vinda da casa de banho, que é já ali ao lado, surge novamente o saquinho, saltitante, alegremente desafiando as leis da gravidade, repondo as leis do tempo. Não tinha viajado até ao futuro, quanto muito até outra cadeira com melhor perspectiva. Afinal, o pote que julgava eu ser a criancinha adulta, era a mãe da criancinha que entretanto aflita de qualquer um ou do outro órgão interno que lhe teria causado aperto, e já com autonomia suficiente para se ir aliviar sozinha, deixara o amparo maternal por breves instantes, parecendo a todos os presentes, inclusive a mim, que durante aqueles silenciosos momentos, teriamos sido transportados para um outro local incomparavelmente mais nirvanico.
Como é obvio, seguiram-se mais alguns minutos de agonia, até ser chamado pela funcionária que se presta àquelas coisas, para me deslocar para uma ante-camâra onde seria pessoalmente chamado pela simétrica doutora. E fui, qual momento mágico, aliviante, lá fui ouvido e oscultado com quase toda a atenção, lá fui medicado, remetido para mais exames enquanto abotoava a camisa, lá reparei na maneira peculiar como ela agarra na esferográfica, lá reparei no seu bem cuidado cabelo, na capacidade que alguém pode ter sobre o outro de o fazer alhear, esquecer de tudo menos de reparar em tudo. E lá me despeço com a cordialidade do costume, nem um sinal sequer de desagrado pela longa espera, veja-se a capacidade daquela pessoa, do seu efeito nada alérgico. Saio e esbarro com a criancinha, o entretanto justamente esquecido saquinho de batatas que estava agora muito mais calmo que há pouco. Tal sossego, talvez porque a mãe pusera a Maria de parte, pensei, enquanto caminhava na direcção da farmácia mais próxima, ficando no entanto longos segundos parado antes de virar a esquina do corredor, reparando na mãe e na filha, naquele contraste de pesos, que a pouco e pouco se iria desvanecer.
Deveria ser Lei: as criancinhas obesas deveriam ser sujeitas a dieta, desde pequeninas, sujeitas à prática regular de desporto. Por uma questão de prevenção de eventuais anomalias na sua auto-estima. Só por falta dela, muito provavelmente, alguém lê a Maria.

Publicado por jorge b pelas 10:53 AM | Comentários (2)
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terça-feira, 4 de maio, 2004
Os ciganos

Não sei do que gosto menos, se um estranho me chame de ‘inho’ ou se de ‘filho’. Passo a explicar, que no espaço de um hora, uma cigana, que não me conhecia de lado nenhum, chamou-me de ‘senhorzinho’, para logo a seguir, numa outra banca, outro representante daquela etnia me apelidar de ‘filho’. Apenas porque perguntei um preço, recebi a monetária resposta em ‘eros’ acompanhada daqueles bónus claramente dispensáveis.
Pode parecer estranho, principalmente para quem não se mistura com a celeusma que frequenta as feiras onde se encontra de tudo com pó e cheiro a torresmos. Mas para alguém como eu que até encontra DVDs a 5 euros o par, falsificações que mais tarde na pacatez do lar, se descobrem de muito baixa qualidade, é alvo susceptível de ser brindado por aquele tipo de bonificação.
90% da falsificação de filmes em DVD está nas mãos dos ciganos que, por mais lendária má fama que tenham, continuam neste como noutros sectores do comércio contrafeito, a ser autênticos case study de sucesso.
A razão do sucesso cigano parece-me óbvia. Comprar a ciganos está na massa do nosso masoquista sangue consumista. Ao longo da sua vida, até o mais impoluto cidadão sem cheta sentirá pelo menos dez vezes a necessidade incontrolável de comprar um rolex a um cigano e falo-á discretamente e o mais clandestinamente possível no meio de um berreiro, logo ali ao lado da banca da roupa interior feminina, com a cuequinha a 2 euros. Mais tarde descobrirá que o mostrador dos dias não funciona e que o movimento dos ponteiros do seu relógio ciganosuiço é pura ilusão de óptica. Mas não se chateará verdadeiramente por isso, jamais accionará a cláusula de garantia verbal cigana dada in loco. Amaldiçoará antes os ciganos por serem vigaristas, terá mais uma história embusteira para contar, coisas que, para além de chamar nomes ao árbitro ao fim de semana, por si mesmas são outras das suas necessidades incontroláveis e que precisam de regular alimento.
O cigano vive assim do eterno retorno do pateta ludibriado que julga estar a fazer um bom negócio e paralelamente, assim esteja ao colo cigano criancinha ranhosa, um acto de caridade. O cigano, para bem da prosperidade da espécie, nunca poderá portanto ser honesto nem usar lenços de assoar nos filhos, e muito menos armar-se em bonzinho, acrescentando ‘inhos’ e graus de parentesco mais próximo nas suas técnicas de venda directa. Se mais alguma vez algum tentar isso comigo, faço queixa dele... a quem ?...

Publicado por jorge b pelas 03:00 PM | Comentários (2)
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terça-feira, 25 de novembro, 2003
Dah!

