Acompanho a minha avó ás urgências de um hospital público. Passadas algumas horas desde que ali chegámos e outras tantas desde a ultima vez que a vi, sou chamado a fazer um slalom de 50 metros entre macas de gente quase toda ela de aspecto moribundo. Finalmente, lá está ela, de maca claro está, mas lucida e aparentando grande serenidade. O meu prognóstico optimista é confirmado por um médico ucraniano que meio a sério, meio a sério, me diz que ainda terão de passar mais algumas horas até ela ter alta hospitalar. Pergunto-lhe se aconteceu algum atentado terrorista, algum acidente grave que justifique tanta maca por metro quadrado. Responde-me meio a brincar, meio a sério, que "hoje até está uma noite calma". Reparo então no ar impávido de toda a gente que usa bata, que o ar condicionado funciona, que não estou num país do 3º mundo.
Paro num cruzamento e observo um cão a correr de um lado para o outro na estrada, numa brincadeira perigosa á frente dos carros que passam, forçando alguns deles a travarem bruscamente ou a desviarem-se. O cão, visivelmente abandonado e velho, já coxeia duma pata, e á distancia a que me encontro, é como se o cão estivesse a desafiar, a provocar a própria morte.
Lembro-me daquela cena do cão, do “Apocalypse Now”, quando a patrulha de militares americanos cruza-se com um barco de chinocas e o mandam parar para o inspeccionar. A tripulação do barco civil abordado é composta por 3 elementos, dois homens e uma mulher, simples comerciantes. No entanto, devido á tensão entre os soldados, a situação precipita-se e os militares assassinam os homens e ferem a mulher que apenas tentava proteger um 4º elemento da tripulação escondido, um cachorrinho. A preocupação e os cuidados de um dos soldados vai imediatamente para o animal, se estaria ferido, sendo acolhido pelos militares. Quanto á mulher ferida, decidem acabar de vez com ela.
Se eu fosse aquilo a que vulgarmente se designa por “um gajo com muita dinheiro”, muito mais depressa comprava um terreno e construía um albergue para animais abandonados do que um albergue para pessoas doentes, pobres e abandonadas. Aliás a segunda hipótese acho que nunca me passaria pela cabeça levar a cabo. Isto deve de ser preocupante, presumo.