Uma vez escrevi num fórum, que se por acaso algum dos autores ou autoras dos meus blogues favoritos deixasse subitamente de escrever sem aparente razão, isso só poderia significar que algo de bom demais lhe teria acontecido, suficientemente inesperado e delicioso para sequer perder tempo com desculpas ou explicações a eventuais leitores seguidores que qualquer blogger que se preze julga ter. Ficaria portanto eu, como leitor, com saudades, mas feliz por constatar que o combustível que lhe alimentava o ‘gosto’ por escrever altruisticamente, se tinha esgotado. Ou seja, que o desânimo, o desalento, a frustração, a desmotivação, o aborrecimento com alguma coisa da vida real, momentânea ou definitivamente tinham acabado. E portanto, quando acabam tais carburantes, o que mais pode levar um gajo a escrever num blogue ? Por exemplo, um gajo que ande passado, com uma gaja enfiada na cabeça e vice-versa, lá tem o mínimo de pachorra para escrever?... E logo num blogue? Tenham paciência, mas o blogue que vá ás urtigas, e com ele o contador de acessos e os comentários, pelo menos durante uns tempos, até a gaja começar a variar ou com coisas. Pensem bem, um gajo quando está mesmo a curtir (i.e., a viver intensamente determinado momento ao ponto de perder a noção do espaço e do tempo e do resto, principalmente), está cá preocupado em lembrar-se dos pormenores para depois os contar barra escrever mais ou menos lieterária e romanceadamente num blogue? Se o tivesse, estaria já a suicidar 90% da curte. O blogue será bom para a pós ressaca sentimentalona ou para momentary lapses of fun.
Mas ao contrário do que se possa pensar, nem eu nem Freud resumimos tudo à libido. Também para o barbas, o trabalho tinha uma importância primordial na realização e bem-estar psíquico do indivíduo. Ora, esta minha ausência não programada do meu querido blogue, deveu-se e receio que continue a dever-se, a uma alteração na minha vida profissional e não a qualquer delírio emocional ou queda anormal de cabelo. O ofício é o mesmo, mas mudou o local, tarefas e principalmente, um benvindo acréscimo no ordenadinho. Coisas suficientes para alterarem completamente a minha rotina, por exemplo, deixei de fazer os meus terapêuticos passeios diários de metro ao principio da manhã e ao fim da tarde, deixei a sobremesa de arroz doce, o arroto a imperial ao fim de tarde, e esqueci-me da password de acesso ao MT da weblog.com.pt (situação resolvida hoje através do método de hipnose com regressão a vidas passadas: encarnei um vidente do século XII que preveria o meu nascimento, o meu primeiro ataque de urticária, que password usaria para entrar no meu blogue e quantas sardinhas assadas comeria na noite de Santo António no ano de 2198). E a verdade é que, por estes dias, tenho-me sentido estranhamente motivado para o trabalho, uma sensação esquisita que há vários anos não sentia, que talvez nunca tenha sentido, esta euforia, ainda em fase de testes.
As mulheres com carências afectivas, por mais intelectualmente arejadas que sejam, tendem a, entre outras coisas, tornar tudo mais difícil, a transformar o simples em complicado. Será talvez no trabalho, na convivência diária e burocrática com os colegas, onde serão mais notórias tais carências... Se forem meras executantes subalternas, muitas delas tornam-se alvos predilectos da intolerância e chacota das outras, supostamente de papo-cheio porque casadas mas, por vezes, não menos frustradas. Se de alguma maneira puderem exercer o poder, tendem a ficar não menos neuróticas, entrando algumas delas numa espiral obsessiva de trabalho, de constantes inconstantes exigências para cima de quem tem que as aturar a soldo. A carência afectiva leva-as a ficarem mesquinhas, a quererem ter sempre razão em coisas para as quais não vale a pena ter razão. Arrancar duma mulher destas uma confissão do género “epá preciso mesmo dum gajo!” é uma tarefa que acarretará milhares e milhares de horas de terapia.