Visto a minha gabardina até aos pés, encho-lhe os bolsos com rebuçados, meias pretas até aos joelhos e os sapatos de executivo impecavelmente engraxados. Acerto o relógio da sala e saio de casa na direcção do gradeamento da escola secundária mais próxima. As minhas pistas apontam naquele sentido. Para efectuar este trabalho de campo, tenho que passar o mais despercebido possível, enquadrar-me no meio ambiente escolar. Não posso ser apenas um encarregado de educação qualquer que aparece por ali armado em tótó a fazer perguntas. Não posso correr o risco de aparecer uma auxiliar de educação interrogando-me sobre o que estou a fazer, ou um professor dando-me lições acerca da inutilidade da minha pesquisa: saber o verdadeiro significado, buscar a etimologia da genial e enigmática expressão .dah!..
Não tarda e surgem junto a mim duas teenagers. Não vou perder tempo a descrevê-las, mas uma faz-me lembrar a Britney Spears e a outra a Doutora Helen da longínqua série .Espaço 1999.. Suponho que são normais. Apesar dos avisos nas grades, passo-lhes guloseimas que elas devoram com aquele prazer próprio de quem se está borrifando para as dietas. Rapidamente começam a desbobinar tudo. A expressão .Dah!. há cerca de um ano que circula nas escolas. .Pelo menos na escola de cima também!. Muito antes, portanto, de ter sido utilizada massivamente na publicidade duma conhecida operadora de telemóveis. Não me sabem dizer os nomes dos trisavôs, e tal como acontece com as anedotas, não sabem dizer quem foi o autor, quem pela primeira vez terá proferido .Dah!.. Um momento de divina criatividade, ou vocalização espontânea... Explicam-me que recorrem vulgarmente á expressão sempre que alguém se comporta ou tem uma observação própria dum atrasado mental, nomeadamente colegas do sexo masculino, que naquelas idades é muito vulgar comportarem-se como tal. O .dah!. é acompanhado dum movimento oscilante da mão junto ao peito ou na testa, simulando um descontrolo físico ou .tapadice. que muitas vezes caracteriza os .atrasadinhos..
.Por exemplo, há bocado o Migui disse-me:
- Já vistes as mamocas da Rita todas para cima ?! Não gostavas de ter umas assim ?
- Dah!!...
(lá está o gesto da mão) Ela usa .wonderbra.!!!. (a ultima silaba arrasta-se, tal como o .dah!!.)
Por toda a parte ouvem-se toques polifónicos. Ting-tong-daing-telim-ding-beng... e por aí fora.

Publicado por jorge b pelas 10:06 AM | Comentários (0)
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sexta-feira, 14 de novembro, 2003
Amizade, uma versão

Num destes domingos de Outono, Domingo bonito de sol, daqueles que vingam um Sábado chuvoso, que nos resgatam de um fim de semana de sofá, quando passeava calmamente entre a lama, entre a gritaria dos feirantes, apertado com os encontrões das mulheres febris de mãos cheias de slips e sutiens mais baratos à meia-duzia, fui abordado por um indivíduo de etnia cigana (como gosto deste equilibrismo que faço para não dizer simplesmente “um cigano”) que se propunha vender-me um Breitling por 10 euros. Ora, “um Breitling é um relógio de pulso que custa nas ourivesarias, o mais barato, á volta de 1000 euros”, pensei eu. “Posso ver?”. E pude ver-me introduzido, para grande desilusão minha, não no excitante universo da receptação como esperava, antes no inútil universo das réplicas perfeitas dos relógios de luxo onde “só os ponteiros grandes funcionam e os outros são para enfeitar”. “Mas oh senhor, quem o ver não vai reparar nisso.” E mostrou-me outras marcas e modelos, mais caros, com maior requinte na imitação, mas os mesmos ponteiros pequenos, os cronómetros, os indicadores dos dias, da reserva de marcha, parados... “Os seus amigos vão pensar que é verdadeiro!”.

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quarta-feira, 12 de novembro, 2003
Lojas do chinês: o meu veredicto

Não tenho o espirito activista que norteia as associações que aguerridamente defendem os direitos dos consumidores. A própria palavra .consumidor. assusta-me e é vista por mim mais como uma maldição do que como esse adjectivo que afinal de forma implacável traduz a nossa condição por estes dias, aquilo que todos somos, cada vez mais, meros consumidores, desde afectos aos últimos modelos da swatch.
Defender o .consumidor. cheira a defender o .consumismo. e por isso penso que a questão deve ser antes atacada que defendida, atacando-se portanto quem fomenta o consumismo ao desbarato.
Assumindo no entanto esta realidade incontornável, a de que somos todos, e cada vez mais, antes resignados consumidores que cidadãos alertados, decidi fazer um vasto estudo tipicamente .consumista. acerca das .Lojas dos Trezentos., essas instituições respeitadíssimas, que me habituei a frequentar sempre que tinha que fazer tempo antes duma ida ao dentista ou quando tinha que comprar prendas de natal para os colegas.
É com algum desalento que tenho vindo a constatar o desaparecimento gradual deste tipo de lojas que assumiam verdadeiramente o seu preço e vocação no próprio nome. Assumiam uma honestidade e um comunismo nos preços únicos, uma excelente relação preço ridículo / qualidade dúbia que a todos tranquilizava, quando se sabia que entre lojas, sendo sempre o mesmo preço, não haveriam grandes discrepâncias, ou seja, dificilmente as pessoas se sentiriam ludibriadas até porque nem sequer se davam ao trabalho de comparar preços.
As coisas têm vido a alterar-se, a começar pelo próprios nomes das lojas, cada vez mais pretensiosos, pelos produtos exibidos nas suas prateleiras, cada vez mais inacessíveis ao consumidor teso comum, pela sensação de insegurança e desconfiança que transmitem ao consumidor tal a variedade afinal de preços.
Quando os chineses viram o Mc Donalds e outros similares ameaçarem a sua multiplicação na área da restauração, decidiram arrumar os wooks e deslocar parte do seu core business para a versão chinesa das .lojas dos trezentos.. Surgiram assim as famosas .lojas dos chinês., que de imediato começaram a proliferar um pouco por toda a cidade, trazendo com elas uma vasta panóplia de produtos típicos da barata mão de obra chinesa e que rapidamente substituíram os bibelots típicos da velha pechincha portuguesa.
Ainda assim, algo que as lojas dos chineses trouxeram de bom foi a assumida concorrência entre chineses, provavelmente entre continentais e taiwaneses. Daí, um bom consumidor de artigos supérfluos como o são 94,5% dos que este tipo de loja oferece, tem que estar atento ás oscilações dos preços dum mesmo produto entre lojas de diferentes chineses, oscilações essas que em certos casos chegam a ser escandalosas.
No sentido de concretizar o meu estudo, iniciei uma série de visitas sempre a dias e horas diferentes a 4 (quatro) .A lojas do chinês. ao calhas. E a seguir, seguem as conclusões do meu estudo, as minhas compras na loja do chinês de Campo de Ourique, que em boa hora incluí neste estudo, que é indubitavelmente a minha .ESCOLHA ACELTADA., superando todas as outras lojas em quase todos os domínios, variedade, arrumação, asseio, sotaque e, nomeadamente, quanto ao preço. Entre parêntesis acrescento a cada item o preço médio verificado nas outras três lojas do chinês.

