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São Baltazar quero casar,
São Benedito com um rapaz bonito,
São Bento que não seja ciumento,
São Luís que me faça feliz,
São Manuel que seja fiel,
São Irineu que seja só meu,
São Benjamim que goste de mim,
São Virtuoso que seja gostoso,
São Vicente que seja quente,
São Nicolau que tenha um grande pau,
Santa Teresinha que me deixe molhadinha,
Santa Guiomar que saiba pinar,
São Clemente que fôda pela frente,
São Braz que fôda por traz,
São Malaquias que seja todos os dias.
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recbido via SMS
Não ando a dormir bem. Aponto causas genéticas. Na minha linhagem nunca nenhum dos meus antepassados foi funcionário público. Sou o primeiro a degenar e agora sinto a revolta do corpo, a incompatibilidade do meu caótico ser espiritual e orgânico com a exemplaridade que a causa pública exige. Todos os meus avôs paternos e maternos foram negociantes de qualquer coisa, entregues a si próprios, às suas capacidades de improvisar a vida e alcançar o lucro. O meu avô paterno tinha uma exploração de suinicultura. Imagino a inconstância dos seus emocionantes dias: ontem um excelente negócio com a compra de uma vara, hoje outro com a venda de duas. Ontem um porco com peste suína, hoje a visita da veterinária. E amanhã mais uma gloriosa matança. E o meu pai, terrorista nos tempos livres, saiu aos seus. Tinha uma mercearia colada com uma taberna, um homem para dois balcões, era obra!
E agora eu, séculos e séculos de apuramento genético jogado à repartição pública, gerações e gerações de negociantes com habilidade para se desenrascar de horários e carimbos até surgir eu, funcionário público, entregue vergonhosa e obrigatoriamente a um processo diário de desi-existência feito de rotinas incontornáveis que paulatinamente o dever, a hipoteca, as prestações, me obrigam a cumprir. Mas o corpo revolta-se, sinto-o instável, castiga-me, por enquanto não me deixa dormir, não sei o que virá a seguir às provações físicas que me inflige. O sacana aproveita a menor aragem fria dos corredores do metro para me fazer espirrar e pôr-me com frio o resto do dia. Aproveita qualquer pingo de chuva fria para me pôr a correr na direcção da farmácia mais próxima. Sofro de alergia crónica ao pó da cidade, ao escape dos autocarros, ao ar saturado do comboio em hora de ponta, alergia à realidade a que me fui entregando enquanto dela cada vez mais o corpo se quer rebelar.
É certo que sinto o apelo pelo negócio, mas é uma certeza a minha absoluta falta de faro para grandes jogadas. Coloco aqui no blog diversos banners de forma descarada. O da Amazon é o único que já facturou, duas libras e meia, em dois anos. Nem sequer um refugiado do Bangladesh se desenrasca com tão pouco mais que dois dias. Mas não me resta outra alternativa, outra veia, senão esperar sub-repticiamente que algum incauto visitante clique no raio dos banners, compre tralha no Art.com, case com a russa dos seus sonhos, licite as minhas bugigangas no Miau, e que não se distraia com as patranhas que escrevo. Que falta de jeito meu dinheiro! Não admira que com a minha idade o meu pai já tivesse tido um descapotável, dormido no Sheraton de Londres e assaltado um carro em Paris apenas para não passar a noite ao relento. Eu, logo, com sorte, se me conseguir lembrar a que horas passa o comboio, se ficar bem colocado na plataforma, mesmo num sitio onde a porta se abra e eu seja um dos primeiros a entrar, conseguirei um lugar sentado.
Sinto forte dependência e instintiva atracção pelo impossível, por tudo o que, instintivamente outra vez, sinto que jamais poderei alcançar. Exhibit one: não são raras as vezes que me acontece ter vontade, ficar aflitinho para escrever em locais ou situações onde tal não é viável, impossível portanto. Mas depois, au contraire, quando tenho tudo o que preciso para o fazer, quando tenho a possibilidade de concretizar o desejo mesmo ali à frente, a desinspiração instala-se.
Andamos sempre desencontrados, eu e o desejo, ele aqui, eu lá, ou então ele lá, a maior parte das vezes, e eu em lado nenhum. Nunca estou no momento, antes, sempre no momento seguinte. O pensamento sobrepõe-se sempre, mais rápido, mais forte que a realidade. Habito um presente onde sou um anacronismo, onde nunca estou verdadeiramente presente a não ser em pensamento, onde sou a ficção de mim próprio, condenado pela impossibilidade de ser, ter, agora.
Posso afirmá-lo com toda a certeza: estou curado! Passei pelo pasquim e foi-me indiferente, resisti à tentação, ao apelo da leitura fácil, da gula pelas novidades de borla. Estou limpo, voltei ao livro como companhia de viagem. Abandonei o vicio, larguei o Destak.
Farinheiras, buchos, paios, chouriços, bexigas, alheiras, morcelas, o que levam, como se fazem, as diferenças de sabor consoante as regiões, a altura certa para se matar o porco e se comer, os métodos da matança, as técnicas para evitar o ranço e migar a carne, as quantidades de toucinho e sangue, a vinha de alhos, o fumeiro, a lavagem das tripas… Sinto-me sempre um estrangeiro nas ocasionais confraternizações de final da tarde aqui no trabalho. Assisto sempre com um misto de fascínio e perplexidade as acesas discussões e apaixonantes palestras sobre carne ensacada, enquanto rezo para que ainda hajam sais de frutos quando chegar a casa. Para a semana já está marcado novo workshop de enchidos.
A miopia leva-me a um interessante exercício de voyeurismo em diferido. Na janela em frente ao trabalho, a nova inquilina no 3º andar brinda-me com uma aparição em lingerie. O embaciamento impede-me de apreciar convenientemente o lado de lá da rua. Pormenores e contornos do que revela a vidraça da janela, só mais tarde. O tempo de exposição da modelo é suficiente para um snapshot com o zoom óptico no máximo. Depois, ao perto, no ecrán já desanuviado, o zoom digital faz o resto.
Verdadeiro trabalho de equipa. A máquina já vê melhor que eu… mas nunca saberá apreciar.
“O amor. A ausência de amor. A impossibilidade do amor. A forma como a realização do amor destrói a sua idealização. A natureza tirânica das relações pessoais, a começar pelas mais próximas – amantes, família, amigos. A tensão agónica entre a busca da segurança afectiva e a liberdade pessoal e poética. A importância da poesia para transformar a tristeza em algo de sublime.”
João Pereira Coutinho, acerca de Philip Larkin
Pour faire le portrait d'un oiseau
Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
C'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucment
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.
Em inglês
Os nossos antepassados pré-históricos guerreavam por uma razão muito simples: por territórios que lhes dessem mais caça, para que fossem mais fortes e assim terem as melhores namoradas.
Na idade média guerreava-se também por uma razão muito simples: em nome de Deus, embora o motivo oculto para as hordas de alminhas que alimentavam os exércitos era sempre a expectativa do saque e a violação das namoradas do inimigo.
A guerra moderna, igualmente por uma razão muito simples, é remunerada: continua a fazer-se em nome de um Deus, mas um Deus negro que depois de refinado e transformado em gasolina, alimenta os automóveis com que se impressionam as namoradas. Orson Welles estava certo. Tudo o que fazemos, por uma razão muito simples, é para as impressionar.