Nos homens, pelo contrário, a carência afectiva, a falta de gaja, leva-os a simplificar, a pensar que não há nada que uma gaja boa bem aviada não resolva, que mais tarde ou mais cedo, inexplicavelmente, alguém não muito parecida mas com as medidas exactas da Marisa Cruz, se sentirá atraída pela maneira como ele leva a caneca á boca e achará piada aos seus sapatos mal engraxados. Enquanto dura a mingua, reconhecem sem rodeios a sua lacuna, pensam que todo o sentido da vida se resume a comer gajas, confessam-no sem problema, mais imperial menos imperial. Ciciolina, ciente da importância que uma gaja boa pode ter na psique masculina, fez uma tentativa desesperada de salvar milhares de vidas, aquando da invasão do Iraque, tendo-se oferecido a Saddam, qual chupeta para o bebé chorão, se o gajo promete-se deixar de se armar em parvo. Hoje deve estar mais que arrependida, a velha toupeira de Bagdad. Cicciolina podia ser uma grande vacalhona, mas era loira®, era a Cicciolina®, um curvilíneo, reputado e experiente remédio santo para qualquer carência afectiva, capaz de pôr qualquer ditador islâmico de meia tijela e bigodes, a cooperar de boa vontade com a ONU. Não só a teria comido, como poderia exibir na parte de traz do carro oficial um autocolante a dizer “Eu comi a Cicciolina®!”, como ainda estaria no poder pelo menos durante mais algum tempo. Um paliativo é certo, mas o homem é um animal sem cura, onde, ao contrário da mulher, a carência afectiva é um estado eterno, permanente, característica de um ser débil sempre necessitado dos cuidados intensivos dessa incubadora que é o amor, ou pelo menos o afecto, ou pelo menos a atenção, ou pelo menos o corpo duma mulher, pelo menos.
No entender do povo, a nossa actual ministra das Finanças, talvez pela maneira tirânica como (mal) trata o pequeno e médio contribuinte, é uma mulher carente, com inconfessável falta de homem (vide post anterior) e de uma vassoura e avental, acrescento eu. Acredito perfeitamente que se ocorresse nela, tal como pode acontecer a todos, uma inesperada revolução sentimental, daquelas que toda a vida muitos perseguem e jamais experimentam na sua plenitude, desempenharia melhor a função de Estado que lhe foi confiada, i.e. haveria mais respeito e investimento público, nas coisas e nas pessoas.
O povo tem suportado mal o seu azedume e a continuar a actual política financeira do Estado, se não surgem depressa sinais da retoma ou da vida amorosa da ministra (uma fotos escaldantes na ‘Caras’ ajudariam a apaziguar os ânimos) não será de admirar que se gere em Portugal uma enorme onda de solidariedade, à boa maneira portuguesa, com cheirinho a ‘Ídolos’: arranjar-lhe um gajo, em nome da boa governação e da saúde mental da nação, um Cicciolino, que faria esse sacrifício pela pátria.
Vendedora Zulmira – Fora com ela! Aquela cara-de-pau da primeira–ministra, aquela Leite, fora com ela. Ela precisa é de homem. A ver se a casam.
Outra vendedora – Ai que eu tenho que explodir. Fora com a papona.
Zulmira – Assanha-te, filha, assanha-te!
Diálogo entre vendedoras, ontem, durante a campanha eleitoral do PS, in “Diário de Notícias”.
18:45: Estou há 20 minutos ao balcão duma clinica médica, à espera de ser atendido, de me ser prestada atenção. Repare-se que não espero há meia hora ou muito menos uma hora. Eu não costumo exagerar nas coisas, tempos de espera, medidas, proezas minhas. Abro excepção para as percentagens. É mais forte do que eu, 90% das vezes exagero. Mas estes precisos 20 minutos julgo que ilustram bem o desespero de alguém que espera e se coça. E comigo estão mais algumas pessoas, à minha frente mas ao meu lado. A funcionária, sentada do outro, decote generoso, único pormenor de relevo, que ainda assim alivia penosa espera, está a dar prioridade ao telefone. Por cima, uma raridade com botões salientes, uma televisão a preto e branco muda. Estou quase a ficar sem paciência e sem bateria. Quando despacha uma chamada, na sua maioria chamadas para marcar ou desistir de consultas, parece-me, logo de imediato o telefone volta a tocar, e a funcionária pára tudo, os carimbos, para o atender. Farto de esperar, resolvo pegar no telemóvel que ainda sobrevive, e ligo para a clínica. É ela quem me atende, a funcionária do decote, logo após ter terminado a chamada anterior. Estou ao fundo da sala de longa espera e pergunto-lhe se o doutor está, ‘está sim’, se me pode fazer hoje o teste de alergia, ‘só um momento’, e vejo-a ausentar-se perante a cada vez maior impaciência de quem espera. Está de volta poucos queixumes depois, ‘o doutor poderá fazer-lhe o teste mas só se conseguir estar cá até ás 19h’.
- Mas com certeza que sim, estarei aí num segundo.