As minhas compras na .Loja do Chinês. . delegação Campo de Ourique

- 1 sofisticado porta-chaves / cadeado em prateado com mecanismo incorporado de abertura através de uma combinação de 3 algarismos (999 combinações possíveis), em metal especial e inviolável, pelo invejável preço de 2. (não havia à venda noutra loja)
- 1 ultra-resistente barra de torção (equipamento de musculação), com molas helicoidais em aço inoxidável, tratamento anti-ferrugem e pegas em borracha para máxima aderência e conforto, por apenas 8. (9.)
- 1 termómetro de alta precisão e de dupla graduação em graus centigrados e farenheit, em mercúrio vermelho e puro, com base em madeira natural e adaptador para prego de parede, por apenas 1. (2.)
- 1 pack de dois fabulosos baralhos de cartas tipo .magic. mas com soberbas ilustrações coloridas e reflectoras, oriundas do universo manga japonês por apenas 4.. (5.)
- 1 hipnotizante imagem de nosso senhor jesus cristo com um coração brilhante nas mãos, ladeado por nossa senhora com a mesma clonada coisa nas mãos, imagem emoldurada numa requintada imitação em ouro, com efeitos especiais de luz e movimento psicadélicos, funcionando a electricidade e com 1 ano de garantia, pelo milagroso preço de 12,5. (16,75.)
- Estive tentado mas não comprei, uma bola de borracha anti-stress com a forma de um seio feminino (peça de invulgar requinte garanto-vos, que ficaria sempre bem à mão, dentro da gaveta da secretária).

Como se pode verificar, estas compras, efectuadas na .Escolha Aceltada., num total de 27,5., resultaram numa economia de 7,25., o que me deixou, e deixaria quem quer que fosse, histérico de alegria.
Como não quero estar a ser injusto para com as outras lojas do chinês, onde apesar de incógnito teso do costume fui sempre bem recebido com todos os .éles., apresento agora os pontos fortes de cada uma, sugerindo aos ávidos consumidores que se dirijam as mesmas, caso estejam especificamente interessados nos produtos em apreço.
- Loja do chinês do Rato (produtos kitsh, pop-art, limpeza e menage)
- Loja do chinês do Camões (produtos de papelaria, doçaria e carteiras de senhora)
- Loja do chinês de Alvalade (chinezices genéricas e ferramentas e bricolage)
- Loja do chinês de Campo de Ourique (gadjets, relojoaria e tudo o mais)

Publicado por jorge b pelas 02:29 PM | Comentários (0)
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segunda-feira, 10 de novembro, 2003
Chico-Espertismo ligado a si

