janeiro 31, 2005

Desejo a dias

Cada vez me convenço mais dos benefícios duma vida despojada do supérfluo; piscina, a do vizinho, barco, o do amigo, lareira, a da estalagem na província, grandes salas, as dos hotéis, jardins, os públicos, ecrãs gigantes, os dos cinemas, altas fidelidades, as das discotecas. A casa, bem inevitável, o mais confortável, prática e minimalista possível. O automóvel, outro, o mais fiável e veloz. O sentimento de posse é cada vez mais caro de sustentar e quase sempre gera mais prestações em atraso e exibicionismos do que prazer para o proprietário. Para já não falar na banalização: o objecto do desejo nunca deve fazer parte do nosso dia-a-dia.

Publicado por jorge b em 10:08 PM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL

janeiro 18, 2005

Aequilibriu

Numa relação saudável e equilibrada deve ser sempre a mulher a gostar mais do homem. Quando acontece o contrário, a mulher não sabe gerir tal poder, estraga tudo.

Publicado por jorge b em 10:38 AM | Comentários (4) | PÁGINA PRINCIPAL

janeiro 14, 2005

Sardinha no pão

Um grupo de pescadores, naturalmente portugueses, é resgatado de um barco, naturalmente Espanhol, em apuros ao largo da Escócia. Lançaram o alerta, foram salvos, estão bem, muito obrigado. Que necessidade têm portanto as televisões de filmarem a chegada ao aeroporto de toda aquela malta com a barba por fazer, e mais os beijinhos e os abraços ? Serão essas imagens tão importantes para alguém que queira estar bem informado ? Obviamente que não, mas naturalmente que passam nos telejornais. Pergunto, quando é que os cameramen se metem nas traineiras e vão para o mar alto, fazer lá a reportagem com o Zé Pescador, como fazem as TV’s Canadiana, Francesa, Escandinavas e demais, porque são dessas televisões que vemos excelentes documentários sobre a vida dos pescadores ? Porque é que os pescadores, num país atlântico e marinheiro, só aparecem nas televisões a ocuparem tempo de antena quando há naufrágio ou quase ?

Publicado por jorge b em 05:26 PM | Comentários (3) | PÁGINA PRINCIPAL

Banquete com o patrão

Ontem era a notícia ao final do dia na TSF: Zé Sócrates, depois de votar contra o famigerado orçamento do PSD/CDS, depois de referir que a extinção dos benefícios fiscais sobre os PPR’s constituía o maior ataque de sempre à classe média, vinha agora avisar que, se o PS for governo, não iria repor aqueles benefícios fiscais. Notícia mais que pertinente, contradição que justificava uma notícia. Mas na SIC, nem uma palavra sobre a última do troca tintas que ontem se banqueteou com algumas centenas de empresários nacionais e internacionais. Embora por pouco ainda viamos a entrada das Sardinhas Albardadas na mesa.

Publicado por jorge b em 05:25 PM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL

janeiro 13, 2005

O sagrado cimento do Islão

Para além da catástrofe que provocou, o Tsunami no Indico veio pôr a nu uma tragédia não menos dramática... Vejo no site da CNN mais uma fotografia impressionante, tirada do ar, na Indonésia. Num raio de centenas de metros, tudo destruído, completamente devastado, à excepção de apenas um edifício que se mantém de pé, como se tivesse suportado impávido e sereno o que milhares de outros edifícios e vidas não suportaram. No centro da foto, no centro da cidade destruída, o único edifício construído com pedra e cimento, e que assim resistiu, dir-se-ia que facilmente, à fúria do oceano: A mesquita! A casa de Alá! Aquela construção intocável, que simboliza afinal uma outra tragédia que há muito acontece, e que agora, vista do ar, depois do Tsunami, ganha outro relevo, se pode constatar com mais clareza. Uma tragédia perpétua que faz parte do quotidiano de milhões de pessoas a viverem debilmente, sem oportunidade de terem essa panorâmica aérea da sua escravidão. Escravidão alienada habitada em precárias casas de lata, vítimas duma religião que se alimenta da miséria e açambarca, só para ela, cimento, mármore, petro-dólares e o espírito livre.

