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O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Homens e Mulheres, os nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por 'se relacionarem'. E, no entanto, desconfiados da condição de 'estar ligado', em particular de estar ligado 'permanentemente', para não dizer eternamente, pois temem que tal condição possa trazer encargos e tensões para que eles não se consideram aptos nem estão dispostos a suportar e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para - sim, o seu palpite está certo - se relacionarem...
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Zygmunt Bauman, ed. Relógio d'Água
I - Os morangos com açúcar, as telenovelas da SIC, os passatempos do canal 1, o lixo generalizado das televisões generalistas, é estrategicamente depositado à hora a que um individuo chega a casa depois de um dia de trabalho. A intenção é criar no individuo que chega a casa depois de um dia do trabalho o desejo de emigrar para um país qualquer onde não se sinta tanto um individuo que chega a casa depois de um dia de trabalho. Sabendo-se da sua falta de tomates, sabe-se que ele apenas se arrependerá de ter saído do trabalho a horas decentes.
II - O esganiçamento com que os defensores da penalização do aborto esgrimem os seus argumentos válidos, deixa transparecer um complexo, um medo latente e reprimido. Causa-lhes desconforto imaginarem que poderiam ter sido eles, os nados abatidos, os abortos consumados. Nunca teriam portanto a oportunidade de estarem agora contra o aborto.
Os outros fundamentalistas que pelo contrário esganiçadamente defendem o aborto, defendem-no assim porque sentem que se teria poupado muito trabalho, não teriam de estar agora para ali a ganir argumentos válidos.
III - No metro há pessoas contratadas pelos principais fabricantes de leitores de MP3, para terem diálogos como o que segue:
- O teu deixa-te corta-lhe as unhas ?
- Sim.
- O meu não!...
- Com ele não tenho problemas.
- Mas tu com o teu podes fazer o que quiseres, ele ainda é pequeno.
- Não tão pequeno quanto isso.
- Mas é mais pequeno que o meu.
- És um totó!
- Ah, ah, ah, ah…
IV - Há pessoas perdidas por toda a parte que estão absolutamente convencidas que, ao contrário da morte, conseguirão ir ao encontro do amor mais que uma vez na vida.