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quinta-feira, 11 de janeiro, 2007
Cego de raiva

Aqui há dias ia um ceguinho com a sua bengalita de ceguinho na mão, caminhando hesitantemente pelo passeio, vindo depois até ao rebordo do mesmo, decidido a atravessar para o outro lado da rua. Esperou pelo aviso sonoro do sinal verde para peões e com a sua bengalita lá começou a perscrutar caminho livre para avançar em segurança. Sentindo a presença à sua frente de um automóvel que ali estava estacionado, com a sua bengalita, começou então à cacetada ao capot do carro, enquanto vociferava furioso “estes cabrões estacionam em cima das passadeiras, filhos da puta!!!” e por aí fora, chamando a atenção dos outros transeuntes. Um deles aproximou-se e agarrando-o pelo braço, calmamente disse-lhe: “espere lá amigo que a passadeira não é aí”, encaminhando-o no bom caminho.
A tendência natural das pessoas sem deficiências físicas visíveis é para considerar as outras, denominadas deficientes, como completos coitadinhos, pessoas que além das suas limitações físicas, são igualmente limitados no que toca a sentimentos tão normais como a arrogância e o mau feito. Vêem os deficientes sempre sob uma aureola de sensatez e resignada humildade que, como este episódio verídico atesta, não é verdade. Para mim, que me limitei a observar a cegada, foi uma experiência enriquecedora. Primeiro porque não era o dono do carro que ficou com o capot escavacado, depois porque pude testemunhar in loco um comportamento normalmente irascível que qualquer um pode ter se não estiver nos seus dias, protagonizado por uma pessoa portadora de deficiência física altamente incapacitante como é a cegueira. Qualquer deficiente tem todo o direito de perder as estribeiras, ser uma besta, ficar cego de raiva, como qualquer outro cidadão.
Arte: Alessandro Bavari

Publicado por jorge b pelas 11:16 AM | Comentários (0)
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quarta-feira, 10 de janeiro, 2007
O estado puro do prazer

Uma equipa de cientistas independente e inexistente propôs-se descobrir que fantasia propiciava mais prazer. Foram submetidos à prova os mais diversos pares, entre eles, um doente e uma enfermeira, um aluno e uma professora, um carteiro e uma dona de casa, um desconhecido e uma desconhecida, um executivo e uma estagiária, um pacato cidadão e uma top model, etc. Testes rigorosos concluíram que, até mais que um homem e uma mulher, ninguém obtém mais prazer do que um macho e uma fêmea.
Arte: Jan Saudek

Publicado por jorge b pelas 05:32 PM | Comentários (0)
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sexta-feira, 5 de janeiro, 2007
Beber com moderação

(da série, grandes taradões sem história)

Ofereço-me um creme hidratante. Conversa do rótulo, a aplicação do creme depois do barbear é como se estivessem 5 mil litros de água termal a passar-me pelo rosto. Cativante. Relembro-me então duma ideia, de génio, que apresentei em tempos numa tertúlia de gente desesperada por arranjar ‘um negócio’: Agarrava-se, por exemplo, na Mónica Belucci, punha-se-a nuazinha num daqueles escorregas dos áqua-parques. Despejava-se lá de cima 5 mil litros de água da torneira que passariam pelo corpo da deusa, dotando-a do imaginário sabor do seu corpo, água encorpada, com sabor a Mónica Belucci. Depois de recolhido o precioso liquido, era engarrafado em garrafinhas de 20cl que seriam posteriormente vendidas a um preço exorbitante ao público ávido de refrescar a imaginação. Sem álcool, mas alucinante. No rótulo, a conversa, seria como se estivéssemos a bebê-la.

Publicado por jorge b pelas 03:01 PM | Comentários (2)
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terça-feira, 2 de janeiro, 2007
O Leonidas é que sabia

(da série, Grandes Taradões da História)

Leonid Brezhnev acompanhado de outro tarado de óculos.

Publicado por jorge b pelas 12:08 PM | Comentários (0)
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quarta-feira, 27 de dezembro, 2006
8 boas razões para implodir o Cristo Rei de Almada

A implosão é o método mais seguro embora, como método destrutivo, não dê o gozo que daria a demolição ou a explosão. Esta ultima hipótese, embora mais espalhafatosa e espectacular, poderia trazer consequências catastróficas. Decerto que obrigaria à evacuação de Almada, Lisboa e aldeias limítrofes. Não seria agradável levar com um estilhaço, por exemplo o nariz do Cristo, na cabeça. A hipótese de demolição, pelo contrário, levantaria questões de logística relativa ao alojamento de hordas de demolidores armados de martelo e escopro vindos de todo o mundo que não iriam querer perder a oportunidade de fazer história e participarem na destruição do nefando mamarracho.