A PT foi condenada pelo Supremo Tribunal de Justiça a devolver quantias ilegalmente cobradas aos (todos) seus clientes durante o ano de 1999. No mundo perfeito dos administradores e accionistas da PT, não existiam nem concorrência, nem associações de defesa dos consumidores e muito menos tribunais a dar-lhes razão. Mas paciência... Felizmente, como não guardaram as facturas dos seus consumidores referentes àquele ano, terão de ser os próprios interessados a apresentá-las se quiserem reaver o SEU dinheiro ilegalmente surripiado. Felizmente, ainda, para eles, em boa hora tiveram a esplendida ideia de devolver aos consumidores lesados e com as facturas religiosamente guardadas, não o dinheiro como moralmente deviam, antes o equivalente em crédito para aquisição futura de serviços (chamadas) ou produtos (telefones...) da PT. Até aqui, tudo mal. É visível a má fé da PT, o cinismo com que se sujeitou á sentença do mundo (ainda) real e como a está a executar, muito pouco voluntariamente, quando diz não ter guardadas as facturas dos consumidores, sabendo toda a gente que tais facturas não serão mais que registos informáticos dos quais qualquer empresa de telecomunicações daquela envergadura e de bom senso teria feito um back-up. O mais certo são esses registos existirem sim senhor, algures num disco rígido qualquer. Mas no mundo perfeito daquela empresa, não existem, hipócritamente, convém que não existam.
Mas tudo pode piorar ainda mais quando na televisão vemos um representante desse mundo perfeito, um administrador da PT, de carne e osso e gel no cabelo, porta voz da empresa, explicando, com a candura que só os grandes cara de pau conseguem ter, as inexplicáveis regras para quem quiser jogar o jogo do 'Onde pára o meu dinheiro?'.
Acho que já estamos todos habituados a suportar o chico-espertismo barato do costume. Já nos habituamos a ver políticos, areeiros, construtores civis, taxistas, nem todos e outros que não estes bem portugueses, exercerem com mestria esse autêntico desporto nacional. Muitas vezes mero aquecimento para a verdadeira actividade desportiva por excelência, a corrupção, que por acaso não virá agora ao caso. Mas quando o chico-espertismo chega-nos de onde menos se esperava, de uma empresa que quase símbolo nacional que é, deveria ser e dar exemplo de correcção e boa fé, empresa com a qual temos um vinculo contratual, a coisa pia mais fino. Na sexta feira á noite, quando soube de mais esta pérola da gestão de empresas 'made in portugal', fiquei instantaneamente desconfortável e contaminado... A PT estava 'ligada a mim', eu ligado ao chico-espertismo... Constatei que naturalmente as minhas facturas do telefone de 1999 já há muito que tinham sido recicladas. Comecei a aperceber-me que contribuía com a minha cota-parte para o ordenado recebido por aquele rapaz administrador, que de algum modo contribuía para todo aquele gel que lhe empastelava o cabelo. E ao fazê-lo estava a contribuir e a concordar com o perpetuar do chico-espertismo empresarial nacional... Não adiantava mudar de posição no sofá, não adiantava mudar de canal para não ouvir mais o gajo do gel. Adiantava sim mudar de operador telefónico, adianta mudar para a concorrência. Neste momento estarei já a pagar, não o gel, antes talvez o tratamento capilar a outro senhor administrador qualquer (não se consegue evitá-los), que isto nas telecomunicações em Portugal, ser cliente da PT, ou ser administrador da concorrência, deve causar muita dor de cabeça, muito stress e consequente queda de cabelo.

Publicado por jorge b pelas 10:50 AM | Comentários (0)
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sexta-feira, 17 de outubro, 2003
Encontro de blogs #1

Estive a beber sumo de laranja e a comer amendoins no lançamento do livro do Paulo Querido sobre o universo blog (blogoesfera®) nacional. O evento do Mercado da Ribeira/Livro serviu de pretexto para reunir um considerável grupo de pessoal dos blogs que respondeu ao apelo do desde já promissor .guru.. Querido teve a gentileza de referir que depois de concluído o livro já tinha tido conhecimento de mais meia dúzia de blogues importantes que não estariam, infelizmente, mencionados na obra. Foi o único momento em que nitidamente senti o ego amaciado.
De resto, estiveram presentes o mais novo e o mais velho blogueiro (em idade conforme b.i., fez-se história), não houve nenhuma aparição de vulto (havia expectativa quanto à aparição do Pipi. Se apareceu não sei, não sou pastorinho!) e o livro custava 13 euros (não há milagres!). O sumo estava demasiado ácido, pouco diluído, não provei as passas e já não estive presente na sessão de autógrafos.
® Blogoesfera é um blogotermo blogoinventado pelo Blogopacheco Blogopereira.

Publicado por jorge b pelas 10:36 AM | Comentários (0)
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terça-feira, 30 de setembro, 2003
Ídolos do telecomando

