julho 15, 2004

O túnel do PS

Não compreendo todo este escarcéu. Ou melhor, compreendo a tristeza e tacanhez por detrás dele, sempre incompreensíveis. Onde quer que se leia, não se lê outra coisa, o mais fácil e óbvio: atacar Santana Lopes, a todo o preguiçoso custo. Nestes últimos dias, já não sei quantos posts li em blogues alheios, alguns do mais ilustre que se pode ler, já perdi a conta aos forwards de mailes que recebi a xingar o homem que, por enquanto, não pode abrir a boca, que certa criativa cambada, outra malta a dar ares de vanguardista, e poucos com algum fundamento, lhe caem logo em cima.
Santana sabe que tudo o que disser pode ser gozado contra si, e por isso já se pôs á defensiva, à maneira de desarmar muita gente, ao colocar uma pose e tom cabotino quando fala, agora, á nação. Oxalá o bom Santana, talvez o político mais parecido com todos nós, não se perca, e assuma sempre a sua diferença e frontalidade, assuma sempre as suas convicções e contradições.
Acho muito bem a porra da ideia da descentralização dos ministérios. A medida, para já, sabe a pedrada no charco e por isso, deixem-se de merdas!
Há também quem o critique por se meter em tudo. E qual é o problema ? Acho louvável que quando tudo está mal e se se é verdadeiramente inconformista, se tenha vontade de mudar alguma coisa, se tente meter em tudo na esperança de mudar alguma coisa. E Santana é um gajo que pode fazer muito ou, pelo menos, um pouco pela mentalidade reinante no país. Ao contrário de todos os outros, que nada podem fazer. Esses, podem começar já a agradecer-lhe a saída de Ferro e a entrada em cena de Sócrates. O PS já vê uma luz ao fundo do túnel e o pais já está a ganhar.