Publicado por jorge b em 05:53 PM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL

janeiro 06, 2005

A consagração

Admiro Rui Rio. Nas últimas autárquicas foi protagonista da mais surpreendente vitória, uma vitória sobre as sondagens, contra todas as previsões, sobre o establi-shit-ment da altura. Então, derrotou o incorrigível Fernando Gomes, breve ministro nódoa de um desastroso governo Guterres, mas que era dado como certo e apto para uma reciclagem na Câmara do Porto. E o facto de Rio desde a primeira hora sempre ter afrontado Pinto da Costa, e agora o mitológico portista Pôncio Monteiro, de ser no fundo um contra-poder na cidade enclave do Norte, por si só demonstra o seu carácter valoroso. E tem sido contra esse “porto naçãum” contra esses que “saum os milhores carago” que o portuense Rio tem travado uma guerra, ontem tragicamente comprometida com a atitude do baralhado governo Santana.
Na primeira página do correio da manhã, talvez também quiçá nos desportivos, a foto de Jorge Nuno Pinto da Costa (vejam que eu, toda a gente sabe o nome completo de Pinto da Costa... não é preocupante ? Sabemos o nome completo do presidente da República ? Claro que não. De Santana, de Portas ? Nem do Valentim Loureiro, nem sequer da melhor amiga da nossa namorada ou mulher. E se quisermos falar em dinossauros políticos, sabemos apenas que o Soares é Mário, por exemplo. Por que raio sabemos o nome completo do Costa ?!), curvando-se frente a Santana que o medalha, que o apologia. Santana decidiu homenagear o FCP por este ter ganho a taça intercontinental, um pretexto descarado para um caso flagrante de colagem e promiscuidade entre a política e o futebol. A taça ou as taças, que se saiba em nada contribuiram para a diminuição do deficit ou para a melhoria das condições de vida das pessoas. Pelo contrário, atiçam ainda mais clubismos e fanatismos entre a maralha que se endivida para pagar a sport tv e ter as cotas em dia.
Futebol e política, duas coisas que, a bem da credibilidade de ambas, deveriam estar o mais afastadas possível. Homenagens ao FCP e ao seu presidente, que as façam os seus sócios, entidades apartidárias, da sociedade civil, a Junta de freguesia lá das Antas, nunca, mas nunca um governo. É uma mancha quase irreparável que compromete seriamente as aspirações do PSD e de Rio, que tem, ao longo destes anos, tentado fazer com que o Porto deixe de ser um mero enclave, uma cidadezeca habitada por gente rude e com um sotaque ridículo, imagem negativa esta muito por culpa dos seus eternos 'ilustres' embaixadores. Santana com este pequeno mas grave descuido, vem comprometer um pouco mais esta aspiração, que é também a de todos os portugueses.
Aqui há uns anos atrás, Vasco Pulido Valente escrevia que a melhor coisa que o Porto tinha era a auto-estrada para Lisboa. Temo que com o andar da carruagem, será por pouco tempo. Dentro em breve, a melhor coisa que o Porto terá, será o TGV, para Lisboa, ou para Espanha.