Madonna disse uma vez, e muito bem, .Ohhh, sim, sim!.!... Desculpem, cassete errada, agora sim, .A televisão só tem utilidade se for para aparecermos nela.. Foi das coisas mais inteligentes que ouvi hoje, logo a seguir ao .hoje pago eu. do meu colega. De facto, se não aparecemos na televisão, para quê estar a perder tempo a ver outros aparecer ? Talvez por isso considere de entre todos, .Ídolos. o programa mais estúpido, logo, mais didáctico, o melhor programa da televisão portuguesa.
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Sucedâneo um pouco mais soft do velho formato da Private, os famosos castings (espécie de .porno-idolos.), o .Ídolos. apela a um mesmo instinto básico comum a qualquer telespectador, o .voyeurismo.. Se no primeiro espreitava-se o basqueiro das mais ou menos atrapalhadas e inexperientes candidatas despidas, neste, a mesma matéria prima surge vestida, apostada em desviar a atenção para outros dotes. Malta qualquer, que sonha pelo milagre da idolatria instantânea (à carinha bonita, basta juntar um bom corpinho, abanar e já está).
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Com a benção do júri, assustador, experiente, com muito currículo .graças a deus., isto numa clara alusão aos machões hiper-dotados dos castings da Private que desfloram a ansiedade das aspirantes a porno-estrelas. São os júris, quem se encarregarão de decidir quem e o que é que tele-viciado irá depois consumir. Estão mandatados por ele, sabem o que ele gosta: .Epá, o aspecto vale p.rai 80%! E tu... Por mim podes sair!.. E não é que é mesmo 80%! Os gajos lá sabem.
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O programa mostra-nos o real valor da televisão, o valor honesto e verdadeiro: estamos descaradamente a ver outros a dar barraca através dum aparelho inventado afinal para esse efeito. E dá-nos um gozo do caraças, pondo-nos num embevecido estado semi-vegetativo, de total ausência de pensamento construtivo ou criativo. Tenho a certeza que era essa a intenção do inventor da televisão, criar uma alternativa sólida à vivência pelo cidadão da não menos enfadonha e estúpida política dos partidos. Infelizmente um dia alguém adulterou tudo, julgou que seria um óptimo meio de comunicação, confundindo claramente vegetação com comunicação.
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Dar barraca é saudável e pode ser divertido principalmente se não formos nós a dá-la. Toda a gente já deu barraca para mais ou menos audiência, mas fazer da barraca tempo da antena é que é mesmo bonito.
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A televisão tem sido culturalmente sobrevalorizada ao longo de muitos anos, subvalorizando-se os reais efeitos nefastos que a mesma veio trazer aos terráqueos (terráqueos, faz de conta que sou um observador de outro planeta! Há um herói da Marvel assim. Já não me lembro o nome.). Muitos programas ditos culturais ou de divulgação cientifica, de animaizinhos, não anulam a terrível verdade: ao longo destes encaixotados anos temos sido e continuaremos a ser atrofiados pelo poder esmagador das imagens, intoxicados com publicidade, esvaziados pelas estórias dos argumentistas da Globo, cegos com as interpretações da Sofia Alves, extinguindo-se progressivamente a nossa capacidade de raciocínio, de vivência, e, principalmente, a imaginação, o tal poder imaginativo que só a palavra escrita lida ou ouvida estimula, ao contrário da imagem animada, onde os conteúdos são-nos dados visualmente, de bandeja.
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Imaginemos um mundo sem televisão. O efeito da tragédia do 11 de Setembro (para todos os efeitos, a referência contemporânea mais trágica) não seria mais sentido se apenas tivéssemos tido acesso aos relatos de jornalistas e testemunhas ? As nossas cabecinhas não dariam mais voltas e voltas, tentando imaginar, fazendo a reconstrução mental dos acontecimentos, tornando assim mais intenso o sentimento daquele drama bem real ? Estou convicto que sim. Será mais perturbador imaginar o que devem ter sentido as pessoas no interior dos aviões. O embate dos aviões em sim mesmo, as pessoas a saltar desesperadas, imagens repetidas à exaustão, adquiriram uma dimensão quase secundária, quase ficcional, quase espectacular, aproximando-nos o acontecimento dos olhos, mas afastando-o do, vou dizer, coração. Mas se por acaso tivessem sido transmitidas imagens do interior de um avião, minutos, segundos antes do embate, se tivéssemos tido acesso televisionado às imagens, acredito que essa perturbação, esse sentir doloroso seria atenuado. O que estou a querer dizer, é que a televisão pode ter um efeito pernicioso sobre a nossa capacidade de sentir, de sentir compaixão. Atenua e mascara o que é doloroso, distancia-nos com uma confortável segurança, do drama real. Digo que existe uma diferença muito mais ampla e perigosa entre o escrito .in loco. e o transmitido .in videns..
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Faz parte do desenvolvimento normal dum indivíduo, mais ou menos regularmente, voluntária ou involuntariamente, testemunhar a estupidez. É saudável. O confronto com tão enraizado veneno pode servir, mais que não seja, para pôr ali os olhos e não ser-se estúpido. Para quem tenta viver o mais afastado possível da estupidez, a televisão pode ser o único elo de ligação com o fenómeno. Assim como um pai deve corresponder ao modelo de virtudes positivas para o filho, a televisão deve ser o modelo inverso, um espelho do ridículo e de maus exemplos que em circunstancia alguma devem ser repetidos na vida real. É para isso que a televisão serve. Daí, quanto mais estúpido for o programa, melhor, mais eficaz. Mas isto, ver televisão e chamo a ver televisão, ver novelas, reality shows, telejornais, publicidade, bigbroderes e ídolos, esta terapia só será recomendável cinco, no máximo 10 minutos diários, posologia esta que deveria ser seguida à risca. Meia hora para casos mais graves. Existem casos em que mestres em yoga-tv, conseguem passar um mês sem tocar num telecomando.
*
Em caso de tele-depêndencia, iniciar-se-ia um programa de desmame, reduzindo diariamente 1 minuto (mais seria traumático para o tele-imbecil doente). Acima de tudo, o doente deveria estar consciente do poderoso efeito hipnótico que as imagens têm sobre ele quando, sentado num sofá, após ter pousado o jornal, portanto, intelectualmente inerte. Não deixar-se seduzir pelo telecomando que, como todas as coisas ridículas do mundo, funciona a pilhas. Á falta do melhor do mundo, á falta da visão maravilhosa de uns sapatos de salto alto esquecidos no meio da sala, ter um animal de estimação pode ser uma excelente alternativa ao telecomando, acariciando-se-lhe o pêlo, escovando-o, dando-lhe pedacinhos de fiambre barato. Há pessoas tão tele-perturbadas que já foram vistas a passear de trela telecomandos universais pela Praça da Alegria. Está claro de se ver que o porteiro da maxime vedou-lhes a entrada!
*
Qualquer pessoa que não seja crítico de televisão e sinta necessidade de estar frente ao televisor mais que o estritamente necessário ao controlo do seu processo estupidológico, deve rapidamente consultar ajuda médica especializada, o seu gestor de conta, visitar a biblioteca mais próxima, contactar uma empresa de ocupação de tempos livres ou então ir à cozinha comer donuts com leite fresco. Se nada disto resultar, experimente a receita mais eficaz: desligue a televisão da tomada de electricidade.