Publicado por jorge b em 02:16 PM | Comentários (2) | PÁGINA PRINCIPAL

julho 10, 2004

Anti-Maria

Vou a mais uma dessas salas de espera dos hospitais para uma consulta de especialidade. A monotonia e enfado colectivo pela espera é reforçada pela agitação da criancinha de 3 ou 4 anos que teima em não deixar a mãe distrair-se com a leitura que trouxe de casa. Pelo rasto desordenado e pisado de migalhas de várias dimensões espalhadas pelo chão bicolor, o stock de bolachas já se terá esgotado e a criancinha, aparentado visíveis sinais de mais fome de bolachas e desenhos animados que não passam aquela hora no SIC notícias, esperneia e contorce-se, vocaliza sons desconexos e palavras ocas, sossegando apenas breves segundos quando fixa o olhar de um ou outro desesperado e comichoso esperante. Tenho que referir que quando olha para mim, não resisto, e garantindo que ninguém me observa, marimbando-me para a câmara de vigilância lá do canto, não resisto a fazer-lhe as piores caretas que consigo fazer, coisa na qual não sou muito talentoso, mas esforçado faço esgares que a petiz, para meu desespero, julga serem-me normais, prestando-me não mais que uns breves instantes de atenção para depois responder com a indiferença da sua inquietude insuportável.
Entre os outros esperantes é nítida a vontade de fuzilar o pequeno batoque, estrangular a impávida mãezinha e chicotear a funcionária da recepção que a todos parece ter prometido uma curta espera “que a doutora tinha apenas ido tratar de um assunto particular ao Vasco da Gama mas que já retomaria as consultas”. Tal vontade é nítida mas não é vísivel à mera empregada de limpeza que sem afinco se arrasta junto à máquina do café. Cada um dos pacientes impacientes tenta refugiar-se à sua maneira dos seus instintos, relendo pela décima vez a mil vezes mais que folheada revista “pais e filhos” de Fevereiro de 2003, abrindo o portátil para fazer palavras cruzadas no Word, tentando ler os lábios ou talvez despindo com os olhos a apresentadora muda das notícias, esticando as pernas pelos corredores, ou simplesmente, como eu, observando todos os detalhes da cena, ocasionalmente reparando nos minutos do relógio da parede. Tenho que me perder pela descrição da insuportável petiz, um paralelepípedo de carne que sai à mãe, untuosamente falando, mas bonitinha, como são todas as crias até dos répteis mais fossilizados. Tem o cabelinho cortado à tigela de corn-flakes, milimétricamente preto, da cor dos seus olhitos de azeitona de lata do Lidl, com os pulsitos e os tornozelozitos excessivamente revestidos duma generosa tez branca. Resumindo, um autêntico saquinho de batatas com a respectiva matéria adiposa espalhada uniformemente por todo o mal locomovido corpo. Nada disto impede a petiz de parecer o ser humano mais leve do mundo, de transpirar aquele felicidade própria da inconsciência infantil, no caso, inconsciência do seu estado volumétrico, inconsciência própria de quem se está realmente marimbando para tudo, de quem não adquiriu a capacidade de comparar e reparar nas diferenças, de quem ainda vive essa suprema exaltação da irresponsabilidade e da alegria que nostalgicamente invejamos, que inevitavelmente todos vamos perdendo com o progredir dos anos.
Surgem então lá ao fundo as inseparáveis meias pretas dos habituais saltos altos. A ausência da bata branca do costume revela uma sempre atraente médica alergologista, acrescida do bom gosto com que se veste na vida civil. Uma fugaz aparição porque a sua passagem é muito rápida, quase despercebida a quem agora pergunta se era a doutora que tinha ido ás compras ao centro comercial. Respondo que sim, eu que fui brindado com aquela visão, que mais uma horinha, porque daquela gente só estava à frente da mãezinha do saquinho de batatinhas, e estaria a actualizar o meu estado clínico a um curvilíneo mas muito profissional monte de rímel.
Viajo agora até ao futuro, não sei porquê, o que terá acontecido, mas estou agora num sítio igualzinho, mas sem criancinhas insuportáveis, acompanhado no entanto pelos mesmos desconhecidos companheiros de espera. Reparo que a criancinha está agora 30 anos mais velha, já não parece o saquinho que parecia, parece antes um pote gigante que lê a revista Maria que traz na capa uma figura do jet set acabadinha de fazer uma operação plástica. A senhora atende agora o telemóvel e nessa altura reforça, eu diria que, não há outro termo mais indicado, o trombil, supondo eu que só poderá estar a falar com o marido que trabalha por turnos, ouve-se a conversa, todos ouvem, espera há muito que lhe aqueçam o jantar. Há inúteis assim, que nem são capazes de aquecer os restos da janta de ante-ontem a jazer no frigorífico. Nada mais oportuno para realçar o semblante fucinheiro da senhora, por arrasto, todo o seu corpo desprovido de sentido estético, toda a sua adiposa frustração. Vinda da casa de banho, que é já ali ao lado, surge novamente o saquinho, saltitante, alegremente desafiando as leis da gravidade, repondo as leis do tempo. Não tinha viajado até ao futuro, quanto muito até outra cadeira com melhor perspectiva. Afinal, o pote que julgava eu ser a criancinha adulta, era a mãe da criancinha que entretanto aflita de qualquer um ou do outro órgão interno que lhe teria causado aperto, e já com autonomia suficiente para se ir aliviar sozinha, deixara o amparo maternal por breves instantes, parecendo a todos os presentes, inclusive a mim, que durante aqueles silenciosos momentos, teriamos sido transportados para um outro local incomparavelmente mais nirvanico.
Como é obvio, seguiram-se mais alguns minutos de agonia, até ser chamado pela funcionária que se presta àquelas coisas, para me deslocar para uma ante-camâra onde seria pessoalmente chamado pela simétrica doutora. E fui, qual momento mágico, aliviante, lá fui ouvido e oscultado com quase toda a atenção, lá fui medicado, remetido para mais exames enquanto abotoava a camisa, lá reparei na maneira peculiar como ela agarra na esferográfica, lá reparei no seu bem cuidado cabelo, na capacidade que alguém pode ter sobre o outro de o fazer alhear, esquecer de tudo menos de reparar em tudo. E lá me despeço com a cordialidade do costume, nem um sinal sequer de desagrado pela longa espera, veja-se a capacidade daquela pessoa, do seu efeito nada alérgico. Saio e esbarro com a criancinha, o entretanto justamente esquecido saquinho de batatas que estava agora muito mais calmo que há pouco. Tal sossego, talvez porque a mãe pusera a Maria de parte, pensei, enquanto caminhava na direcção da farmácia mais próxima, ficando no entanto longos segundos parado antes de virar a esquina do corredor, reparando na mãe e na filha, naquele contraste de pesos, que a pouco e pouco se iria desvanecer.
Deveria ser Lei: as criancinhas obesas deveriam ser sujeitas a dieta, desde pequeninas, sujeitas à prática regular de desporto. Por uma questão de prevenção de eventuais anomalias na sua auto-estima. Só por falta dela, muito provavelmente, alguém lê a Maria.