O Cristo-Rei do Rio de Janeiro está na short-list para a eleição das 7 maravilhas do mundo. Na eventualidade de ser um dos eleitos, catástrofe ecológica que não será de descurar acontecer, qualquer turista passaria a identificar o até agora meio discreto Cristo Rei de Almada como uma mera cópia fraquinha do Cristo Rei Redentor. Já temos a ponte sobre o Tejo, mera cópia da Golden Gate. Já chega de cópias, obrigado.

O Cristo brasileiro está erigido a centenas de metros acima do nível do mar. A maior parte do tempo está tapado pelas nuvens, felizmente. Ou seja, não é observável por qualquer incauto que ali passe nas redondezas, como acontece ao incontornável Cristo Rei de Almada. Por muito que nos esforcemos, que desviemos o olhar, a atenção, ali está sempre o mamarracho, pois ao invés do brasileiro, montado bem lá no cimo do longínquo Corcuvado, este está montado sobre um planalto, à beira de um precipício. É um objecto arquitectonicamente desproporcionado relativamente à volumetria envolvente ao local onde está implantado e que, portanto, do ponto de vista do ordenamento da orla costeira, deverá ser implodido.

O Cristo Rei de Almada assenta sobre quatro pilares gigantescos que decerto poderiam ser reciclados e utilizados na construção da nova travessia sobre o Tejo. Poupavam-se milhões.

Se por acaso fossemos invadidos por uma super-potencia ateia, à semelhança com o que aconteceu com a invasão dos cristãos americanos ao Iraque, decerto que a força invasora mal conquistasse a margem sul suburbana ataria uma corda ao pescoço do Cristo e a um taque, e faria o mesmo que fez à estátua do Saddam. Antes prevenir que depois ter que limpar entulho.

Com um aeroporto a meia dúzia de quilómetros é completamente irresponsável ter uma espécie que policia sinaleiro com centenas de metros de altura a estorvar o trânsito aéreo. Oxalá nunca aconteça mas seria triste um dia ser notícia de primeira página: “Cristo Rei de Almada decepado pela asa de um Airbus”

Numa época de crise energética em que a poupança de electricidade está na ordem do dia, é irreflectido gastarem-se milhares de kilowats para iluminar a aberração. Calcula-se que a energia mal gasta ali numa semana dava para pagar a assistência médica, os pensos e as pomadas para os calos, dos peregrinos devotos de Nossa Senhora de Fátima, durante uma década.

O que significa afinal um boneco de braços abertos virado para Lisboa ? Está a abençoa-la, como defendem os beatos ? Não parece. O Cristo parece antes estar na eminência de se atirar dali abaixo. É sabido que os desportos radicais fazem bem à adrenalina; mas ter erigida à beira Tejo uma estátua daquela dimensões fazendo a apologia ao bungee-jumping é exagerado.

Publicado por jorge b pelas 09:58 PM | Comentários (0)
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Vila BES

O Banco Espírito Santo tomou este ano a iniciativa de transformar a histórica vila de Óbidos na histérica Vila Natal. O evento decorre desde 1 de Dezembro até 6 de Janeiro pelo que julgo ser ainda oportuno este post, dirigido principalmente àqueles que terão, como eu tinha, uma pequena curiosidade em saber que palhaçada virá afinal a ser aquilo.
O que é a Vila Natal não cheguei a saber. Mas o autêntico desfile de horrores que era a mostra de árvores de Natal de plástico, decoradas pela sociedade civil das redondezas, colocadas numa rua de acesso à entrada da vila não augurava nada de bom. Fiz centenas de quilómetros para me deslocar ao local e no entanto, o facto de ser cobrada uma taxa à entrada foi o suficiente para me recusar prosseguir com a loucura e preferir morrer na praia. Lá estava inesperadamente uma barraca com o letreiro “bilheteira”, lá estavam naturalmente os picas junto ás cancelas implacáveis com os penetras, e lá estava obviamente uma fila de proporções bíblicas para a comprar dos ingressos a 4€. Em qualquer país minimamente civilizado aquela barraca não ficaria de pé mais de dez minutos. Em Portugal faz-se bicha ao frio para se ser extorquido de livre vontade. Se o BES quisesse cobrar bilhete de ingresso nas suas dependências bancárias estaria no seu direito. Agora usurpar um espaço histórico e público e vedar-lhe o acesso é uma provocação de espírito nada natalício e muito pouco santo. É como se o Banco Millenium cobrasse bilhete a quem contemplasse a árvore de Natal gigante na Praça do Comércio… Bem, é melhor estar calado e não dar ideias!
O único ponto de interesse em Óbidos por estes dias será a fabulosa amostra de pins pornográficos exposta no quiosque do lar de idosos, logo à entrada da vila. Ali poderemos apreciar e adquirir as mais diversas posições do Kama-sutra ao som do jingle-BES.

Nota: foi corrigida a data de encerramento do evento para a data correcta, 6 de Janeiro.

Publicado por jorge b pelas 09:53 PM | Comentários (4)
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