Publicado por jorge b pelas 01:31 PM | Comentários (0)
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quarta-feira, 23 de julho, 2003
Cais

O conceito da revista Cais é provavelmente a melhor ideia de sempre. Choca-me não haver prémios Nobel para as ideias que visassem tornar mais comestível a vida diária de todos nós, assim como me ofende a indiferença mal educada da maralha quando abordada pelos vendedores da Cais, que os há cada vez mais, não sabendo eu concluir se tal explosão demográfica será positiva ou negativa, se tal indiferença será sinónimo de calos nos pés.
Sempre que posso e tenho dinheiro (infelizmente coisa rara) compro a revista à rapaziada do chapelinho amarelo que está ali e muito bem e honradamente a ganhar o dela, e ao mesmo tempo a promover ao preço da chuva os artistas que colaboram com a revista. Ou seja, tem a honorável missão de pôr a cultura na rua, na taberna, na fila de bilhetes para o pavilhão atlântico, onde quer que seja. E o mínimo que qualquer frequentador da calçada portuguesa tem a fazer é dar-lhe o euro do costume e dar graças pela revista de qualidade que passa a ter entre mãos. Por isso, quando abordado, o pacato cidadão acabado de comprar o maçozito de tabaco malboro, ou a cidadã carente acabada de comprar o seu novo wonderbra, só tinham de se explicar muito bem explicadinhos porque não compravam a revista. Apresentassem atestado médico, exibissem a carteira vazia, alegassem falta de cabelo e consequente canalização dos trocos para o tratamento, o que fosse, que fizessem prova da impossibilidade imediata de contribuirem para o projecto ou chamava-se um daqueles fiscais da emel que os atarraxaria ao chão, quais veículos mal estacionados na vida pública.

Publicado por jorge b pelas 01:43 PM | Comentários (0)
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segunda-feira, 7 de julho, 2003
Festival de festivais

Acho que há um engano qualquer na denominação do festival Hype @ Meco. As tendas estão instalados num pinhal, muito antes da Lagoa da Albufeira, mais distantes ainda de Alfarim, e só depois temos então o longínquo Meco, ou seja, só a quilómetros e quilómetros de distancia, muito para lá de importantes localidades, temos a Aldeia que dá nome ao festival. O mais acertado seria aquele evento ao ar frio chamar-se Hype @ Lagoa ou Hype @ Pinhal, no máximo Hype @ Alfarim, ou Hype Cold @ir Festival, Exorbitant Entr@nce Price Hype Festival... Compreende-se que dado o leque de escolhas, Meco seja mais cool e comercializável. Na realidade não interessa o nome do local antes os nomes que tocam lá no pinhal. Este ano, para quem como eu já vira Moby no pavilhão atlântico, dar 7 mocas para depois andar lá a pastar de tenda em tenda era doloroso. Não pus lá os pés obviamente. Bjork e Dhzian & Kamien, que eram o que valia a pena ver, actuavam à mesma hora. O resto era .um contigente. residual de DJ.s e grupos que as rádios e jornais associados ao evento fizeram o favor de nos dar a conhecer como grandes fenómenos que toda a gente parecia conhecer menos nós.
Já me disseram entretanto que a actuação simultânea dos artistas que gostaria de ver acabou por não acontecer. Mas os atrasos e desencontros já me tinham ficado na memória do festival anterior. Assim como aquela sensação de que só mesmo pastilhado ou com os copos poderia ter extraído o máximo do festival que de maneira nenhuma é feito para espectadores cirúrgicos como eu.
Mais doloroso ainda neste e noutros festivais é o bilhete não dar direito a sequer uma bejecazita. Havia de ser tipo consumo mínimo. Ou faziam sorteios nos longos intervalos entre os concertos do palco principal, ao invés de passarem insistentemente o fastidioso spot rádio do festival. Para quê publicidade àquela hora, se quem lá estava já lá estava ?! Sorteavam bejecas e torresmos entre a malta. Por exemplo, bilhetes com o nº terminado em 02 podiam ir levantar uma malga de sopinha de caldo verde na roulote junto à tenda trance. Terminações 18 podiam ir levantar uma mini na tabanca do .Amo-te Meco., e por aí fora. Mas não. Mais que doloroso, é escandaloso não só pagar as 7 mocas como ainda andar o resto da noite com areia nos sapatos enquanto nas barracas dos comes & bebes nos pedem quantias exorbitantes por uma febra, um cachorro ou um vodkazito mal parido. Quando lá estive há um ano atrás, lembro-me que gastei lá dentro em mantimentos o equivalente ao preço do bilhete cá fora! Um gajo não se esquece destas coisas!
Mas dada a afluência, 20 mil pessoas, mais 5 mil que o ano passado, para quê mudar ? Crise o tanas. A malta paga o que pedirem, vai-se a todas. Parece que se criou uma espécie de festivalodependência militante. Não sei se a culpa não será dos comunistas, se isto não é toda uma geração que desde pequenina, pela mão dos pais, começou a frequentar o festival/festa do Avante e agora que cresceu e não tem partido, não quer outra coisa que não seja estar de copo de plástico na mão aos pulos em frente a um palco. Ao longo do Verão é vê-los deixarem as terrinhas, as casas dos pais e os apartamentos da subúrbia, rumo sabe-se lá onde, a quantas horas de bicha de distancia, em que arrabaldes, no meio do nada ou do pó, aos festivais que forem preciso, que não se é jovem não se é nada se assim não for.
Pró ano logo se vê.