Publicado por jorge b em 10:53 AM | Comentários (2) | PÁGINA PRINCIPAL

julho 07, 2004

O Jorge é que saberá

Agora que metade do país parece curado da crise de cotovelo originada pela saída de Durão Barroso do governo (um autêntico milagre, a resposta ás preces de milhões de portugueses) para Bruxelas (reside aqui o problema, é que o paiszinho gostava de o ver sair de monco caído e nunca de forma triunfal, ainda que isso seja prestigiante para o país, ter um pau mandado de Bush a mexer cordelinhos na Europa), as atenções viram-se para o dramático dilema presidencial, o sim ou não a eleições inesperadas.
Espero que Jorge Sampaio saiba gerir bem esta incómoda fase de protagonismo, que não se meta em aventuras, e, por apenas duas razões, não convoque eleições antecipadas como é o desejo do pessoal bandeirinha.
As razões, a subjectiva:
Podia-se resumir a uma só frase bem portuguesa: “Para quê eleições, se a merda é a mesma!?” Para quê eleições, se seriam mais uma vez, dado o actual e eterno estado pantanoso da política, de “venha o Diabo e escolha” ? Existem realmente alternativas ? O gozo de passarem a haver mais um ou dois deputados do bloco de esquerda no parlamento não justifica eleições. Teríamos os boys do PS no governo, gentinha que apenas por acaso lambeu botas diferentes, na essência, não muito diferente da que por lá está actualmente. Depois, o altamente caricaturável Santana já veio sossegar a nação, jurando continuar com a mesma política (aquela mesma nação que durante estes dois anos estava contra a política do governo!).
A objectiva:
Historicamente, os 2/3 primeiros anos de governo são os mais austeros ao nível de regalias para as massas trabalhadoras, classe média por arrasto. Só mesmo à beira de eleições, os governos são mais generosos e corta-fitas. Ora, esses anos de penúria já passaram felizmente, estávamos precisamente a entrar nos anos desejados, com eleições daqui a dois, com a retoma anunciada, já se cheiravam uns aumentozinhos na função pública em 2005. No ano seguinte, ano de eleições, não me admirava que houvessem aumentos generalizados e actualizações salariais para recompensar o esforço dos portugueses nos passados anos de crise, glorificar a recuperação económica patrocinada pelo partido do governo. Com eleições inesperadas e um novo governo, com eleições à séria só para daqui a 4, seriam seguramente mais dois anos em que teríamos o habitual discurso miserabilista, teríamos mais dois anos pela frente de crise originada pela política do governo anterior, pela subida do preço do petróleo, pela instabilidade internacional, as razões do costume, nunca as verdadeiras razões.
Santana, remodela lá o governo e aproveita para te remodelares também um bocadinho. A gente aguenta bem dois anos.

Publicado por jorge b em 06:56 AM | Comentários (1) | PÁGINA PRINCIPAL

julho 05, 2004

Game over

"Hey now, hey now, don't dream, it's over.",
in musica esta manhã na TSF.

