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sexta-feira, 10 de novembro, 2006
A cor do amor

Natália de Andrade, verdedeiramente genial!

Publicado por jorge b pelas 02:07 PM | Comentários (0)
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Modestas contribuições para o meu auto-conhecimento: a saga continua

Sinto forte dependência e instintiva atracção pelo impossível, por tudo o que, instintivamente outra vez, sinto que jamais poderei alcançar. Exhibit one: não são raras as vezes que me acontece ter vontade, ficar aflitinho para escrever em locais ou situações onde tal não é viável, impossível portanto. Mas depois, au contraire, quando tenho tudo o que preciso para o fazer, quando tenho a possibilidade de concretizar o desejo mesmo ali à frente, a desinspiração instala-se.
Andamos sempre desencontrados, eu e o desejo, ele aqui, eu lá, ou então ele lá, a maior parte das vezes, e eu em lado nenhum. Nunca estou no momento, antes, sempre no momento seguinte. O pensamento sobrepõe-se sempre, mais rápido, mais forte que a realidade. Habito um presente onde sou um anacronismo, onde nunca estou verdadeiramente presente a não ser em pensamento, onde sou a ficção de mim próprio, condenado pela impossibilidade de ser, ter, agora.

Publicado por jorge b pelas 11:20 AM | Comentários (0)
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quinta-feira, 9 de novembro, 2006
Curado

Posso afirmá-lo com toda a certeza: estou curado! Passei pelo pasquim e foi-me indiferente, resisti à tentação, ao apelo da leitura fácil, da gula pelas novidades de borla. Estou limpo, voltei ao livro como companhia de viagem. Abandonei o vicio, larguei o Destak.

Publicado por jorge b pelas 09:06 AM | Comentários (0)
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quarta-feira, 8 de novembro, 2006
Carne ensacada

Farinheiras, buchos, paios, chouriços, bexigas, alheiras, morcelas, o que levam, como se fazem, as diferenças de sabor consoante as regiões, a altura certa para se matar o porco e se comer, os métodos da matança, as técnicas para evitar o ranço e migar a carne, as quantidades de toucinho e sangue, a vinha de alhos, o fumeiro, a lavagem das tripas… Sinto-me sempre um estrangeiro nas ocasionais confraternizações de final da tarde aqui no trabalho. Assisto sempre com um misto de fascínio e perplexidade as acesas discussões e apaixonantes palestras sobre carne ensacada, enquanto rezo para que ainda hajam sais de frutos quando chegar a casa. Para a semana já está marcado novo workshop de enchidos.

Publicado por jorge b pelas 01:21 PM | Comentários (0)
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terça-feira, 7 de novembro, 2006
Lúbrico com 7 megapixeis

A miopia leva-me a um interessante exercício de voyeurismo em diferido. Na janela em frente ao trabalho, a nova inquilina no 3º andar brinda-me com uma aparição em lingerie. O embaciamento impede-me de apreciar convenientemente o lado de lá da rua. Pormenores e contornos do que revela a vidraça da janela, só mais tarde. O tempo de exposição da modelo é suficiente para um snapshot com o zoom óptico no máximo. Depois, ao perto, no ecrán já desanuviado, o zoom digital faz o resto.
Verdadeiro trabalho de equipa. A máquina já vê melhor que eu… mas nunca saberá apreciar.

Publicado por jorge b pelas 06:05 PM | Comentários (0)
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Em tensão agónica

“O amor. A ausência de amor. A impossibilidade do amor. A forma como a realização do amor destrói a sua idealização. A natureza tirânica das relações pessoais, a começar pelas mais próximas – amantes, família, amigos. A tensão agónica entre a busca da segurança afectiva e a liberdade pessoal e poética. A importância da poesia para transformar a tristeza em algo de sublime.”

João Pereira Coutinho, acerca de Philip Larkin

Publicado por jorge b pelas 01:52 PM | Comentários (0)
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sexta-feira, 3 de novembro, 2006
O Jacques é que sabia

Pour faire le portrait d'un oiseau

Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
C'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucment
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.

Jacques Prevert

Em inglês

Publicado por jorge b pelas 03:07 PM | Comentários (0)
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quinta-feira, 2 de novembro, 2006
Estribilho do momento

Os nossos antepassados pré-históricos guerreavam por uma razão muito simples: por territórios que lhes dessem mais caça, para que fossem mais fortes e assim terem as melhores namoradas.
Na idade média guerreava-se também por uma razão muito simples: em nome de Deus, embora o motivo oculto para as hordas de alminhas que alimentavam os exércitos era sempre a expectativa do saque e a violação das namoradas do inimigo.
A guerra moderna, igualmente por uma razão muito simples, é remunerada: continua a fazer-se em nome de um Deus, mas um Deus negro que depois de refinado e transformado em gasolina, alimenta os automóveis com que se impressionam as namoradas. Orson Welles estava certo. Tudo o que fazemos, por uma razão muito simples, é para as impressionar.

Publicado por jorge b pelas 10:56 AM | Comentários (0)
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