Publicado por jorge b pelas 01:42 PM | Comentários (0)
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terça-feira, 29 de abril, 2003
Gatos

Ai o malvado do gato... onde é que eu pus a fisga?...
.Há milhares de anos os gatos eram adorados como deuses. Nunca se esqueceram disso..
As coisas podem tornar-se tão fascinantes tanto mais quanto antes nunca tínhamos reparado nelas. O caso dos gatos é paradigmático. Toda esta vida foi mais com desconfiança que respeito que olhei sempre de lado para os gatos. Havia neles um misto de medo, aquela miufa ridícula e histérica que os gatos parecem ter, e uma arrogância no miar aliada a uma indisciplina provocadora que despoletavam em mim um desejo confortável e incontrolavel de fazer-lhes pontaria com a fisga armada, era eu petiz.
.Os cães vêm quando chamas por eles. Os gatos tomam nota do que dizes e, eventualmente, voltarão ao assunto.. Mary Bly
Apesar disso o sentimento acompanhou-me, confesso, mesmo depois de criança, já adulto, mesmo depois de ter adquirido em Córdoba uma fisga árabe. Até um dia, um dia de partida e de regresso, daqueles dias em que só se deve levar ou trazer, como era o caso, o que se tinha levado, o essencial. Não um, mas dois gatos escolheram-me e fizeram comigo 3000 quilómetros.
"Nos olhos de um gato podes observar o tempo, na verdade, a eternidade!. Charles Baudelaire
A distancia não significa nada. Os sentimentos podem desvanecer-se ou exaltarem-se em poucos metros. Mas quando se viaja com determinado tipo de bagagem extra, cada quilometro conta. Em cada viagem deixamos sempre algo para trás, nem sempre o irremediável, muitas vezes o inconfessável. Mas nesta viagem, o que ficou para trás foi aquele sentimento, o da fisga, o da criança cruelzinha para com os gatos.
.Deus fez o gato para que o homem pudesse ter o privilégio de acariciar o leão.. Fernand Mery
Os gatos sabem melhor que ninguém que crueldade pode haver numa criança. Os meus aprenderam depressa essa lição. Uma pessoa amiga levou uma vez lá a casa o filho, criança que mal sabia gatinhar mas que já tinha força suficiente para agarrar pelos rabo e não mais largar os meus gatos, na altura jovens de 5 ou 6 meses.
.Mesmo o mais pequeno dos gatos é uma obra de arte.. Leonardo da Vinci
Entre o constrangimento de controlar a vontade de dar dois tabefes na criancinha e a passividade dos paizinhos indiferentes, lá assisti de pés e mãos atadas. A criancinha lá se divertiu e saiu ilesa do acontecimento.
.O gato pode servir-nos de modelo em questões de higiene e como criar filhos.. Arthur Marx
Aquele pequeno episódio fez-me lembrar aqueles fulanos que na rua parecem pessoas vulgares e na porrada se for preciso comportam-se dessa maneira apesar do cinturão preto que trazem por debaixo das calças. Não querem fazer uso das suas capacidades pois imediatamente ficariam numa situação de superioridade em relação á outra pessoa; ou seja, seriam capazes de partir os cornos á outra pessoa ou simplesmente paraliza-la de medo com um simples grito e isso é algo que é muito bom saber guardar só para si em alturas de aperto, manter o sangue frio e o sorriso displicente. Coisas que muitas vezes acabam por ser dissuadoras do confronto físico porque se cria no oponente uma sensação de .aqui há gato. perturbadora.
.Há duas maneira de escapar às misérias da vida: Música e gatos.. Albert Schweizer
Assim se comportaram os meus gatos naquele dia. Por debaixo daquele miarzinho, daqueles olhinhos grandes, redondos e brilhantes, daquele pelo lustroso, aqueles gatinhos estavam conscientes que eram autênticas feras, possuidores de garras afiadissimas capazes de certamente estraçalhar a criancinha, na altura pouco maior que um coelho anão.
.Quem consegue acreditar que não há alma por detrás daqueles olhos luminosos.. Theophile Gautier
Eles lá a aturaram, com a tal calma e sangue frio dos autêntico cinturões negros vestidos á paisana, mas juraram para nunca mais. Cada vez que se aproxima alguém deles com menos de meio metro, é vê-los porem-se a milhas!
.Porquê procurar consolo no Islão, Budismo ou Catolicismo . um gato dá-te o mesmo, e ainda te aquece o colo.. Charles Darwin

Publicado por jorge b pelas 09:50 AM | Comentários (0)
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quinta-feira, 24 de abril, 2003
Ende de oscar gous tu...