Publicado por jorge b em 05:54 PM | Comentários (1) | PÁGINA PRINCIPAL

janeiro 03, 2005

Missão cumprida

Paulo Coelho ocupa um lugar de destaque no processo de cretinização em curso na sociedade ocidental. Pode parecer um exagero, mas como pequena acha para a fogueira, que consome o bom senso e o bom gosto da nossa era, não merece ser menosprezado. Os seus livros vendem-se aos milhões, a sua palavra é espalhada por milhares de sites e blogs, mesmo de gente respeitável, como é o meu caso, que mais abaixo, entre outras citações, tenho uma do gajo, bem apanhada convenhamos, que diz que nada está completamente errado, mesmo um relógio parado está certo duas vezes por dia. Não haverá por isso razões para duvidarmos que há muita gente que vê nos seus livrecos tábuas de salvação espiritual e vivencial, uma geração de pobres de espírito duvidoso que o louva com um respeito e admiração desmedida.
Feita a homenagem, escrevo agora que tropeço numa crónica sua no “Jornal de Notícias”, com o original e sugestivo título, “viajando pelo mundo”. Há três historietas para adormecer, uma de Praga, outra de Marrocos, e a de Nova Iorque, que me comoveu particularmente. Quando se dirigia para pagar uma multa ao Departamento de Trânsito, Paulo Coelho lembra-se da nota de um dólar que encontrara no chão no dia anterior. Naturalmente deve ter-se apercebido que a sorte não tinha sido muita, que o mísero dólar afinal mal daria para mandar cantar um cego quanto mais pagar uma multa em Nova Iorque. Portanto, muito naturalmente e à sua maneira, em vez de começar a imaginar sítios maravilhosos para mandar os bófias que o multaram, começou a interrogar-se “Quem sabe, eu peguei a nota antes da pessoa certa encontrá-la”, e, “Quem sabe tirei aquele dólar do caminho de alguém que estava precisando”, e, como se fosse possível ser-se mais beato, “Quem sabe interferi com o que está escrito”. Estão a ver a pinta não é ?... Quem sabe se não será possível escrever-se algo mais lastimável, mas enfim, é o que se vende bem hoje em dia. E o pior estava ainda para ser pensado, quando o homem decide “Preciso livrar-me dela”. Dela, a nota maldita, não a camisa que trás vestida, de seda pura, manufacturada no Paquistão por um menino de 7 anos, não o rolex manufacturado na Suiça, mas sim a nota de um mísero dólar. Decerto se fosse uma de 100 ou 1000 dólares não lhe provocaria tamanho desconforto. O Coelho aproximou-se então de um mendigo e deu-lhe a nota. “Parece que consegui reequilibrar de novo as coisas.” Mas o mendigo algo indignado respondeu que não estava ali para pedir, disse-lhe que era poeta, e que com aquele dólar, o mãos largas teria direito a que lhe fosse declamado um poema. E assim foi, atente-se na pérola:
Existe uma maneira de você saber se já cumpriu sua missão na Terra. Se você continua vivo, é porque ainda não cumpriu.” Não sei se esta patranha rimará em inglês mas, desculpem, esta é mesmo mesmo à Paulo Coelho, esta é mesmo mesmo de dar a volta à tripa até a um Etíope. É tão reaccionária que o gajo, cauteloso, meteu-a na boca do mendigo poeta. Mas dela não se escapa.
Segundo a lógica daquela pródiga cabeça, quem morre é porque já não andava cá a fazer nada, estava a mais porque ou não tinha ou já terminara a sua missão. Eu que ainda estou vivo, é porque tenho ainda uma missão, várias até, entre as quais, desancar o raio do Coelho que ganha a vida a embrutecer quem o lê. Portanto, indo mais longe, mais profundo, não nas suas palavras que são sempre truques engraçadinhos ou piadinhas espirituais de gosto duvidoso, indo mais fundo, ao mar e à terra onde jazem as dezenas de milhar de pessoas que morreram recentemente na Ásia, elas morreram porque na realidade já tinham cumprido a sua missão, já não precisavam de cá estar. Portanto, vala comum com elas.

Depois de ler um livro de Paulo Coelho, na SIC radical alguem se lembrou "Quem sabe se pusermos a Paula Coelho a fazer stip-tease ficamos com mais audiência ?". Video-captura do site Capxino

Publicado por jorge b em 11:08 PM | Comentários (1) | PÁGINA PRINCIPAL

Agora não foi ninguém

Vejo na televisão um monge budista negar a responsabilidade de Buda na recente catástrofe asiática. Pronto, acredito. E como não meteu detonadores, nem ficou cheiro a pólvora no ar, também não creio que tivesse sido obra de Alá.
Para evitar confusões, ficava bem ao papa vir esclarecer se Deus teve ou não alguma coisa a ver com a tragédia.


Publicado por jorge b em 03:04 PM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL