abril 30, 2004

Riscos sentidos

Aqui há tempos bradava ao meu relógio novo. Escrevia aqui como se finalmente fosse o relógio que jamais teria um risquinho que fosse na campânula de plástico que supostamente protege os dois ponteiros discretos e o outro irrequieto. É sempre assim com tudo o que tenho mais ou menos recentemente, esta ilusão inicial de que o tempo mole não vingará sobre a duritia das minhas paixões. Aconteceu com o meu carro, de que já aqui também falei, imaculadamente encontrado num stand de carros usados, sem o mínimo risco, mesmo ao fim de intensivo uso, a julgar pelo conta-quilometros e pelos pneus que prontamente mandei substituir senão não se fazia negócio. Dedicado e cuidadoso proprietário teria tido, que me deixava um legado de responsabilidade do qual me julguei digno, me propus continuar, preservar na perfeição a chaparia azul escura que elegantemente sempre vestira aqueles 90 cavalos.
Cada vez que adquiro alguma coisa penso sempre que a vou estimar como estimo o meu querido blog, a minha querida família, o meu querido eu, sem qualquer ordem de preferência. Mesmo com peças de vestuário sou assim, tenho sempre a ilusão de que como já parei de crescer, a roupa irá durar-me para sempre. Pensamento mais que ingénuo, pois que dadas as características da minha barba, não há colarinho que resista mais de 3 a 12 meses, segundo a minha ultima sondagem, dependendo do uso, sendo que acusam sempre maior desgaste as camisas preferidas.
A verdade é que me apaixono por tudo o que compro, e tudo o que compro é por paixão. Logo, a minha exagerada estima, sempre quebrada com a primeira nódoa que não sai, o primeiro buraco que não se coze, das garras dos meus amigos felídeos, o primeiro risco. E o meu relógio, acaba de sofrer o seu primeiro dos seus golpes de misericórdia, assim como o meu carro sofreu a sua primeira cacetada, muito mais que um simples risco daqueles que aparecem misteriosamente não sabemos como, naquele fatídico dia à entrada da ponte, quando um gajo qualquer numa mota se pôs a zigzaguear os carros parados na bicha, até fazer apenas zig no meu.
Não me perguntem porquê invisíveis leitores, mas as minhas queridas visíveis coisas depois de riscadas a primeira amaldiçoada vez, depois de impolutas, parecem perder imediatamente a graça, a gracinha toda. Mesmo que depois reparadas pelo mais exímio dos artesãos, substituídas por peças com as mesmas medidas, cessa de imediato a minha preocupação em proteger os meus apaixonados haveres. E para quê dispêndio de mais adoração e cuidados, se já têm marca visível do meu escandaloso descuido ? Mesmo que disfarçada com excelência, são por demais sentidas as imperfeições das quais sou cúmplice.
Mas eis que penetrando ainda mais, sempre obscura tarefa, no meu auto-conhecimento, reparo no anterior relógio, agora abandonado e esquecido sem pilhas e, imagine-se, sem uma única mácula, sem único risco humanamente perceptível, além do desgaste natural e até charmoso do tempo. Um relógio, como os meus antigos óculos, com vidro anti-riscos a fazer de campânula transparente. Na altura em que por aquele meu relógio me apaixonei, estava ele numa montra a chamar-me sem que mais ninguém ouvisse, mesmo como eu gosto, e minuto depois nas mãos hábeis da relojoeira, que lhe colocou uma pilha nova, fazendo a senhora experimentada vendedora questão de frisar da característica daquele vidro, que decididamente seduziu o meu cartão de crédito.
E o meu ilustre relógio inrriscável, que ainda dura, durou-me alguns anos, despercebidamente, até a um exaustivo desleixo utilizado, até que os primeiros sinais de lassidão começaram a dar horas, revelando-me esta verdade, depois de acertados os ponteiros: todas as minhas paixões, mais cedo ou mais tarde, ganham os seus riscos. Se não nas campânulas, noutro sítio que não vejo, mas sinto.

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abril 29, 2004

The Wicker Man

A caça e a caçadora.

Publicado por jorge b em 10:34 PM | Comentários (1) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 27, 2004

Destino ao acaso

Mais uma semana que passou sem que eu jogasse no totoloto. Até era minha intenção apostar no jackpot desta semana mas, como sempre, deixei que o destino decidisse por mim… Confio-lhe estas pequenas trivialidades porque tenho mais que fazer. Como é isto ? Simples, por acaso, por aqueles dias que antecederam o escrutínio, não passei por nenhuma seta a piscar em néon, a indicar um local de recepção de apostas. Se por acaso quisesse o destino que eu jogasse, ele teria posto a bendita seta no meu caminho. Passei antes por uma daquelas cruzes verdes cintilantes, também de néon, que identificam as farmácias. Assim quis o destino, e lá fui comprar mais duas caixinhas de valdispert.
Quero antes dizer o “acaso” porque o “destino” já tem direitos de autor. Acredito no acaso, que se lhe dermos rédea acontecem-nos coisas boas pela certa, quase sempre. Tudo acontece por acaso, pelo menos a primeira vez de tudo e são essas as coisas que melhor gosto e, se não tivermos cuidado, desgosto, deixam na alma...
Já me aconteceram coisas extraordinárias por acaso, sempre que confiei no acaso. Por exemplo, eu costumo fazer uns pequenos negóciozitos com acções, acçõezitas. Já comi uns jantarzões à pala de alguém que nunca vi mas me comprou umas acções da Pararede a um preço exorbitante depois de eu as ter comprado ao preço da chuva (é assim que funciona isto da bolsa). Também já ganhei umas tantas dores de cabeça cujas perdas, o providencial Tiger Balm dos chineses e umas ordens ‘stop-loss’ sempre amenizaram. Já me aconteceu sentir um impulso incontrolável, ditado pelo instinto, de vender determinado papel, ligar para o meu banco para dar a ordem, e o telefone estar interrompido. Pensei então, “isto é o destino, o acaso, perdão, o acaso a alertar-me, a impedir-me de vender estas acções. Isto pode ser um sinal, de que elas ainda vão subir, que chegarão ao preço exorbitante mas suficientemente tentador para alguém depois as comprar e eu ter dinheiro para ir jantar ao “Las Brasitas”. Só lucro, vindo desse especulativo nada, dessa negociata fácil e algo obscena (é assim que funciona isto da bolsa). E não insisto mais pela chamada, convencido. Aconteceu eu não dar a tal ordem, e as acções realmente amarinharem pelos gráficos de cotações acima, nos dias, semanas que se seguiram. Não podia estar mais grato ao acaso por naquele momento em que pretendia dar a precipitada ordem ao meu banco, por acaso, o telefone estar ocupado.
O problema, é que o acaso não é de confiança. Nem sempre resulta. Já me aconteceu ver na televisão dois aviões espetarem-se contra duas torres e correr logo para o telefone, porque sabia da hecatombe que iria acontecer nos índices. Mas nada de confusões, eu não estava em pânico até porque os índices já se arrastavam pelas ruas da amargura. Mas como sabia que com os atentados as cotações iam descer ainda mais, telefonei para vender mesmo a perder dinheiro para depois, assentada a poeira, recomprar a preço mais baixo (é assim que funciona isto da bolsa). Naquele fatídico dia, por acaso, do banco não atenderam a minha chamada. E o quanto eu insisti...
Naturalmente que isto não era o acaso a dizer-me “não vendas que as acções não vão cair”. Isto era um engarrafamento fenomenal de ordens de venda por telefone, de gajos, esses sim em pânico, que se tinham antecipado a mim.
O ideal ideal, é sermos nós mesmo donos do nosso destino, sermos nós próprios a ditá-lo e controlar o mais possível o “acaso”. Coisas para as quais não terei muito jeito mas que em linguagem bolsista se poderiam designar por “inside-trading”(aquela informação privilegiada e outros meios de manipular cotações a que certos gajos têm acesso (é assim que funciona isto da bolsa)).
Exemplo vivo duma eximia controladora do destino e dos acasos é a bar-women que me tira umas imperiais regularmente. Há cerca de 2 anos, a conversa arrastava-se um pouco mais para além da hora do costume, e às tantas já falava mais ela que eu (o que apesar de não ser muito difícil, não é normal), apenas porque naquele dia os problemas de consciência por ter deixado acabar os tremoços impeliam-na a dar-me mais atenção que o costume. É suposto ser ao contrário, e já tem sido, o cliente escritor de blog a desabafar a falta de inspiração com o outro lado do balcão. Mas naquele dia, contava-me dos seus planos para o futuro, e fê-lo com uma certeza implacável onde não havia lugar para o imprevisto, o acaso. Como já a conheço, não de ginjeira como talvez não me importasse, mas o suficiente, lembro-me de na altura lhe ter dito que não duvidava um segundo que ela conseguiria alcançar todos os seus objectivos, e que tinha uma beleza tipicamente portuguesa (isto não vem ao caso, eu sei, mas foi o que lhe disse, aproveitando a embalagem). Seria até muito mais difícil eu alcançar a porta da rua sem tropeçar numa cadeira que ela, repare-se, estar casada dali a um ano, grávida um ano depois, mudar de casa 3 anos após, assim implacavelmente. Ainda lhe perguntei sobre os acasos, como os são as infidelidades conjugais, os jogos maquiavélicos das sogras, a subida das taxas de juros e outros acidentes de percurso na vida dum casal... Mas não, acontecesse o que acontecesse, estava ali uma mulher que tinha mão de ferro sobre o seu próprio destino, destino esse enclausurado entre timmings medidos quase ao milésimo, sem lugar para atrasos ou acasos.
A verdade é que ela casou há um ano atrás, e agora está grávida de quatro meses. Não há inflação, cortes nos aumentos, guerras preventivas, medos do terrorismo, facadinhas no matrimónio, nada a irá impedir, tenho a certeza, de alcançar os seus objectivos.
Confesso que sinto alguma inveja de pessoas assim, que traçam rumos e objectivos na vida com grande antecedência, que se propõem por vezes a tarefas grandiosas e de grande responsabilidade como o são, por exemplo, trazer um filho ao mundo conturbado dos nossos dias, e depois os cumprem eficazmente. Apesar da encruzilhada de caminhos, mantêm um rumo fixo, fieis à bússola do dever, coisa que nem sempre é compatível com a volatilidade do desejo, das tentações, afogadas sabe-se lá como. Mas tal pode ter um preço que mais tarde ou mais cedo se tem de pagar. É que contornar o acaso pode ser como comer comida já mastigada, ver um filme do qual já sabe o fim ou levar uma vida inteira a fugir ás dívidas.

Publicado por jorge b em 09:30 AM | Comentários (1) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 26, 2004

O Pedro é que sabe

"Antes do 25 de Abril tínhamos um regime autoritário. Agora temos uma partidocracia e o poder dos poderosos. Antes não podiamos ler os livros que queriamos, agora a corrupção alastra. Antes pertencia a um grupo comunista clandestino. Depois, nunca votei. Antes sentia nojo, agora sitnto muitas vezs, asco."
Pedro Paixão - em resposta à pergunta 'o que ganhamos e perdemos em 30 anos de democracia ?', num folheto publicitário da FNAC.

Publicado por jorge b em 09:20 AM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 22, 2004

Temíveis focas

Tenho um novo teclado sem fios mas com carraças. Já é a segunda que apanho, desta vez a passear-se entre as teclas F7 e F8. Dedico alguns minutos do meu tempo a estudar a carraça, esse bicho algo esquecido nos nossos dias e bastante discreto, pelo menos ao principio, antes de inflar de sangue e parecer um smartie na testa do nosso cão ou gato. Tenho horror a carraças porque consigo facilmente imaginá-las com aquelas patinhas a perfurarem-me a carne, a sugarem-me o sangue, e eu só a dar por isso quando abro a braguilha...
Não interessa o que uma carraça é por fora. O que conta é o seu interior.Mato-a da seguinte maneira; encaminho-a para o interior duma tira de post-it. Ela acusa o contacto com a parte colante e então dobro o papel, ficando o bicho preso entre duas tiras. Pouso o papel dobrado com a carraça acomodada no seu interior, e com a ponta duma caneta bic, esmigalho-a. É um bicho resistente, a carraça e a sua carapaça, mas aquele pequeno ‘clic’ denuncia o seu fim. Toda a cena é observada atentamente por essa reserva ecológica nacional de carraças que é o meu gato Nicol. O gajo é um vadio do car(r)aças. Como não tenho coragem de o reter em casa, sensível que sou aos seus miantes apelos por liberdade, ar puro e porrada com os outros, deixo-o sair para o mato, para ir apanhar ratos dos pequenos, o seu passatempo preferido. Por seu turno, ele deve ser o passatempo favorito das carraças das redondezas.
Quando for grande quero ser um casaco de peles.Lembro-me das focas, cujo extermínio, dizem que calculado, é subsidiado pelo governo do Canadá, barbaramente em nome do equilíbrio ecológico. Mas que eu saiba, as focas não são nenhum parasita, antes pelo contrário, gostam de sardinhas fresquinhas como nós gostamos (se o problema é esse, deixo de comer sardinhas, deixem viver os bichos), devem ser um pitéu apetitoso para as outras espécies acima delas na cadeia alimentar, e são um regalo para os nossos olhos, vê-las felizes e contentes nos documentários da National Geographic, quando não há tubarões por perto. Não existe febre da foca, ao contrário da perigosa febre da carraça, vulgo erlichiose. Por isso, gostaria de ver o mesmo empenho que os estados e os caçadores têm para matar aqueles mamíferos perigosamente inofensivos, aplicado à exterminação das carraças. Uma primeira boa medida neste combate, seria a diminuição do preço ou a subsidiação por parte do estado, das coleiras anti-carraça cujo preço é exorbitante. Depois, munidos de blocos de post-it e canetas bic, era pôr os actuais caçadores de focas, coelhos, e outra caça que nunca fez mal a ninguém, a bater mato, catar animais mundo fora, exterminando os parasitas inúteis. Bastaria arranjar-se uma pequena utilidade industrial para a carraça, para justificar toda a matança. Podiam-se fabricar, por exemplo, casacos de peles de carraça... Era uma ideia.

Publicado por jorge b em 03:54 PM | Comentários (3) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 21, 2004

#1

Prémio 'Melhor etiqueta de lingerie feminina'

Publicado por jorge b em 02:04 PM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 19, 2004

Falta de Elsa

Blogues: “Aqueles sítios na Internet que servem para afagar egos, lançar calunias e mimar os umbigos.” Escrito assim no “24 horas”, (esse baluarte dos bons costumes) em semana em que a Elsa Raposo não mudou de namorado, numa daquelas secções de tricas que nunca resistimos a ler.
A autora destas palavras terá tido porventura contacto com alguns blogs que fazem parte dessa grande maioria que gosta real e descaradamente de afagar egos, lançar calunias, mimar e tirar cotão dos umbigos, acrescento eu. Os restantes blogs também são assim, mas disfarçam mais ou menos bem.
Seguindo aquele raciocínio afectado da colunista, por exemplo o sexo será então aquela actividade dispensável que só serve para afagar corpos e ter orgasmos.

Publicado por jorge b em 09:54 PM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL

Nada de confusões

Durão Barroso está convencido que apesar de retirar do Iraque, a Espanha continua a ser um potencial alvo de ataques terroristas, muito mais que Portugal. Presumo que só mesmo se os Espanhóis oferecessem as armas e erguessem estátuas em memória dos terroristas, então sim, estariam menos susceptíveis a ataques. Rezemos pois para que os terroristas, pelo menos esses, não nos confundam com uma província Espanhola. Barrosamente, só mesmo por mera confusão geográfica, o povo amigo português, terra da mítica Al-gnr, será atacado.

Publicado por jorge b em 09:52 PM | Comentários (1) | PÁGINA PRINCIPAL

Problemas de workflow

O principal problema do Benfica não está afinal no ataque, na falta deste ou daquele jogador, ou na franja do Nuno Gomes. O problema é antes a defeituosa comunicação entre as diversas sociedades. Na passada sexta feira, os responsáveis pelo relvado do estádio da Luz ficaram fulos com Camacho (Benfica Treinador, SA.). Estava combinado que não haveriam treinos no estádio, para poupar a relva para o Euro, mas parece que o espanhol continua a perceber mal português e houve mesmo treino. Segundo a Benfica Estádio,SA. (os que ficaram fulos), terá havido uma deficiente comunicação entre aquela SA e o departamento técnico do Benfica (Benfica, SA). Entretanto só hoje a Benfica SGPS soube que a Benfica Apanha Bolas, SA. já pediu autorização à CMVM para dispersar o seu capital social em bolsa.

Publicado por jorge b em 09:43 PM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 15, 2004

Rock in pântano

Olh'ó festivau!Começo a desesperar pelo dia seguinte ao último dia do festival rock in rio. A ver se acaba, duma vez por todas, se oferecem os bilhetes que têm para oferecer, vendem os outros e as cervejas que têm para vender, pagam as contas, pagam as fortunas às estrelas, as suites milionárias, demais mordomias, e se despacham. Já não há mais pachorra para este tipo de peregrinação colectiva tão consensual, para tanta promoção e veneração, para o histerismo e a megalomania gritante deste festival franchising.
Ilustração: Nuno Alves, in www.who.pt

Publicado por jorge b em 02:17 PM | Comentários (2) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 14, 2004

Irony

Vinte e um anos depois do lançamento do primeiro relógio que até condizia com as calças, compro finalmente o meu primeiro Swatch, a condizer mais com a minha carteira. Suponho que era inevitável, mais tarde ou mais cedo, teria de acontecer, eu aderir, render-me. E o facto de ser “o meu primeiro” não augura nada de bom.
Se há alguma coisa física que deveria passar de avôs para netos, seria um bom relógio. O que eu não daria para ter, do meu avô, um relógio estrangeiro duma marca estilo apelido impronunciável & apelido esdrúxulo (o & é um bom sinal numa marca de relógio de pulso), que tivesse resistido às agruras das pocilgas (sim, o meu avô paterno foi criador de porcos, já não se usa, eu sei), e hoje ainda funcionasse que nem um relógio suíço... Assim, dele tenho esta falta de cabelo. Não houve relógio que resistisse, assim como este Swatch Irony, apesar do plástico e do alumínio não serem biodegradáveis, não resistirá às agruras dos meus impulsos consumistas. Passará quanto muito deste ano para o ano que vem.

Publicado por jorge b em 11:58 AM | Comentários (1) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 11, 2004

Má rês

Se havia dúvidas ainda sobre a perfídia do deus cristão, atente-se nesta pérola da mais requintada malvadez, a cena da travessia do mar vermelho, trazida até nós por esse relato bíblico altamente credível e conceituado que é o filme “Os dez mandamentos”, um must da Páscoa televisiva portuguesa.
Moisés está com o povo de deus, os escolhidos, à beira do mar a apanhar sol e a brisa fresquinha, quando surgem no horizonte os egípcios e as suas quadrigas, cheios de ganas de ir ao canastro aos gajos, principalmente partir ao meio o Moisés e a mais o seu bastão. Sentimento mais que natural, depois da gracinha das pragas.
O líder e dono do bastão (curioso ver que com o tempo, tal como aconteceu com os telemóveis, o bastão foi sendo reduzido no tamanho, até à varinha mágica dos nossos dias) num magistral golpe de magia, aparte as águas, abre um caminho seco pelo mar, de maneira à maralha poder passar para a outra margem e assim escapar de erguer mais pirâmides, poder ter a honra de contribuir para a realização dos mais fabulosos tesouros arquitectónicos de sempre.
Vendo que se aproximavam perigosamente do seu rebanho, deus resolve dar uma mãozinha e ergue uma parede de fogo para barrar o caminho aos egípcios, dando assim tempo da súcia calmamente recolher os tarecos e prosseguir viagem. Quando já está todo o magote em segurança na outra margem, em vez de repor de imediato a circulação marítima na zona, como mandariam as boas maneiras, o deus biltre resolve antes cortar o gás e a parede de fogo extingue-se, dando assim luz verde aos egípcios para avançarem. E os egípcios caem que nem ratos naquela armadilha perversa. Lançando-se mar dentro no encalço dos cordeiros de deus, aproveitando a maré propicia, quando estão todos entre aquelas paredes de água, o filho da mãe do deus, numa manifestação do mais puro sadismo só ao alcance das mais pérfidas mentes, resolve abrir as comportas, afogando centenas ou até talvez milhares de egípcios e respectivos cavalos. E se o nóbel Saramago pergunta e muito bem, se deus é o pai de todos, quem é o pai de deus; apetece-me perguntar também, de quem eram filhos aqueles afogados, homens e equinos ? Eram órfãos ou filhos do diabo (o que duvido, porque só para lixar a igreja, o diabo deve usar preservativo) os egípcios, que no fundo só seguiam ordens do faraó e que, para cumulo, se escapa ficando ainda com a gaja mais boa da estória (a Nefritiri)?
Na outra margem e em segurança, os cordeiros contemplam, impávidos e serenos, toda a cena macabra do criminoso acto de afogamento colectivo. Até os americanos, milhares de anos mais tarde inventariam as vulgares cenas de cinema em que os bons, vendo os maus a afogarem-se, ainda lhes dão a mão, embora sempre em vão. Só por aqui se vê o calibre daquela gentinha obcecada pela terra prometida.
Este episódio demonstra bem a má rês que é deus e por arrasto os seus seguidores mais acérrimos. As coisas podiam ter sido feitas de outra maneira e com muito menos sofrimento, com um mínimo de bom senso, respeitando as mais elementares regras de humanidade e sem sucessivas violações ao Código Penal de qualquer país, até o do Zimbabué. E não posso deixar de pensar nas crianças cordeirinhos de deus que na altura presenciaram toda aquela cena, a imagem de milhares de corpos a boiar inertes no mar vermelho, a influência traumática que o acontecimento terá tido sobre elas.
Tenho esperança que um dia deus ainda seja julgado por este e outros actos hediondos que ao longo da história tem cometido e continua a cometer contra a humanidade. Até pode ser que ele não tenha a culpa de ser assim. Mas se é inimputável, alguém que lhe puxe as orelhas e o tire dali para fora.

Publicado por jorge b em 09:50 PM | Comentários (4) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 09, 2004

Volta censura, volta

Por esta hora cerca de 90% da comunidade internauta lusitana já terá consultado no google a palavra “estúpido”, que remete para uma lista de sites relacionados com o tema, surgindo no topo o endereço do site governamental, concretamente, a página da biografia de Durão Barroso, o nosso primeiro ministro. Quero acreditar que Durão já tenha conhecimento desta associação entre aquela qualidade nada honrosa e a sua pessoa, aquela alusão que é no fundo o sentimento generalizado da grande maioria da população. Mas muito naturalmente, Durão estará a burrifar-se...
Quarenta anos atrás e a esta hora já havia merda. Algures num gabinete qualquer da PIDE, um inspector lacaio do antigo regime tinha já entre mãos uma lista de 90% de internautas candidatos ao Tarrafal. Salazar levava muito a peito estas coisas, estas bocas do género “estúpido” num motor de busca levar à sua biografia. Ofendia-se, picava-se. A palavra aliada à verdade, formava uma combinação explosiva capaz de agitar consciências e levar as pessoas a agir. O respeitinho pelas instituições era muito bonito assim como a ignorância de quem devia respeitar. Também o poder tinha um grande respeitinho pela palavra, perigosa sempre que livre. Daí a censura, essa instituição que se por um lado tentava estúpida e ingloriamente silenciar e castrar a palavra, por outro dava-lhe a força que só a palavra proibida podia ter, transformando-a numa arma que ia minando irremediavelmente o regime.
Em contraponto, os actuais regimes democráticos, herdeiros das velhas ditaduras com as quais muito aprenderam, principalmente a não cometer os mesmos erros, levam muito pouco a sério a palavra, quando não raros os casos a ignoram por completo. Toda a palavra é autorizada sob o manto aparentemente protector da liberdade de expressão, e é até bem vinda porque quantas mais melhor, maior a rebaldaria, fenómeno saudável mas explorado habilmente por quem tem o poder em proveito próprio. Censura sim, mas não contra a liberdade de expressão e da palavra, antes contra a liberdade da existência, coisa que nem por ela se dá.
Para o poder (so called) democrático são tão inofensivas as palavras, que só agregadas a qualquer espécie de violência podem fazer mossa. Violência essa convenientemente baptizada de “terrorismo” seja qual for a sua natureza, desde que seja contra o Estado, por mais fetidamente democrático que seja. Num “deixa-os falar” preocupante, os governantes marimba-se para a (so called) opinião pública pacifista, esse inimigo anódino, que sabem com muitas bocas mas poucos punhos.
O caso do presidente dos Estados Unidos é um exemplo flagrante do descrédito em que caiu a palavra e a consequente usurpação do espaço vital da verdade e razoabilidade pela estupidez e prepotência. Se ainda fosse possível depois de Clinton, Bush é actualmente a pessoa mais contestada (e gozada) do planeta. E com toda a razão, clara, factual, clínica e objectivamente. Mas de nada tem adiantado a indignação global acerca das políticas e do estado de saúde psíquica do júnior, um autêntico ditador legal a prazo de quatro anos, que mais que chegam e sobram para enterrar ainda mais o planeta num sufoco de ódios e medos. Ele lá continua na sua cruzada, cagando-se para tudo aquilo o que se diz e se apela, num exercício de insensibilidade atroz à palavra e a consciência global.
Em Portugal, situação semelhante se passa com Barroso, que perante a espiral do consumo de anti-depressivos, de desemprego, perante a hecatombe não só económica mas principalmente dos valores e da descaracterização nacional, continua impávido e sereno, a fazer aquilo que acha melhor para o país (alguém duvida que Salazar também não achava que fazia o melhor para o país ? ), i.e. mantê-lo obediente à ditadura da percentagens ditadas por um (so called) pacto de estabilidade.
Não seria de admitir que sendo alvo de chacota e indignação nacional mais que visíveis por toda a parte, o primeiro ministro interrompe-se um dia destes a novela da noite para emitir um comunicado ao país ? Afinal, o porquê da associação da palavra “estúpido” (pelo menos) num motor de busca (pelo menos) com a sua pessoa, porquê ?! Porra, não é isto suficientemente grave, humilhante ?! A mim tirava-me o sono e não descansava enquanto não pusesse tudo em pratos limpos. Então puseram-me aqui e agora chamam-me de “estúpido” ?! Vão lá gozar com o raio qu'a parta! Que raio de democracia é esta, que raio de primeiro ministro sou eu afinal ? Mas o primeiro ministro é algum árbitro de futebol para ouvir e ficar calado ? Era esta a pergunta que um estadista como deve ser faria a todos os portugueses: “Epá digam-me, sinceramente, porque é que me acham estúpido ?!” E a malta dizia o que achava, explicava-lhe que ele já tinha em dois anos de governação dado provas inequívocas da sua fraca qualidade como primeiro ministro, que nestes dois anos já tinha envergonhado a nação por duas ou três vezes, o suficiente para não suportarmos mais aquele seu tom de voz muito tio da linha, muito cheio do papel de Portugal no seio da comunidade internacional e tal... Comunidade internacional o tanas!! Nós não queremos ter nada a ver com esses gajos! E depois da nossa explicação, se ele tivesse vergonha, dava o lugar a outro, saia sorrateira e prematuramente para o conselho de administração duma qualquer empresa cotada na bolsa de Luanda e não nos chateava mais.
Mas, ora, ora, não nos esqueçamos de que se tratam de palavras… “Estúpido” é uma palavra, ainda por cima toscamente arremessada contra o estado das coisas, assim com sabor a anedota. Por mais eco que tenha um sentimento generalizado, através da palavra, por mais que se repita e constate uma evidência e uma realidade, enquanto for a palavra a fazê-lo, jamais terá o mesmo efeito dum ovo podre bem pregado nas trombas. Ok, democracia, há o voto, ou o poder do voto, esse preguiçoso dever cívico. Mas a democracia menos imperfeita deveria conter mecanismos mais imediatos para punir a incompetência, que é disso que se trata, sem que se tivesse de esperar tão resignadamente pelas próximas eleições.
Perante o descrédito galopante da palavra, só podia ver com bons olhos a restauração da censura. Existem os Tribunais é certo, para crucificarem tantas vezes verdades que atentaram contra o bom nome dum senhor corrupto qualquer, que só na consciência podem ser provadas e que assim ficam por absolver. Mas não têm a mesquinhês paternalista da censura, muito mais preventiva que repressiva. Só podia ser bom sinal o regresso dos censores, sinal de que a palavra tinha voltado a ter força e consideração, a impor respeito, a ocupar o espaço cada vez mais usurpado pelos interesses daqueles que detém o poder político e económico e que fazem da palavra actualmente um parente pobre da verdade, uma mera distracção, mercadoria transacionável e manipulável que decora muitos dos livros, blogs e jornais que se lêem. A palavra parece cada vez mais deixar de ter a força capaz de levar à acção, à (r)evolução das mentalidades que sempre provocou.

Publicado por jorge b em 01:11 AM | Comentários (5) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 06, 2004

Despertar

E água, aluminium chlorohydrate, cyclomethicone, paraffinum liquidum, peg-40 stearate, cetyl alcohol, glyceril stearate, parfum, peg-8, c12-15 alkyl benzoate, trisodium edta, glyceril laudate, perssea gratíssima, octyldodecanol, debaixo dos braços.

Publicado por jorge b em 10:05 PM | Comentários (4) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 02, 2004

Três Rolexs

Em primeiro plano, Blue, depois Lucas e o Nicol.
O relógio
"Os chineses vêem as horas pelos olhos dos gatos.
Certo dia, um missionário, passeando no distrito de Nanquim, notou que se havia esquecido do relógio e perguntou as horas a um rapazinho.
Ao primeiro instante, o garoto do Celeste Império hesitou; depois, pensando melhor, respondeu:
- Vou dizer.
Decorridos alguns momentos, reaparecia, segurando nos braços um gato muito gordo; e, fitando o animal, como se costuma dizer, no branco dos olhos, afirmou sem hesitação:
- Ainda não é exactamente meio dia.
E era verdade.
Por mim, ao inclinar-me para a bela Felina, a de nome tão adequado, aquela que é ao mesmo tempo a honra do seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu espírito, - quer de noite, quer de dia, em plena luz ou na sombra opaca, no fundo de seus olhos adoráveis, vejo sempre, nitidamente, a hora, sempre a mesma, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisões de minutos nem de segundos, uma hora imóvel que não é marcada nos relógios, e todavia leve como um suspiro, rápida como um olhar.
E, se algum importuno me viesse interromper enquanto o meu olhar repousa sobre este delicioso relógio, se algum Génio descortês e intolerante, algum Demónio do contratempo me viesse dizer : -"Que é que estás a mirar com tamanha atenção? Que buscas nos olhos dessa criatura? Vês acaso neles a hora, mortal pródigo e vagabundo?"- eu responderia sem
hesitar: - "Sim, vejo a hora: é a Eternidade."
Pois não é, senhora, que fiz um madrigal verdadeiramente meritório e tão cheio de ênfase quanto vós mesma? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esta preciosa galantaria que não vos pedirei nada em troca.”

Charles Baudelaire (1821 - 1867), traduzido por Dorothée de Bruchard, aqui.

Publicado por jorge b em 02:03 AM | Comentários (2) | PÁGINA PRINCIPAL

abril 01, 2004

e deixar o ecstasy

“Ver o mundo num grão de areia
E um Céu numa flor selvagem,
Ter o infinito na palma da mão
E a Eternidade numa hora."
William Blake (1757-1827)

Publicado por jorge b em 02:06 PM | Comentários (0) | PÁGINA PRINCIPAL