Fiquei viciado estava eu ainda na barriga da minha mãe!
Oscar para o maior desperdício de gasolina: Volkswagen, meio televisão, produto Polo. Sinopse do spot: Um casalinho, ela grávida e com um desejo irreprimível de comer um gelado bem servido, ele um rapaz normal como tantos outros. Como o .ti-pichas. já morreu, (nome do homenzinho que montado numa motoreta concebida para o efeito, vendia gelados/sorvetes de terra em terra, inclusive aquela onde nasci; a origem do peculiar nome ainda é hoje um mistério para a minha geração) não há nenhuma .Primetime. por perto, á Hagen Dasz só vale a pena ir quando nos mandam um vale por altura do nosso aniversário, ela é alérgica aos gelados da .Olá. e ainda não fazem entregas de gelados ao domicilio, toca a pegar no Polo, um carro especialmente concebido para situações semelhantes, e ir por aí fora. Começa-se pelo Parque das Nações (o casal supostamente residirá ali num daqueles apartamentos com vista para o Barreiro e arredores, oferecido pelos pai dela, pessoas abastadas que terão enriquecido explorando um posto de abastecimento de gasolina na segunda circular). A musica no leitor de CD.s áudio é do mesmo género da que passou numa noite em que tive no Captain Kirk, género que a minha relativa ignorância musical não me deixa identificar.
Começa então a busca pelo gelado pedido, do Parque das Nações para o interior de Lisboa. Um policia sem saber o que fazer á vida mas de bom coração, como o são todos, montado numa BMW, presta-se de imediato a escoltar o Polo, julgando porém, dado o conteúdo do mesmo, que o veículo se dirige em urgência para a maternidade mais próxima... Mas não! Não se faz. O Polo lá continua a sua viagem, desta vez rumo á margem sul. É vê-lo passar a ponte. Não se ouve aquele barulho característico que se ouve quando se passa a ponte (faixa do meio) porque continua a musica. O ritmo da musica é contagiante e a esta hora começo a interrogar-me quem afinal toca aquilo. Lá dentro do Polo, parece que estou a ouvi-la .querido, arranjas-me a porra dum gelado ou não?.. Não, não há nada de fresco na margem sul. Só prédios de 4 andares sem elevador, esplanadas repletas de desocupados suburbanos e o mesmo transito caótico da cidade. Não admira que o Polo volte á capital, desta vez á Baixa. Haveria ali uma geladaria famosa... Não, afinal era uma casa que fazia bolos rei. Continua o desbaratar de gasolina. O que faz uma mulher grávida com desejos. Até que finalmente, numa daquelas lojas típicas de vender gelados, parece-me que ali para os lados da Rua dos Bacalhoeiros, prepara-se o dono da loja para fechar o gradeamento, que isto a ladroagem o há por toda a parte, quando o marido espavorido chega, ainda a tempo de o vermos depois de gelado na mão. Menos um divórcio, por ora...

Publicado por jorge b pelas 12:53 PM | Comentários (0)
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quinta-feira, 10 de abril, 2003
Culinária

Vivemos num mundo subaproveitado. Há pessoas subaproveitadas, talentos, tempo (principalmente os minutos), beleza, ideias, espaços subaproveitados a mais. É por isso que apesar do engarrafamento em que se encontra a existência, ainda há muita coisa para acontecer, muita corda para esticar. Consciente disto, tento aproveitar ao máximo, por exemplo a gasolina que está cara, a sombra, o sol, o sinal amarelo, enfim, a generalidade dos recursos naturais, artificiais e existenciais. Em casa tento aproveitar os cantinhos, tenho uma pequena pancada por prateleiras, ou optimização dos espaços (para ser mais técnico) que não quero de maneira nenhuma deixar subaproveitados. E isto é verdade, o meu berbequim é testemunha. Digo que a pancada das prateleiras é pequena porque de vez em quando espreito uma revista de decoração onde tudo me parece grande, genial, muito bem aproveitado.
Um dos cúmulos do subraproveitamento, o Word da Microsoft, o processador de texto mais famoso que o Word Pro da Lotus. Li uma vez que apenas 10% a 15% dos recursos do programa eram utilizados pela maioria dos utilizadores. Um daqueles problemas que julgo não se resolve com mais prateleiras, antes com mais conhecimento ou então arranjando-se motivos para utilizar os outros 85% a 90% do Word subaproveitados. Pior está quem não consegue piratear os 100% do programa e tem que os pagar para só depois gozar uma ínfima parte.
Ao ver um livro de culinária, como todos, portentoso monumento á criatividade e variedade, livro esse que me mostram, pormenor importante, o livro vem até mim e não vice-versa, convém realçar, tenta-me convencer que para fazer aquelas obras de arte bastava uma ida ao supermercado, avental, tacho e colher de pau, e logo a questão do subaproveitamento volta á baila, desta vez intimamente relacionada com a felicidade dos homens. Daquela vasta colecção de livros de culinária que recheiam as prateleiras da maioria das cozinhas, se as leitoras daquela literatura, fizessem nem que fossem 1% das receitas, se as aproveitassem, haveria ementa nova todos os dias e muito semblante se modificaria quando á mesa não se sentisse aquela habitual sensação de .deja-vu..

Publicado por jorge b pelas 01:46 PM | Comentários (0)
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segunda-feira, 3 de março, 2003
Bocadinhos de palavras nuas bonitas

iconoclasta
do Gr. eikonoclástes, destruidor de imagens
adj. e s. m., destruidor de imagens; aquele que condena o culto das imagens ou dos ídolos;
(fig.), aquele que tenta destruir ideias religiosas, opiniões estabelecidas, tradições.
ateu
do Lat. átheu < Gr. a-theós, sem Deus
s. m., aquele que nega a existência de Deus; incrédulo;
adj., ímpio.
laico
do Lat. laicu
adj., leigo; secular;não religioso.
niilismo
do Lat. nihil, nada
s. m., redução ao nada; descrença absoluta; doutrina política russa que recusava toda e qualquer imposição social e que defendia que o progresso da sociedade só seria possível após a destruição de tudo o que socialmente existe;
(Filos.), doutrina segundo a qual não existe nada de absoluto (inexistência de realidade substancial) nem possibilidade de conhecimento do real e que, por isso, se caracteriza por um pessimismo metafísico e por um cepticismo relativamente aos valores tradicionais (morais, teológicos, estéticos)

Publicado por jorge b pelas 03:19 PM | Comentários (0)
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O primeiro post: o cinema

Filmes Favoritos deste gajo:
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Publicado por jorge b pelas 03:02 PM | Comentários (0)
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