Publicado por jorge b em 09:26 AM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL

Euro dois mil e quatro

Volto ao blogue. A neura da derrota justifica-o. Foi a vitória do futebol defensivo, do anti-futebol. Soluções para o problema ? Aponto desde já quatro: abolir os fora de jogo, aumentar o tamanho da baliza (principalmente a adversária), colocar oftalmologistas nos staffs das selecções e despedir Scolari. O selecionador não sai isento de culpas desta escandalosa derrota. A começar pela teimosia Pauleta, a terminar pelas substituições que se em jogos anteriores tinham resultado por feliz acaso, neste ultimo foram desastrosas e só por feliz milagre resultariam. Depois, jogar todo o campeonato só com um ponta de lança ainda se justificava, agora, jogar contra os gregos (não sei se estão a ver bem, mas os gajos eram os gregos!) com Postiga no banco foi de uma incompetência doida.
Afinal, Portugal voltou a ser igual a si próprio, voltamos a perder com os mais fracos, a ganhar aos mais fortes.
Deixo aqui escarrapachadas as minhas sensações sobre as principais personagens. Acreditem que mesmo que ganhássemos, seriam exactamente as mesmas.
Ricardo – Não tem o carisma necessário para ser guarda-redes da selecção. Não transmite a segurança que uma equipa precisa de sentir lá atrás. Esteve mal nos golos que sofreu (à excepção do chapéu do inglês) e muito mal no golo grego. É preferível um guarda-redes frangueiro mas com carisma (Oliver Khan, por exemplo) que um sem carisma e que ande a apanhar bonés. Uma constante dor de cabaça para a defesa.
Jorge Andrade – Um dos melhores centrais do mundo. Sempre muito concentrado, o defesa que qualquer guarda-redes sonha ter.
Ricardo Carvalho – Tem lugar na equipa do Porto, ou seja, em qualquer selecção do mundo.
Nuno Valente – Um dos três melhores jogadores portugueses da actualidade.
Miguel – Muito regular, excelente a atacar e a defender, não resistirá muito tempo no Benfica.
Maniche – Apesar dos golos vistosos e decisivos que marcou, não gosto do estilo.
Costinha – Discreto, extremamente eficiente mas nunca de indiscutível titularidade.
Rui Costa – Talvez o melhor jogador português neste campeonato. Começou desastradamente mas nos jogos seguintes demonstrou ser o jogador mais inteligente, com melhor leitura de jogo, precisão no passe e no remate. Joga com classe, coisa que faz muita falta.
Figo – Uma agradável surpresa. Se tivesse brilhado neste ultimo jogo, não duvido que destronaria Eusébio do trono de melhor jogador português de sempre. Falhou. Apesar de casado com uma das mulheres mais bonitas que qualquer um de nós podia apontar, apesar de milionário, há algo de perdedor em Figo e que se revela em determinados momentos… cruciais.
Nuno Gomes – Só precisa de oportunidades mas também é bom a cria-las. É um ponta de lança de eleição, inteligente, rápido, uma oportunidade perdida neste europeu.
Simão – Podia e devia ter sido mais utilizado, principalmente nas segundas partes. Rápido e imaginativo, teria sido uma dor de cabeça para os defesas cansados das equipas adversárias. Outra grande oportunidade perdida.
Cristiano Ronaldo – Ainda se agarra muito á bola, ainda se perde em fintas giras, em toques de artista de circo, mas com o tempo isso passará. Tem potencial para ser um excelente jogador, mas alguma falta de velocidade e cabecinha nunca farão dele um sucessor de Figo.
Deco – A grande desilusão. Muito frágil e lento, não houve jogo em que Deco não merecesse ter sido bem substituído. Mas, escandalosamente, nunca foi.
Nossa Senhora do Caralhágio – A fé do mister Scolari em algo mais do que os seus próprios jogadores só podia ter um efeito negativo nestes ultímos. A juntar a isto, a publicidade de outros tipos de superstições estúpidas (a toalha branca de Eusébio, o presidente da federação não assistir ao jogos, por exemplo), só podem trazer maus resultados. E a verdade é que não vi a Nossa Senhora do Caralhágio dar um toque sequer na bola.
Nossa Senhora de Fátima – Mais uma que nunca vi marcar um golo. Apesar de ser mais que certo que esta gaja não perceberá nada de futebol, ela anda sempre na baila. Levaram-na inclusive para o balneário, onde alegadamente terá estado nas mãos de Figo. Depois deste Euro, só por puro masoquismo alguém pode continuar a apostar nela.

Publicado por jorge b em 02:16 AM | Comentários (2) | PÁGINA PRINCIPAL